Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

César deve Morrer: TAMBÉM TU, BRUTUS?

Estado Crítico

  • 333

No caso dos irmãos Taviani é brilhante a forma como os planos de realidade e ficção se fundem, criando o patamar de desconstrução permanente.Uma adaptação de Shakespeare que transcende os géneros e os formatos. O filme acaba de ser lançado em DVD, pela Alambique.



Quando os presidiários de um estabelecimento de alta segurança gritam em coro 'Revolta! Revolta!', ninguém fica indiferente, mesmo que se trate da interpretação de uma peça de Shakespeare. O sentido das palavras transcende o próprio texto e envolve-os na realidade exterior. Dois níveis que se cruzam de forma perfeita: o teatro e a vida. O filme dos Irmãos Taviani, uma obra prima tardia dos sobreviventes do neorrealismo italiano, encaixa-se nessa moderna simbiose entre documentário e ficção. Os realizadores entraram na prisão de Rebibbia, em Roma, para acompanhar os ensaios de Júlio César, a produção do encenador Fabio Cavalli, mas fizeram muito mais do que isso. Foram de encontro à atualidade suprema de Shakespeare e a universalidade na captação dos estados de alma. César deve morrer é de uma humanidade extrema num ambiente de falência moral, elevando um mundo aos mundos.

Várias filiações se podem desvendar nesta obra dos Taviani. A hibridez do formato e o seu contexto encontram pares até mesmo em Portugal, para não ir mais longe. Em Jesus por Um Dia, Helena Inverno e Verónica Castro, partiram do mesmo conceito, ao filmar a via sacra preparada pelos presos da prisão de  Bragança, João Trabulo fez Sem Companhia, um tesouro esquecido do novo cinema português, num trabalho intenso com os prisioneiros de Paços de Ferreira. E Inês de Medeiros, em O Fato Completo ou À Procura de Alberto, mostrou como o casting pode ser mais fascinante do que o próprio filme.

No caso dos irmãos Taviani é brilhante a forma como os planos de realidade e ficção se fundem, criando o patamar de desconstrução permanente. Salvatore, o preso que faz de Brutus é, ele próprio, uma personagem que tem uma personagem dentro de si. E, com o andar do filme, Salvatore transforma-se em Brutus e Brutus em Salvatore, como se nada os distinguisse, nem a cela da prisão, nem a linha do tempo.

Até porque, de forma habilidosa, os irmãos Taviani alargam o campo de jogo entre realidade e ficção. Não o restringem à separação de olhares entre o plano da peça e o plano da prisão. O plano realista é invadido pela representação; os presidiários, aumentando a carga emocional, fazem de si próprios, autoconvertendo-se em personagens de filme. Tal é deixado a nu na última cena, na altura em que o espectador está, em termos emocionais, tão envolvido que porventura se deixa ludibriar pela ilusão de que se trata de um documentário. "Desde que descobri a arte esta cela tornou-se uma prisão", diz, como se estivesse sozinho.

A ficção desafia a realidade logo a partir do momento do casting, em que o encenador pede aos candidatos que repitam os seus dados pessoais representando diferentes estados de espírito. E está escancarado, através de legendas, os crimes brutais de que são acusados, animalizando-os, lembrando-nos da sua bestialidade, de que são perigosos para a sociedade. Também é por isso que a sua humanização se torna tão comovente.

O filme ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim, no ano em que Tabu, de Miguel Gomes, era um dos favoritos. Compreende-se agora que o prémio não foi meramente uma homenagem aos veteranos realizadores transalpinos. César deve Morrer é um clássico refrescante, de um cinema que se reinventa, em que os artificialismos se domesticam, no emocionante retrato da alma humana.



César deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani, com Cosimo Rega, Salvatore Striano, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca, Juan Dario Bonetti, Vincenzo Gallo, Rosario Majorana, Francesco De Masi, Gennaro Solito, Vittorio Parrella, 78 min