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As Linhas de Wellington EVASÕES FRANCESA

Estado Crítico

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Uma produção grandiosa em que se preferiu as histórias à História, as gentes às batalhas. O filme saoi agora em DVD, numa edição que inclui um disco de extras, da Leopardo Filmes



Luís Miguel Oliveira, no Público, em 2011, dedicou um artigo a comparar Catherine Deneuve com Isabelle Huppert explicando por que motivo ninguém ousava juntar as duas maiores vedetas do cinema francês da atualidade (a única exceção até então havia sido Sete Mulheres, de François Ozon). As Linhas de Wellington são uma nova exceção. Em nome de Raul Ruiz, Paulo Branco conseguiu juntar o inconciliável, acrescentando ainda Michel Piccoli, numa pequena cena, à mesa, em que os três entabulam um diálogo em que explicam porque motivo não fugiram de Coimbra, ao mesmo tempo que mostram alguns ressentimentos para com o exército invasor. Se outro mérito não tivesse, esta inédita conjugação de grandes atores por si só bastaria para incluir As Linhas de Wellington nos compêndios do cinema. Não se deve considerar o último filme de Raul Ruiz (o último foi mesmo Mistérios de Lisboa), mas o primeiro que o realizador chileno não fez.

Curiosamente, nem sequer partiu de uma ideia do realizador, mas sim do produtor Paulo Branco, que até pediu a Carlos Saboga que escrevesse o argumento antes de saber quem o iria realizar. Mas foi com Ruiz que começou a ganhar forma. Aliás, há uma coincidência de linguagem e estrutura com Mistérios de Lisboa, cuja fonte é a dupla Ruiz-Saboga, não obstante o primeiro ter partido de um romance de Camilo Castelo Branco e este ter um enredo mais livre, baseado apenas em factos históricos. Mantém-se sobretudo o ambiente de época e o enrodilhado de histórias, quase novelístico, concretizado num sem número de personagens e atores. Infelizmente, Raul Ruiz não terá chegado sequer à fase de rodagem, pelo que a sua companheira e montadora, Valeria Sarmiento terá assinado a realização.

Como pano de fundo as Invasões Francesas e, mais em concreto, as fortificações das Linhas de Torres, criadas pelo general Wellington, uma prodigiosa obra de engenharia que efetivamente fez com que os ingleses e portugueses derrotassem o poderoso exército napoleónico aquando da III Invasão. Esse é um enlance histórico, mas, na verdade, o filme preferiu as histórias à História, as gentes às batalhas. É a circunstância histórica que, em última análise, faz mover as personagens, mas o filme não explora minuciosamente a História, nem a sequer a estratégia de Wellington ou o pensamento bélico do General Masséna, faz antes uma espécie de história de vida privada, ou de vidas privadas, o que o torna muito mais rico e amplo. É nessa amplitude, como quem pinta um fresco de almas e sensibilidades que percebemos o todo, que é muito mais do que uma bala perdida ou um recuo estratégico. Também assim, fechando o campo, evitam-se maiores figurinos, complexas cenas de batalha ou efeitos especiais, que o aproximariam das convenções dos filmes de guerra. A própria personagem de Wellington, de resto, é retratada mais pela sua vaidade e snobismo do que pela genialidade militar. E o largo movimento que atravessa o filme acaba por não ser o do campo de batalha, mas antes o desespero de um povo em fuga.

No meio de uma teia infinda de personagens, o filme assenta em dois pilares estruturais. O sargento Francisco Xavier, brilhantemente interpretado por Nuno Lopes, e o Tenente Alencar, num dos melhores papéis de Carloto Cota. São os heróis a que temos direito. Portuguesíssimos, numa guerra em que fomos peões, entalados nos interesses de dois estados (França e Inglaterra), abandonados pela própria coroa. A mais enigmática das personagens é a de Vicente de Almeida, o letrado que vagueia pelos campos em busca da mulher. É a única personagem que foge do domínio realista e ganha uma dimensão onírica, quase surrealista. Mas ele também é o país devastado que assume o desafio de se reerguer.

O leque vastíssimo de atores dá-se ao luxo de dar papéis discretos a Chiara Mastroiani ou Marisa Paredes. O filme, falado em cinco línguas, porventura o mais dispendioso que já foi feito em Portugal, resultará certamente numa boa série de televisão. Estão lá todos os ingredientes. Sobretudo uma intriga que prende.  





As Linhas de Wellington, de Valeria Sarmiento, com Nuno Lopes, Carloto Cota, John Malkovic, Marisa Paredes, Miguel Borges, Marcelo Urgeghe, Soraia Chaves, Mathieu Almaric, Catherine Deneuve, Michel Picolli, Isabelle Huppert. Argumento de Carlos Saboga. 151 min