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AMOR O último tabu

Estado Crítico

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O mais cruel dos filmes de Haneke: a vida como ela é.



Há coisas bem mais assustadoras do que um grupo de jovens psicopatas com requintes sádicos, uma professora de piano masoquista ou um voyeur compulsivo. A vida tal como ela é pode assustar bastante mais do que tudo isso. Haneke, que nunca foi um realizador alinhado, apesar de não ter resistido a refilmar, cena por cena, Funny Games, só para Hollywood ver, faz aqui uma inversão de cenários em direção a uma realidade mais quotidiana. Mas, no fundo, o que Amor faz é enfrentar um dos mais subtis tabus do cinema: a velhice.

Confirma-se, os velhos, por si só, não são um tabu do cinema: os avós são personagens de dramas e comédias, figuras queridas ou abandonadas, geralmente sensatas, por vezes dementes. Mas a velhice e, sobretudo, a decadência que lhe está associada evita-se demasiadas vezes. Evita-se sobretudo centrar um tema neste assunto perigosamente banal. Por um lado, pelo simples motivo que o assunto é chato. Não impele a ação, as personagens não correm nem fazem amor, apenas ficam, passam os dias... Mas, pior do que isso, o assunto é sensível e demasiado universal para nos querermos confrontar com ele. A brutalidade e crueldade de Amor em nada fica atrás ao dos jovens psicopatas de Funny Games ou ao pai de Laço Branco. Dir-se-ia que Amor consegue ainda transcendê-los, porque há uma identificação imediata: a velhice não é um ficção, quase todos lá chegam. É , portanto, um filme corajoso. Enfrenta um dos mais subtis tabus do cinema e, ao mesmo tempo, aborda um ambiente desesperadamente monótono. Ganha à partida uma medalha de mérito, a da coragem que se associa, seguramente, ao prémio para o filme mais deprimente do ano. Amor é perversamente realista, como uma profecia que se e entranha. Vai muito além da sala de cinema.

Aparentemente, há uma rutura com a filmografia de Michael Haneke, até porque Isabele Huppert, a sua atriz de eleição, faz aqui apenas um pequeno papel (quase tão pequeno como o de Rita Blanco). Os protagonistas são dois atores notáveis, com interpretações fabulosas, que atingem um pico de carreira na casa dos 80: Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant (há mais de dez anos que não entrava num filme importante). Por outro lado, esse realismo cru contrasta com o suspense de outras obras com personagens dementes (Funny Games, Laço Branco, Caché). Mas, vistas bem as coisas, mantêm-se requintes sádicos a que Haneke nos habituou. Isto elevado ao ponto mais extremo em que a morte se torna um alívio. Há uma minúcia quase pornográfica de mostrar a decadência até ao limite. Numa cena, perto do final, Georges faz uma descrição algo pormenorizada do sofrimento do dia-a-dia, explicando que prefere que a filha não os visite, porque o que acontece não é bonito de ser visto. O mise-en-scène é só da filha. Do espectador, Haneke não tem piedade. Mostra-nos tudo, pormenorizadamente, deixando-nos num estado de permanente comoção, nunca descurando a empatia com as personagens, que é imensa e brutal.

Até certo ponto, há mesmo uma luta de Anne contra a tristeza que a circunda. Já não quer ouvir Schubert, prefere as Bagatelas (a música erudita, mais uma vez, marca forte presença). As circunstâncias, contudo, não lhe dão qualquer escapatória. E tudo é triste e terrível, mesmo a história, qu,  no leito, Georges conta para acalmar a mulher. Porque, claro, Amor é também um filme sobre o amor profundo e inquebrável, que redunda em sofrimento. Oferece-nos um espelho demasiado translúcido, ninguém quer ver a realidade tão nítida. Mas a culpa não é do cinema. É da vida. Ou, como dizia Manuel da Fonseca: "Isto de estar vivo um dia acaba mal".



Amor, de Michael Haneke, com Emmanuele Riva, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Rita Blanco, 127 min







Legenda. Amor é perversamente realista, como uma profecia que se e entranha