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Deste Lado da Ressureição NO PRINCÍPIO ERA O SURF

Estado Crítico

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Se outro mérito não tiver, Deste lado da Ressurreição é, muito provavelmente, o primeiro filme da História do cinema mundial que  tem como protagonista um monge surfista ou, para sermos mais precisos, um surfista que enveredou pela vida monástica

Se outro mérito não tiver, Deste lado da Ressurreição é, muito provavelmente, o primeiro filme da História do cinema mundial que  tem como protagonista um monge surfista ou, para sermos mais precisos, um surfista que enveredou pela vida monástica. Esta originalidade extrema da trama, quase surrealista, ao contrário do que se possa pensar, não leva o filme para os caminhos transviados da comédia. Nada disso, o filme quer ser levado muito a sério. E assim cresce a perplexidade, porque desvia-nos do campo surrealista (que a própria sinopse sugere) para um realismo macambúzio. A própria ideia de ação (e as cenas de surf estão muito bem filmadas) se desvanece em torno de um conceito geral de clausura. Há uma contemplação de imagens (o melhor do filme é a fotografia) e uma espiritualidade dominante em paralelos pouco prováveis, que têm como base um clima de dano, perda, fuga, abandono e depressão.

As personagens de Joaquim Sapinho são poucas e estão perdidas no espaço e no tempo, precisam de uma caminhada interna para se reabilitarem, a tal ressurreição que é sempre metafórica. Sapinho filma-as invariavelmente cabisbaixas, esperando que do retrato de silêncio se evada a interioridade caduca. Quer à viva força mostrar de que são feitas, colocando-as à mercê da câmara, à espera que a alma lhes saia das entranhas, acreditando que com essa ausência de movimento ganha uma perturbadora força interior (correndo o risco, claro, de simplesmente aborrecer quem assiste).

O filme tem o seu próprio tempo, lento, em que pouco acontece, que joga com a tal ideia de contemplação e retiro que lhe serve de mote. A trama é rebuscada: um surfista diz que vai para a Austrália, mas afinal enclausura-se num convento, lá para os lados de Sintra e depois regressa, a bordo de uma caravana hippie, para apanhar ondas no Guincho e pensar na vida. A mãe não compreende a sua ausência (faltou inclusive ao funeral do pai) e aparentemente não lhe perdoa. Mas a irmã mais nova não se conforma e parte em sua busca, tentando convertê-lo à família. Sim, convertê-lo à família, livrando-o assim do mal que aqui é o convento. O convento, ao qual ele acaba por regressar e onde se autopenitencia à vergastada, pode ser visto como uma instituição demoníaca que o afasta da essência, do sítio onde realmente deveria estar, que é a família, a irmã adolescente que precisa desesperadamente dele para lhe descomplexificar a vida. O mosteiro, em certa medida, é uma espécie de droga, que o aliena da própria vida, para autistamente se autoflagelar. Um vício inusitado, do qual ele se tenta libertar, mas que acaba por ter uma violenta recaída.  Desconhecemos o que lhe chamou para uma opção de vida tão radical. Mas no final acaba por recuperar a sua função regeneradora. Ressuscita-o, para o lado real da vida. Se quisermos, é por desígnio de Deus que ele regressa à família para salvar a irmã. No fundo, regressa à realidade e está pronto para a vida.

A simbiose não parece perfeita. Dificilmente se imaginam monges surfistas ou surfistas transformados em monges. Mas a ligação com o mar, o silêncio que se repete (no vazio das ondas ou na cela), mostram que os universos podem ter em comum uma certa tendência espiritual. De resto, o filme arrasta-se em sentimentos remoídos e durante grande parte do tempo não se mexe. Os atores têm a sempre difícil missão de comunicarem apenas por expressões, aguentando a pressão da câmara.

Deste lado da Ressurreição é a quinta longa-metragem de Joaquim Sapinho, seis anos passados de Diários da Bósnia, oito de Mulher Polícia e 17 de Corte de Cabelo, que continua a ser o seu filme mais carismático. O filme passou por alguns festivais incluindo o de Toronto. Tim Griesen, crítico de The Projetor, que chegou ao filme por acaso, escreveu: "Para o melhor ou para o pior, Sapinho conta a sua história da forma como lhe apetece, marimbando-se para as consequências". E é bem verdade.



Deste Lado da Ressureição, de Joaquim Sapinho, com Pedro Sousa, Joana Barata e Sofia Grilo, 110'