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A Vida de Adèle - Uma questão de pele

Estado Crítico

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la vie de adéle

O extraordinário filme que conquistou a Palma de Ouro em Cannes, este ano



Há algumas personagens no cinema que atingem este patamar (que é o topo da escadaria) de tornarem-se de carne e osso. Não é, de facto, para todos. Adéle, a protagonista do realizador franco-tunisino (conhecido por O Segredo de Cuscuz), baseada numa figura de BD de Judith Maroh, consegue mais que a carne e o osso: consegue a pele. Os poros, as rídulas, o jeito de ela contorcer a boca, quando puxa o fumo do cigarro, quando enrola o cabelo ao alto, quando os seus olhos observam (é que nem todos olham de forma igual e isso é absolutamente distintivo numa personagem e numa atriz). Conhecemos a personagem menos por aquilo que ela diz e faz, mais pela forma como ela olha o mundo, e os seus olhos devolvem-nos esse mundo filtrado. O realizador devassa (às vezes de forma despudorada e insistente, cirúrgica mesmo, durante a dura rodagem, como relataram depois as actrizes) os traços, as expressões, os músculos faciais de Adéle com grandes planos, enormes, imensos pormenores e lentidão; vemos o modo como come ( e dificilmente a voracidade poderia ser uma característica encantadora), como chora, como grita palavras de ordem na rua, como respira enquanto dorme, como faz sexo com a amante. É mais nos gestos (exemplarmente bem filmados) do que nas acções que ela ganha identidade, força e pele. E a história do filme que conquistou a Palma de Ouro em Cannes é desconcertantemente simples. Apenas esta: uma adolescente estuda, ama, vive, trabalha e entra na idade adulta... Pouco mais e, afinal, tanto. O facto de se ter apaixonado por uma mulher traz-lhe complicações (e polémica ao filme também). Mas o que mais atormentará a sua vida e este amor é o facto de as duas mulheres virem de mundos quase antipodais. As conversas, os objetivos de vida, e as comidas são diferentes, logo à partida, em casa dos pais, banais ou requintados: numa come-se ostras, noutra esparguete à Bolonhesa. Adéle quer ser educadora de infância, a amante é uma artista que quer expor nas mais reputadas galerias e discute as suas preferências entre Klimt ou Schiele. Adéle gosta de A vida de Marianne, de Marivaux, a amante gosta de Sartre. Ela perde-se e porventura pode não voltar a encontrar-se. E é esta a tragédia das vidas de todos nós: o inevitável.   

A Vida de Adèle

De Abdellatif Kechiche. La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et , com Adèle Exarchopolou, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Léa Seydoux, Salim Kechiouche. Drama. 179min. França. 2013