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AMOUR Pelas Rugas da Amargura

Estado Crítico

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amour

Não, não é uma tragédia grega. É muito pior do que isso... Amor, de um dos mais geniais e austero realizadores da actualidade, o austríaco Michael Haneke (Palma de Ouro, em Cannes e todos os galardões major na 25ª edições dos Prémios do Cinema Europeu), tem a compaixão e o terror de que Aristóteles falava. Falta-lhe a redenção e a catarse. Por isso, dói



O filme passa-se num elegante apartamento parisiense, daqueles em que as poltronas já estão desbotadas e moldadas aos corpos dos donos. E os quadros não podem ser removidos porque deixariam inevitavelmente a marca da sua presença nas paredes, como uma sombra invertida. E livros amarelados nas estantes, discos manuseados, e um piano de cauda, disposto na zona mais luminosa da sala.

Não, o filme passa-se num laboratório, atrás de uma cortina de vidro, onde Michael  Haneke disseca, com a frieza de um bisturi, com uma noção de ritmo absolutamente perfeita (arrastado como as passos dos atores octogenários), a crónica metódica das devastações e das injúrias da idade. E prega a prega, ruga a ruga, a meticulosa incisão de Haneke vai fazendo a vivissecção sombria das várias etapas da debilidade do envelhecimento: a paralisia, a demência, a incontinência, a afasia, as fraldas, a alimentação forçada e os cremes para as escaras na mesinha de cabeceira. E destas incisões não se derrama um pingo de sangue, não se solta uma lágrima, não se verte um mililitro de sentimentalismo. É a vida, é a morte.  

Não, o filme passa-se num mausoléu egípcio. Dessas tumbas que estão seladas há séculos, mas que ainda mantém os pertences e sombras da vida passada, as joias, as estatuetas, os bálsamos, os gatos embalsamados. Porque os possuidores de todas estas materialidades já estão em estado imaterial, mumificados no seu imobilismo entaipado, com pele ressequida, mas mortos- embora ainda não o saibam.

Aliás, a primeira cena remove-nos qualquer suspense dramático, e logo transmite esta sensação tumular, e há uma baforada de ar fétido, que num desassombro se lança à cara de quem ousou quebrar o "descanso em paz", e removeu a lápide do jazigo. São os bombeiros a tapar o nariz, quando arrombam a porta do apartamento, e vem-lhes o cheiro a morte. E encontram uma velha mulher, lívidez de cadáver, numa cama, com uma aura de flores dispostas como uma natureza morta.

A mesma mulher que veremos após o genérico, com o marido, na plateia de um recital de piano. Schubert. Haneke tem o cuidado de nunca enquadrar o pianista. Apenas o público. Porque o que vamos ver a seguir é um filme sobre a tragédia da condição humana. A tragédia de nos sabermos mortais. O realizador austríaco, que com Amor (estreia-se hoje, dia 6), bisa a Palma de Ouro em Cannes (depois de Laço Branco, 2010), e conquista os galardões máximos dos Prémios de Cinema Europeu, e constará muito provavelmente na listagem de melhores filmes estrangeiros nos óscares (e talvez até noutras categorias), dirige a câmara para onde normalmente os nossos olhares costumam ser desviados. Especialista em emoções extremadas, nas origens ocultas de uma violência que germina no subsolo como raízes insidiosas, costuma dizer que os seus filmes são mais fáceis de realizar do que de assistir. Amor, é particularmente duro. Porque não há culpas, a quem se possa atribuir, por estas indignidades do envelhecimento. As ignomínias de se ir perdendo as capacidades físicas e cognitivas. O ultraje de se envelhecer lentamente  - como uma tortura vagarosa. E isso dói. E é a última palavra, que num desempenho dilacerante, a atriz Emmanuelle Riva ( a adolescente de Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, 1959, agora com 85 anos)pronuncia : dói. Mesmo tendo uma vida confortável, sem problemas assistenciais, sem a solidão gélida de um hospital, sem os falsos consolos de uma qualquer religião, dói imenso. E o marido, Jean-Louis Trintignant, assiste, gradualmente, etapa a etapa,  aos últimos laivos de vida da mulher, como se estivessem a ser engolidos pelo buracos de um ralo. No fim de um casamento voltam a ser só dois, como no princípio. Não há nada de romântico em viver com quem se ama até ao fim dos seus dias. Só agonia e dor.

