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CISNE: "Mergulhar, nas calmas, numa piscina do nosso futuro sangue"

Estado Crítico

cisne

...do nosso futuro sangue". Depois de dois filmes das profundezas - Mutantes (1998) e Transe (2006) -  Teresa Villaverde emerge com Cisne, a sua sexta longa-metragem. Mas atenção, que são turvas as águas e haverá sempre lodo no cais

 

Há rótulos tão pegajosos como moscas numa tarde de Verão. E que, mesmo depois de enxotadas, voltam, e pousam, e insistem, teimam, repisam e irritam. Não é que a nova longa-metragem de Teresa Villaverde, Cisne (estreia-se quinta, dia 8, depois de passar pelo Festival de Veneza, dia 6) não detenha alguma atenção sobre elas, as moscas, a dada altura do filme, mas neste caso, estes insectos inoportunos vêm mais a propósito das ideias que depois de feitas dificilmente se desfazem. Por isso fica aqui, uma espécie de post-it logo à cabeça desta entrevista, para fixar, de vez, a advertência que a realizadora passa o tempo a fazer. Não, Vera (Beatriz Batarda), a protagonista do filme, não é uma fadista. Canta descalça, com voz de fadista (Ana Moura), às vezes fecha os olhos como as fadistas - mas, repete Teresa, "Vera não é fadista". Pode ser noctívaga, insone, padecer de saudades, nostalgias, amores emaranhados e chorar lágrimas de sangue mas "não é fadista". Portanto, ficamos entendidos, albarde-se a personagem à vontade do dono, e "Vera não é fadista". Nem há fado nem cisne, um pássaro presente nas mitologias e cosmologias de todo o mundo, carregado de simbologias, o grande pato branco, tão lunar quanto feminino - mas mudo. Aliás, num filme povoado por animais, perdizes, galinhas, um pavão, caranguejos, um coelho, uma cadelinha bebé, o único que não comparece é o dá título ao filme.

 

    

VISÃO: O seu filme chama-se Cisne mas só fala de patinhos feios: personagens perdidas, errantes e solitárias, filhos rejeitados pelas mães, uma mulher com nanismo...

TERESA VILLAVERDE: É curioso, mas não vejo nada assim. Talvez possa concordar que todos são um pouco solitários, mas associo mais essa solidão à própria liberdade de que precisam. E pessoas errantes podem ser cisnes. Não sabemos como acaba a história do filho com a mãe. A mulher pequena é uma anã, é bonita e sente-se bem no seu corpo.

 

 

Já disse que Cisne é um filme "sobre amor, justiça e música" - só que o amor é inexequível ou uma  perversidade, a justiça é sangrenta e praticada pelas próprias mãos e a música não redime nem salva... Parece que nada funciona, nem os conceitos que são, à partida, benignos...

Os amores neste filme são amores difíceis, não são inexequíveis. São amores que ficam inteiros mesmo com imensas dificuldades. Amor perverso, não sei o que é, presumo que se esteja a referir à pedofilia, mas isso não tem nada que ver com amor, acho mais oposto ao amor do que o ódio, o ódio é que pode, por momentos, ser uma espécie de amor, talvez. A pedofilia está sempre ligada à destruição, e o amor (mesmo o inexequível), vejo-o sempre ligado à construção. Há de facto um momento de justiça pelas próprias mãos, embora não seja óbvio se a criança se está a vingar a si ou às outras crianças. Não muda muito, mas muda alguma coisa. É um momento de libertação assistido por um cisne mudo, como são mudos todos os cisnes.

Quanto à música, ouvi-la ou compô-la é muito diferente do que tocá-la ou, neste caso, cantá-la em público. A apresentação em público é muitas vezes uma fonte de angústia. Há artistas que sentem que criam enquanto se apresentam em público, normalmente os grandes intérpretes, mas um compositor, uma cantora que componha, pode não sentir nada disso, e sentir um enorme vazio. Mas isso não tem que ver com a música em si. Há até, claro, casos muito conhecidos de enormes intérpretes que não viam a utilidade da apresentação em público, ao ponto de se recusarem e só gravarem em estúdio. Eu penso que também existem momentos complexos na vida em que um criador possa pensar que é possível atingir uma espécie de paz que dê a ilusão de que não é preciso criar mais. Imagino que seja sempre uma ilusão. Imagino que um criador não saiba parar de criar.

 

Então, se Vera [a não fadista] não é o cisne deste filme, quem é?

Eu acho que nenhuma das personagens é o cisne. O cisne é uma testemunha muda do que se passa com eles. É um campo magnético impresso numa parede. É perto do cisne que a criança age e é também perto do cisne que a Vera pausa e talvez decida sobre o que fazer com ela própria e com a criança.

 

O filme abre com uma cena violentíssima: pássaros a serem largados por mãos infantis para serem abatidos logo a seguir. Isto causa um desconforto, como se qualquer daquelas personagens tão frágeis que vagueiam por ali também estivessem prestes a ser abatidas a qualquer momento. A ideia era cria-se um ambiente de violência latente?



