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ELENA A classe dos sobreviventes

Estado Crítico

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Apesar do dilema moral, Elena não é um Crime e Castigo. Mas há um crime. E o castigo apenas se pressente na escuridão da noite e do vento soprando sobre as árvores

O castigo de Raskólnikov, a personagem do romance de Dostoievski, não é propriamente o peso moral do crime cometido, mas antes a paranoia, o medo insano de ser apanhado. O que mais conta nos romances de Dostoievski é a complexidade interna das próprias personagens, a sua densidade, em todos os seus caminhos ambíguos. Uma escola russa que se redescobre em Elena, a terceira longa-metragem de Andrei Zvyagintsev, premiada em Cannes (un certain regarde), depois de O Regresso e The Banishment, um percurso igualmente notável pelos festivais de cinema. Personagens pobres e unidimensionais são características pobres de filmes de género, mas é invulgar encontrar uma personagem desenhada com tanta arte como esta Elena. O grande paradigma e dificuldade suprema é construir personagens ambíguas sem que percam a sua consistência, essencial para a coerência interna da narrativa. É o que Zvyagintsev faz. Concentrou todos os seus esforços no desenho de Elena. Papel magnificamente interpretado por Nadezhda Markina.

E Elena, na sua essência de vida, são os primeiros momentos do filme, que começa lento e arrastado, quase como num Cavalo de Turim. Aquele silêncio de quem trabalha numa paz interior que não se inquieta nem se amedronta. De quem deixou o emprego de enfermeira, para se empregar enquanto esposa. Cumpre o dever de ser dócil perante um marido austero. Impera uma funcionalidade, dentro de uma relação fria, mas rica em contrastes, que encontra por mistério os seus pontos de equilíbrio. Ele é um milionário, ela tem origens 'humildes'. São casados em segundas núpcias, conheceram-se no hospital. Ele é velho, ela já não é nova. Ela tem uma família, filhos e netos, que vivem num bairro dos subúrbios de Moscovo, perto de uma Central Nuclear. Ele tem uma filha, que pouco lhe liga. Ela precisa de dinheiro para que o neto entre na faculdade. Ele é egoísta e avarento. Sentimos a dor no rosto de Elena, mas também sentimos amor. Um amor repartido, não em partes desiguais, pela família e pelo marido. A frieza contra a subserviência, a relação é dominada pela razão. Mas há uma luta de classes no casal.

Há caminhos impenetráveis. Ele, o velho avarento e moralista, nunca chega a entrar no estranho mundo familiar de Elena. (Des)trata-o com um desprezo simplista e quase fascista, gélido e assentimental. Não compreende o simples, que as mães amam os filhos e as avós os netos, para além de qualquer preceito disciplinar de uma educação espartana (que obviamente não aplica à sua própria filha). Mas a Elena também lhe escapa os meandros íntimos da ligação de Vladimir com a sua filha ausente, nem a forma como se entendem por meios brutos. Mas nada é claro. Se é verdade que para determinadas personagem terem espessura e movimento é necessário que outras se mantenham estáveis, Zvyagintsev não o fez de forma linear. O jogo moral é bem mais complexo do que o certo e o errado, até porque aquela família está longe de ser exemplar. É exemplarmente pobre e urbano, com todos seus defeitos e virtudes. Apesar do dilema moral, Elena não é um Crime e Castigo. Mas há um crime. E o castigo apenas se pressente na escuridão da noite e do vento soprando sobre as árvores.



Elena, de Andrei Zvyagintsev, com Nadezhda Markina, Andrey Smirnov, Elena Lyadova, Alexey Rozin, Evgenia Konushkinam Rússia, 109 min