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A Loucura de Almayer CHANTAL ROÇA ROSSEAU

Estado Crítico

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Não poderia estar mais longe de Um Divã em Nova Iorque. Chantal Akerman, uma das mais celebradas realizadoras francófonas, despiu-se da cidade para se envolver numa selva sul-asiática com ares de Werner Herzog.

Não poderia estar mais longe de Um Divã em Nova Iorque. Chantal Akerman, uma das mais celebradas realizadoras francófonas, despiu-se da cidade para se envolver numa selva sul-asiática com ares de Werner Herzog. A Loucura de Almayer é uma adaptação livre de um romance de Joseph Conrad. O mesmo livro foi adaptado pelo malaio U-Wei Haji Saari. Aqui Chantal aposta mais na criação de um ambiente selvático, com uma áurea misteriosa, e na densidade psicológica da personagem, do que propriamente do desenvolvimento de uma história. O conceito que o preside, mais uma vez, é o do bom selvagem, ou aqui, se quisermos, em simultâneo contraste com o do mau-evoluído. Tudo exposto de forma algo ingénua, retratando o amor insano de Almayer  pela sua filha indígena Nina, que o leva ao desejo incontrolável de a resgatar do seu meio. Uma violência extrema, pois o filme advoga implicitamente que o homem é o meio natural que o envolve. E não é só Nina que ficaria deslocada e incompleta num contexto urbano ocidental, apesar da esmerada educação que se lhe promete, como tal acontece ao próprio Almayer.

No ambiente virgem dos confins do Sudoeste asiático, de onde o filme praticamente não sai, nós assistimos Almayer a definhar, numa atmosfera que não compreende e o agride, onde ele se mantém, em esforço, na busca insana de uma utopia. No retrato de Almayer percebemos, por analogia, os males que a cidade faria a Nina. Ele desaparece à medida que a sua pele branca se vai tornando cada vez mais esquálida. Nina, no entanto, resiste: o instinto de sobrevivência impede-a de se deixar levar para novo habitat social. O amor terreno ultrapassa o amor filial (que subsiste, apesar de tudo).

Até a um certo ponto, há uma vitória de Rousseau. Um elogio da natureza indígena e da subversão que o homem 'civilizado' lhe inflige. Mas, aprofundando a matéria, é bem mais do que isso: é um drama psicológico que parte das dificuldades de adaptação ao meio, de simbiose do homem com a sua origem terrena. Chantal Akerman estreia finalmente em Portugal o seu filme de 2011, que esteve presente em Veneza, numa altura em que a sua obra está em retrospetiva na cinemateca e o DocLisboa recebe uma das suas instalações.





A Loucura de Almayer, de Chantal Akerman, a partir de Joseph Conrad, com

Stanislas Merhar, Aurora Marion, Marc Barbé, Zac Andrianasolo. 127 min