Sim, é um pouco como se fosse o manto do mundo. Todos os terrenos que pisamos, foram já pisados por outros. Penso muito nessas coisas. Sabe, acho que é muito importante ter tempo, quando só corremos esquecemo-nos de imensas coisas. Achei importante começar o filme assim. Gosto que a primeira frase que se ouve seja "está viva", é um rapaz que diz referindo-se a uma perdiz que não morreu com o tiro que a apanhou. O rapaz também participa na morte dos pássaros, mas naquele momento esquece-se disso, e fica do lado do pássaro.

 

À primeira vista, Cisne parece ter uma temática mais adulta, depois de os Mutantes (sobre miúdos abandonados)  e de Transe (sobre o tráfico de uma rapariga), mas continua muito presa ao imaginário das crianças e a ecos das suas anteriores obras. Além de dedicar o filme "às crianças", Cisne está povoado de um referencial infantil. Até os adultos parece que não cresceram, são imaturos, não aprenderam as coisas da vida, a amar-se, etc...



Não tenho ainda distância suficiente para analisar o conjunto dos filmes que já fiz, e não sou muito (nada) de rever os filmes, mas claro que reparo que alguns temas são recorrentes, sou eu. Acho que as coisas vão mudando naturalmente. Estou já bastante embrenhada na escrita do próximo e sinto uma grande diferença, por exemplo, no tratamento das crianças. Mas voltando a este filme e aos personagens, não os vejo imaturos, escolheram caminhos não comuns, talvez. Não estão encarreirados no sentido comum de projectar um trilho e ir por ele a fora, e não me parece que sintam a necessidade de andar lado a lado com um grupo definido de pessoas, mas é uma escolha, não é o acaso. Acho que hoje há muito uma coisa que para mim é estranha que tem que ver com os amores úteis, as paixões úteis que nos fazem bem e que nos resolvem coisas. Nesse aspecto sou muito Camiliana, não vejo nada o mundo assim, e fascinam-me imenso as pessoas que mergulham nos amores impossíveis, ou possíveis mas dificílimos de viver. A piscina cheia do nosso futuro sangue e mergulhamos nas calmas. Adoro isso.

 

Mas o casal, a não fadista Vera e o violocelista Sam só se consegue amar à distância, o que já si é estranho, mas ainda mais estranho é comunicarem por escrito. Já ninguém escreve cartas, e usa o correio tradicional...



... pero que las hay, las hay. Uma carta em papel é uma coisa lindíssima. Acredito nessa necessidade de escrever todos os dias, escrever pode viciar. Ela fica desnorteada por não lhe estar a escrever. Ele foi para casa dela, e ela com isso perdeu o norte. E ele também porque não a lê. Nem toda a gente pode viver de uma forma simples ou clara.   

 

Escuta-se música brasileira (Chico, Caetano, Caymi) ou a cabo-verdiana mas vêm-nos à cabeça o fado. Interessa-lhe este universo? O cliché da fadista descalça, noctívaga, cheia de amores emaranhados, nostalgias e saudade?

Também tem muito John Cage, e muitos russos, Shostakovich e mais. Fado é que não tem. Gosto muito de fado, mas a Vera não é fadista. Quem deu a voz à Vera, sim, porque a voz da Vera quando canta é da Ana Moura. As canções são do Chico Buarque, mas não são nem fado nem samba. A Nina que o Chico Buarque fez para o filme, fala de uma mulher russa que escreve cartas a partir de Moscovo para alguém que está num país distante. É a Vera a cantar como se fosse o Sam. Foi ideia do Chico fazer assim, primeiro achei que não podia ser, mas depois vi que ele tinha razão e que era muito mais bonito assim, ela a cantar como se fosse ele.

 

Chico Buarque é recorrente nos seus filmes...

Eu ainda hoje fico muitas vezes embasbacada com o que ele faz com as palavras, com o que consegue pôr numa canção. Como brinca. Ele diz que nunca mudou uma nota nas canções em que só fez a letra, às vezes não se acredita. Como é que pode ser possível, mas é. Ele é incrível, temos imensa sorte por partilhar a mesma língua.

 

Para além da música, há contrastes visuais muito fortes, de fotografia e de decores... Muita noite e muito dia. Os ambientes sofisticados do hotel, dos bastidores e da casa da [não] fadista e o barracão surrealista da margem sul. Tanto Tejo e tanta aridez na lezíria...

Acho esses contrastes muito importantes. Gosto que uma pessoa possa estar de manhã num hotel de 5 estrelas em Lisboa e à tarde num barracão no meio do nada. É que o barracão e o hotel são perto, é triste ficar só de um dos lados quando se é livre de andar de um lado para o outro. Ela, a Vera, tem mais mobilidade porque tem dinheiro, pode escolher. O Pablo anda com o carro caro de um dos mundos até ao outro, vai de um lado para o outro num instante. A casa dela, é uma casa enterrada na terra pelo Eduardo Souto Moura, confunde-se com a paisagem.

