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A Última Vez Que Vi Macau: E A CHINA AQUI TÃO PERTO

Estado Crítico

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Um filme sobre o resgate do tempo, que é tão impossível recuperar como enfrentar sozinho a Máfia chinesa. O herói sai sempre a perder.

Depois de China China (2007) em que mostrava a China de Lisboa, e de Alvorada Vermelha (2011), João Pedro Rodrigues, desta feita na companhia de João Rui Guerra da Mata, viaja em busca de um Macau perdido, num belíssimo exemplo de fusão de géneros, em A Última Vez Que Vi Macau. Como sinopse, podemos descrever o filme como um realizador que quer socorrer uma velha amiga, Candy, travesti ou transexual, que se encontra em graves apuros no antigo território português. Sendo que Macau é também a terra da sua infância. Assim, confundem-se os planos. O filme é um documentário sobre o Macau perdido, ou o que sobra do território, das memórias, após a definitiva entrega à administração chinesa. Mas também um esboço de thriller sentimental, de resgate, apesar de nunca chegar a vias de facto. Note-se, a ação é apenas sugerida, nunca chega realmente a existir essa adrenalina física dos filmes de género, nem esse poderia alguma vez ser o registo da dupla de realizadores. Macau e Candy equivalem-se, estabelecendo a dicotomia de géneros (documentário/ficção). O filme é sobre o desencontro com ambos. Um é texto, outro pretexto. Sendo que enquanto personagem Macau é mais proeminente que Candy, que acaba por ser um leitmotif inconsequente. Macau é o que verdadeiramente nos fica do filme. E fica como uma terra de contrastes. O sítio com a maior densidade populacional do mundo que é também onde mais facilmente uma pessoa se pode sentir sozinha. A Última Vez Que Vi Macau fala dessa solidão. É surpreendente a forma como consegue criar vazios entre a gente. Como se tudo se gerasse num intervalo de espaço, onde as multidões se acalmam ou se escondem. Enriquecido, e isso é de uma valia inestimável, como uma fotografia brilhante. Que encanta e transforma, dando a cada espaço, a cada enquadramento fixo uma dimensão que o transcende, que o encaminha para o místico. É um filme sobre o resgate do tempo, que é tão impossível como enfrentar sozinho a Máfia chinesa. O herói sai sempre a perder. Olhando para o percurso de João Pedro Rodrigues, agora em parceria com João Rui Guerra da Mata, parece já distante um certo radicalismo, de um cinema gay militante, que funciona também pelo choque, observável particularmente nas suas primeiras longas metragens, O Fantasma (2000) e Odete (2005). Aqui descobre-se um natural amadurecimento das ideias, correspondente a uma nova fase, em que não se descura um certo experimentalismo (até pela fusão de géneros). Apesar de manter algumas ideias, A Última Vez Que Vi Macau também não se insere na linha de Morrer como um Homem (2009), a sua longa anterior, em que se respirava uma liberdade de argumento e de ambiente um pouco ao estilo de João César Monteiro. A Última Vez que vi Macau é um filme atípico e raro, assente na voz off e na fotografia, que foge de parâmetros pré-estabelecidos. Uma viagem por dentro e por fora de uma redenção que não chega a acontecer. A Última Vez Que Vi Macau, de Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues, com Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues e Cindy Scrash, 82 min