Como em todos os filmes de Haneke, há sempre um acontecimento disruptivo que não é nada, ou pode não ser nada, mas que sempre nos abre uma pequena, e muito subtil, fresta para a inquietação. Depois do recital, o idoso casal, mas intelectualmente requintados e melómanos - e é interessante esta vizinhança entre a música tão sublime e a decadência tão humilhante-  dirige-se para casa de autocarro (são as únicas duas cenas passadas fora do apartamento ou do mausoléu - como se quiser). Quando tentam entrar em casa apercebem-se que a fechadura foi forçada. O episódio não tem qualquer sequência no filme, há conversas sobre contactar o serralheiro, mas pouco mais, um detalhe aparentemente sem relevância. Como se isso fosse possível em Haneke, um maníaco-meticuloso, que estuda as suas cenas e guiões até ao mais ínfimo pormenor, acusado de fazer dos atores marionetas e levá-los a fazer exactamente o que pretende, até se lhes arrepiarem os nervos. Quem forçara a porta nessa noite era a morte, mas só no final do filme fazemos o rewind do sucedido e disso nos damos conta.

Segue-se uma ligeira inquietude nocturna, mas também não é nada. Nunca é nada, mas afinal é. Durante o pequen-almoço, o casal retoma os seus rituais de sempre, e por uns momentos, a face da mulher fica cristalizada no tempo, sem nada ver ou ouvir, cara serena e inerte, como uma máscara mortuária. A perplexidade do marido, que abre a torneira da cozinha, tenta passar-lhe um guardanapo molhado pela testa, mas nada a resgata desta evasão de si própria. O homem vai pelo corredor, talvez telefonar, pedir ajuda. Mas o ruído da água a correr cessa (todo o filme está preenchido com pequenos ruídos, excepto quando entra a música que eles próprios, professores de música controlam).  Quando o marido volta à cozinha, a mulher regressara ao seu estado normal, queixa-se de que ele deixou a torneira aberta. Tivera um pequeno AVC e começa aqui o descarrilar da dignidade humana. Segue-se uma paralisação de um dos lados do corpo, a cadeira de rodas, a cama articulada, os cuidados das enfermeiras ao domicílio que lhe fazem a higiene pessoal. E, como já tinha feito em Laço Branco, em que filma de uma forma muito pouco mística o cadáver de uma camponesa, da cintura para baixo, Haneke foca a lástima de um corpo flácido de velha mulher, na banheira: "dói!".

Talvez a prova de amor deste marido seja o oposto do que Haneke nos força, algo sadicamente, a assistir. Ele poupa a mulher a todos os olhares devassos, que testemunhem a sua diminuição. Ele tenta evitar que a própria filha (Isabelle Huppert) assista ao espectáculo da decadência da mãe. Vai cerrando sobre ambos a lápide do túmulo. Todos são intrusos - excepto um inofensivo casal de porteiros de origem portuguesa (a mulher é Rita Blaco, ver caixa). Até o pombo que inadvertidamente lhe entra pela janela, como os pombos costumam fazer nos edifícios que já não são habitados - outro acontecimento aparentemente irrelevante à Haneke, outro prenúncio de morte. E este out-sider alado passeia-se pela divisão, sem mostrar temor, com a desenvoltura de quem já tem a legitimidade de ocupar aquele espaço. Há conflitos com a filha, há conflitos com a enfermeira, mas o grande conflito é, na realidade com a morte. E se nos restantes filmes de Haneke, este retrata a violência de um passado culposo ( Código Desconhecido, 2000), ou da explosão da ira e da xenofobia (Nada a Esconder, 2005), ou da auto-agressão nos recantos mais sórdidos da intimidade de cada um (A Pianista, 2001), ou a mais niilista e desonerada das tiranias (Funny Games, 1997 e 2007), ou a prepotência e brutalidade sádica infligida às crianças, um prefácio do nazismo, que há de ser devolvido á sociedade nos anos 30, e portanto não se pergunte Warum? ( Laço Branco), em Amor a violência chega da natureza humana contra nós próprios. E ainda assim, mesmo não havendo hipótese de redenção e caterse nesta tragédia humana, nós continuamos a questionar Warum? Ou Pourquoi? Há muitos filmes sobre o envelhecimento, mas nenhum tão honestamente assustador, sem arestas suavizadoras, sobre o processo de declínio em curso. Sobre a violência de algo que não podemos ver. Nem conter. É gritante, é brutal. É a morte, é a vida.