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ELENA : Mas no fim da noite aos pedaços...

Estado Crítico

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... quase sempre voltam para os braços de suas pequenas: Helenas



Encontrar este filme em plena silly season dá a mesma sensação de entrar dentro de um espaço zen numa feira popular, cheia de ruídos, estrépitos, atroadas, farturas gordurentas e calóricas, onde até as luzes são capazes de fazer barulho. Depois de tantas estreias espalhafatosamente pobres, este filme russo, prémio Un Certain Regard em Cannes, terceira longa deste realizador, já antes premiado, é uma espécie de Spa para os olhos. Tão bem filmado, tão fotograficamente coerente, tão cheio de silêncios, de "show and don't tell", de subentendidos, de contrastes, de suspensões na narrativa, de personagens de carne e osso, e de imensos detalhes que nos vão guiando, como as migalhas de Hansel e Gretel, até um final que se adivinha funesto. E além de tudo isto, tão pleno de compaixão. Elena é o protótipo da mulher russa: grande mas submissa, resistente e maternal, toda ela é espirito de sobrevivência e de capacidade de transverter as situações adversas. O primeiro contraste começa aqui, uma mulher de aspeto rural, descalça, faz a lida de uma casa de ricos, cheia de espaço, design, e janelas. Ela é empregada, governanta e mulher (não sendo aleatória a ordem dos fatores). Mas antes disto, já a solidão se anunciava nuns galhos despojados de folhas, com o grasnar dos corvos em fundo. O primeiro dos detalhes, o primeiro dos prenúncios. Depois há uma espécie de descida aos infernos, Elena apanha transportes públicos, uns atrás dos outros, para chegar à casa dos pobres, frente a uma central nuclear. Onde vive um filho desempregado indolente, um neto hooligan, uma nora oportunista e um bebé. Esta família precisa de ser salva. Só Elena o pode fazer, mas para isso tem de entregar a alma. Estamos na Rússia capitalista, o dinheiro compra tudo, as classes sociais estremam-se mas podem trocar de lugar de um dia para outro. Mas para isso ainda temos de nos encontrar com um cavalo morto, à beira de uns carris. E com uma cena noturna e sinistra de violência quase tribal.  

Elena

De Andrei Zvyagintsey. Elena, com Elena Lyadova, Aleksey Rozin, Sndrey Smirnov, Nadezhda Markina. Drama. 109 min. Rússia. 2011