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Assim Assim: CONVERSA DE CAFÉ

Estado Crítico

Assim Assim é uma sucessão de conversas bem humoradas que refletem, em traços largos, sobre a natureza instável das relações humanas (sobretudo as relações amorosas), circunscritas a determinada geração e a uma realidade lisboeta noturna.

Há um casal a fazer amor dentro do carro no pontão do Ginjal, um gesto brusco que entorna uma cerveja, um isqueiro que passa de mão em mão. E pouco mais acontece. Ou por outra, até acontece, mas a verdadeira ação de Assim Assim é o verbo e não o gesto, quase numa negação do cinema. Conversa fiada, conversa da treta ou conversa de café. A força ou fraqueza são os diálogos. Os espaços de silêncio são tão raros que facilmente se faria uma versão para teatro radiofónico. Dá a ideia de que Sérgio Graciano, que aqui se estreia na longa-metragem, optou humildemente por uma realização discreta para deixar brilhar, em primeiro lugar, o argumentista e em segundo lugar os atores, enquanto intérpretes de texto. A chave para o sucesso de Assim Assim é Pedro Lopes, argumentista de telenovelas, que levou Laços de Sangue (da SIC) a ganhar um Emy. Só que isto agora é cinema. O filme é uma sucessão de conversas bem humoradas que refletem, em traços largos, sobre a natureza instável das relações humanas (sobretudo as relações amorosas), circunscritas a determinada geração e a uma realidade lisboeta noturna.

Se Sérgio Graciano arrisca nessa prevalência do diálogo é porque sabe do talento de Pedro Lopes. Todas as frases são bem construídas, num estilo naturalista. E em 90 minutos de diálogo não se deteta qualquer deslize significativo, uma entoação falsa ou uma deixa ridícula. Pedro Lopes tem ouvido para o diálogo e sobretudo sintetiza o que de melhor têm as conversas de café ou de copos. E dizer que o filme tem diálogos em excesso é tão absurdo como afirmar que o disco do Eric Clapton tem guitarra a mais. O diálogo é a semântica e o sustentáculo do próprio filme. O filme são diálogos filmados.

Por engenhoso que fosse o argumentista, estes diálogos em catadupa não funcionariam se os atores não respondessem. E Assim Assim tem o mais extraordinário leque de atores que alguma vez se viu no cinema português. Praticamente não há estrela que não compareça. Ainda por cima tem a estranha originalidade de convocar cerca de 20 grandes nomes do curto panorama nacional sem incluir Nicolau Breyner. Boas interpretações de Nuno Lopes, Ana Brandão, Ivo Canelas, Rita Blanco, Dinarte Branco, Albano Jerónimo, Margarida Carpinteiro, Miguel Guilherme, entre outros, que se apropriam do texto de forma naturalista.  

Com tanta gente o filme só poderia ser um multiplot onde não há propriamente um protagonista. Só que ao contrário de Short Cuts - Os Americanos, de Robert Altman, Magnólia, de Paul Thomas Anderson, ou Entre os Dedos , de Frederico Serra e Tiago Guedes (para dar um exemplo português), não há um emaranhado de histórias que se cruzam e complicam umas pelas outras, cercando uma temática. Existe antes uma sequência de quadros, como curtas-metragens sucessivas e separadas por um grande plano de luzes de natal. As ligações entre as histórias são ténues, normalmente feitas através da referência a uma personagem da história anterior. Apesar disso, Graciano consegue fechar o filme num círculo. Há  uma  tentativa de retrato de uma geração. Só que o ângulo fecha-se sobre determinados estereótipos, ligados ao ambiente noturno do Bairro Alto e zona adjacentes. Assim Assim vê-se de forma descontraída no cinema, mas a televisão parece ser o seu suporte natural. Ninguém se iria admirar se em breve surgisse uma série ou até uma telenovela com o mesmo nome.



Assim Assim, de Sérgio Graciano, argumento de Pedro Lopes, com Nuno Lopes, Ana Brandão, Ivo Canelas, Rita Blanco, Dinarte Branco, Albano Jerónimo, Margarida Carpinteiro, Miguel Guilherme, entre outros, 91 min