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Curtas que fazem crescer

Estado Crítico

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Aplausos para O Som e a Fúria que, mesmo em tempo de crise e flagrante falta de apoio à cultura, insiste em estrear programas exclusivos de curtas-metragens em sala

Aplausos para O Som e a Fúria que, mesmo em tempo de crise e flagrante falta de apoio à cultura, insiste em estrear programas exclusivos de curtas-metragens em sala. Já o havia feito com um grupo de filmes de cariz mais experimental, de Sandro Aguilar (Sinais de Serenidade Por Coisas Sem Sentido), Miguel Fonseca (As Ondas) e Mariana Gavião (Solo). Fá-lo agora com quatro filmes de João Nicolau, Jorge Cramez, Telmo Churro e João Rosas. Pena é que não haja uma perspetiva geral de incentivo à distribuição de curtas-metragens e tudo se acabe por se cingir à carolice de uma produtora, sem bem que muito significativa e com grande impacto geracional. O cinema não se mede aos palmos e tenha-se como certo que é impossível olhar para História recente do cinema português sem ver as suas mais significativas curtas-metragens. Mais ainda: que uma perspetiva do cinema português contemporâneo sem um quadro de obras em formato curto é absurdamente incompleta, simplesmente não se pode fazer, basta pensar que foi através das curtas-metragens que Portugal mais se destacou nos últimos anos. Na primeira série, apresentada pel'O Som e a Fúria, destacava-se uma vertente mais experimental, sem preocupação maior com a linearidade de uma narrativa, com natural destaque para Sandro Aguilar, que será o ex-líbris do género. Aqui, opta-se por filmes mais narrativos, que têm em comum abordarem a infância ou a adolescência. Nem por isso são filmes infantojuvenis, mas é verdade que, em geral, são próprios para um grupo etário mais vasto, que pode começar na pré-adolescência. Embora, claro está, os filmes ganhem diferentes patamares de leitura. João Nicolau, que aqui mostra Gambozinos, tal como Sandro Aguilar, é o exemplo de um realizador mais feliz nas curtas-metragens do que nas longas. Recebeu importantes prémios internacionais e aqui, apresar de a nível de galardões estar aquém das expectativas ou do merecimento, exibe um filme muito bem conseguido, que aponta diferentes caminhos para a sua cinematografia. Mantém a ideia de usar atores não profissionais, mas investiu num trabalho de campo junto à colónia de férias da Verdizela. O guião foi bem trabalhado e o resultado é divertido e inteligente, com pontos de ligação com as curtas de Miguel Gomes. Rei Inútil é a primeira curta-metragem realizada por Telmo Churro, mas não é de todo o seu primeiro filme. Telmo é uma presença regular em produções da O Som e a Fúria, como produtor ou assistente de realização, tendo participado em filmes de Miguel Gomes, Sandro Aguilar, João Nicolau, entre outros. Com um sentido de humor muito peculiar conta a história amorfa de um rapaz de Lisboa, em que os planos do real e do fantástico se cruzam quase por magia, dando vida às metáforas. Foi o justo prémio que ganhou este ano em Vila do Conde. Se Rei Inútil mostra Lisboa entre a Estrela e Campo de Ourique, Entre Campos vai até à parte mais nova e poluída da cidade, ilustrando as dificuldades de adaptação de uma criança à cidade. Uma história simples, cândida, ingénua, com uma perspetiva exterior de Lisboa. Finalmente, Na Escola, a mais antiga das obras apresentadas, uma curta do experiente realizador Jorge Cramez. Provavelmente, um dos seus melhores filmes. Está cheio de planos perspicazes, que revelam uma arte de olhar, sobretudo na forma como, logo desde o início, filma a sala de aula. O movimento das pernas da professora enquanto escreve no quadro, a natural agitação dos alunos. Até que, de alguma forma, para o tempo. E dá lugar à evasão de um grupo de quatro (três rapazes e uma rapariga, que para serem os cinco só falta o cão Timmy). Mas a aventura, mais do que uma trama de perigos e suspense, é feita de emoções e contemplação, num convívio íntimo com a natureza. Está implícita uma crítica ao próprio sistema de ensino: é lá fora, sozinhos, por si só, que eles aprendem o mais importante. Mas mais do que um apelo a um ensino alternativo, Jorge Cramez constrói uma obra poética, de beleza contemplativa.