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As Flores da Guerra: A grandiosidade do cinema chinês

Estado Crítico

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Um filme épico e magnífico, grande e grandioso. Um clássico instantâneo

Os chineses não tinham instrumentos bélicos suficientemente avançados para destruir os tanques inimigos, então usaram um método tradicional conhecido como o escudo humano. Os soldados, em fila indiana, corriam em direção ao blindado japonês. Corriam e iam caindo, um por um, avançando a serpente humana o máximo possível na esperança que o último dos mártires alcançasse o objetivo de detonar o tanque. A II Guerra Sino-Japonesa (1937-1945) foi a mais sangrenta do século XX. Morreram 70 milhões de pessoas, cerca do dobro das vítimas causadas pela II Guerra Mundial na Europa. Há relatos de violência absurda, massacres, violações, torturas, execuções sumárias. Só que, ao contrário da Guerra na Europa e na América, este conflito não tem sido muito explorado no cinema, apesar de, por exemplo, Steven Spielberg lhe ter dedicado O Império do Sol (1987).

É no contexto do Massacre de Nanjing, um dos mais violentos do início da guerra, que Zhang Yimou, o mais aclamado realizador chinês da atualidade, efetua esta imensa produção. Um filme épico e magnífico, grande e grandioso. As Flores da Guerra é John Ford, As Flores da Guerra é grande cinema, um clássico instantâneo, daqueles que os americanos deixaram de fazer. Partindo do romance de Yan Geling, é a mais extensa produção realizada na China. Demorou 12 meses e contou com uma equipa vasta de chineses e japoneses, a que se junta Christian Bale. Não fosse este um caso avulso e dir-se-ia que, depois da aventura espacial, os chineses desafiam a hegemonia americana num dos seus territórios mais sagrados: a indústria de cinema de entretenimento. Mas diga-se que, pela qualidade, mais do que ombrear, superioriza-se a todas as grandes produções americanas dos últimos anos (Avatar, Piratas das Caraíbas, Harry Potter...). E é sem dúvida um dos melhores filmes do ano.

Zhang Yiimou não é propriamente um novato nestas andanças. Autor de grandes filmes, alguns com essa dimensão épica, que lhe valeram nomeações para a academia e prémios em Cannes, Berlim e Veneza. Também lhe coube a componente audiovisual da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Mas aqui atinge um nível de universalidade e comoção únicos. Junta a espetacularidade do grande cinema americano com a forma oriental de contar histórias, com amor, drama, tragédia, filmagens espantosas do campo de guerra em contraponto com as mais emocionantes cenas íntimas. Um filme que parte do universal para o particular e vice-versa, com uma sagacidade sem par. Até pela forma como fecha o cosmos no mosteiro, depois de demonstrar a guerra implacável e desordenada nas ruas da cidade.

Preside a ideia muito oriental de sacrifício. É um filme de mártires e heróis. Assim como esses soldados que correm em direção ao cano do tanque, num suicídio por um objetivo maior, aqui há heróis individuais e coletivos. O soldado chinês que se salva mais à frente age como o herói solitário à americana, um Rambo. Só que na China os verdadeiros heróis são aqueles que morrem. Assim como as mulheres do bordel que funcionam a dois tempos como personagem coletiva e personagem individual (quando se isola Yu Mo) cometem o mais bravo ato de heroísmo. Christian Bale, que também participou em O Império do Sol, acaba por ser o americano fora de órbita, que faz jus ao lema: a ocasião faz o herói. Um cangalheiro alcoólico e vagabundo que se converte em padre para salvar uma comunidade de estudantes. As Flores da Guerra são duas horas de intensas emoções. Choramos, sofremos, rimos e voltamos a chorar. Isto, sim, é cinema.



As Flores da Guerra, de Zhang Yimou, com Christian Bale, Ni Ni, Xinyi Zhang, Tianyuan Huang, Dawei Tong, Atsuro Watabe, China, 146 min