 

Neste filme mistura uma actriz consagrada (Beatriz Batarda), com não actores ou pouco experientes como Miguel Nunes, de Morangos com Açúcar. É difícil conciliar registos?

Não é uma coisa nova para mim misturar actores mais experientes com outros que o são menos ou até sem experiência nenhuma. A Beatriz é uma actriz extraordinária, é muito fácil e um prazer, trabalhar com ela. O Miguel Nunes é um actor que veio para ficar, tenho a certeza. Foi tudo bom e fácil.

 

Porque agradece, nos créditos finais, "o empurrão solidário" de José Saramago Pilar del Rio?

Ser cineasta em Portugal é uma profissão de risco grande e às vezes não há o que pôr na mesa, e espera-se um tempo infinito até se poder trabalhar. Foi por causa de uma conversa que tive com o José Saramago e com a Pilar que decidi fazer os impossíveis e abrir a minha própria produtora. Percebi quando saí de casa deles que era o momento de fazer isso. Ainda pude escrever ao José Saramago a contar o que tinha feito e que o empurrão tinha sido deles.

 

Uma vez Caetano Veloso revelou que a Teresa lhe teria dito que não era possível viver sem música, que se podia dispensar até a literatura, mas nunca a música... É uma afirmação surpreendente sendo a Teresa realizadora...

Penso que não foi bem isso que eu disse. Por acaso também vi o programa em que o Caetano Veloso conta essa conversa, mas claro que no fundo, no fundo não acho nada disso, nem ele, de certeza. Mas de qualquer forma o que estávamos a dizer era que o que faria mais falta era a música, caso se parasse com a produção de tudo, mas ficava-se com o feito até agora. Não sei viver sem o cinema, não consigo imaginar.  

 

O que contrapõe a estas novas correntes que falam em políticas culturais de apoio a monumentos e abandono das artes vivas?

Acho muito triste esse tipo de raciocínio. O dia de Portugal é o dia de Camões, honra-se o Camões, poeta maior, mas os poetas de hoje que morram de fome. É tão obviamente importante, sobretudo até em tempos de crise, o trabalho dos artistas que é estranho esta forma que as vezes o poder tem de nos olhar. Espero que os meus colegas no cinema e também nas outras artes, não se deixem abater. Havemos de conseguir sair disto. Temos que continuar a criar, a pensar em voz alta, a ajudar à discussão e reflexão sobre tudo o que tem que ver com a vida de todos. Como artista não sei parar, mas se calhar só não paro se me ajudarem de outros países. Não seria a primeira vez. Mas para quem está a começar agora, é muito difícil a ajuda do estrangeiro. É grave.

 

"Os ricos que paguem a crise" sempre foi um slogan da esquerda, agora são os próprios a defender essa ideia. A esquerda precisa de mudar de bandeiras nestes revirares de tabuleiros?

Nunca me revi nesse slogan, sempre me pareceu, 'os ricos que paguem a crise que eu vou ali e já venho'. Não percebo isso. Não me parece que os ricos queiram pagar a crise, penso que não querem ser odiados, e que não lhes interessa um mundo só de pobres. Sabem que tem que haver os que não são nem ricos nem pobres, para lhes comprar as coisas. Os sacrifícios dos ricos não são sequer comparáveis com os do resto das pessoas. Preocupo-me muito com os velhos, não sei o que lhes vai acontecer. Penso que os novos vão emigrar. É estranho termos chegado aqui. Há toneladas de coisas para a esquerda defender. Tenho muita pena que a esquerda portuguesa não se entenda seriamente.

 

Pessoalmente assumiu sempre posições de esquerda, mas cinematograficamente mostra sempre uma visão pessimista sobre a humanidade, e sobre o que os homens são capazes de fazer uns aos outros... O que nos pode salvar?

Não sei. Acho que o melhor é irmo-nos salvando a par e passo. Vivemos tempos complexos. Há muita gente confusa sem saber o que fazer e há muita gente aflita que não sabe o que vai ser o amanhã. O mundo está a viver um abanão. A situação da Europa é muito má, a situação africana é bem pior. E num instante se dá a volta ao mundo de avião. Enfim...

 

Este é um filme falsamente optimista. Ou seja, há uma imagem de redenção final, de um sono de tranquilidade com uma cadelinha num colo, mas pode ser aparente ou efémero porque depois há os olhos da criança a mostrar que o trauma ficou e ficará sempre lá...

Não sabemos o que será o futuro daquela gente, mas aquele momento é um momento de paz. Um machado ali é para cortar lenha.

 

Mas essas pessoas parecem tão engaioladas ou condenadas como os tantos pássaros que enchem o filme...

Talvez, mas têm a chave da porta da gaiola e os pássaros não.