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7 Dias em Havana 'Aprendimos a quererte'

Estado Crítico

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7 dias em havana

Sete dias, sete realizadores internacionais, sete histórias, muito rum, muito mambo, muitos  encontros ... A ilha mais carismática do Caribe, num filme de "agora ou nunca"



Ana Margarida de Carvalho

Diz-se que ninguém visita Nova Iorque pela primeira vez. Já todos a conhecemos dos arranha-céus da quinta avenida, dos táxis amarelos, dos ventiladores fumegantes. De Havana quase poderíamos dizer a mesma coisa: todos lhe conhecemos o Malécon, a famosa marginal cubana, onde solitários e famílias perscrutam o oceano na amurada salpicada por ondas carcerárias; os anacrónicos carros americanos dos anos 50; as velhotas tisnadas que enrolam folhas de "puros"; as casas coloniais decrépitas; as fachadas carcomidas; a famosa tasca de Hemingway, onde se bebem mojito; os riquexós, os "paladares" (restaurantes caseiros para turistas), as carreteras, os murais com Che, os meninos da escola fardados com as cores da bandeira, e... a música. E "aprendemos" Cuba dos tantos documentários, dos tantos filmes, do Bunena Vista Social Club.... Só que mais cedo ou mais tarde, estes clichés precisam de ser reciclados. Em Cuba, algo está em curso, algo se move... Em breve nada pode ser o que era dantes. E foi com o objetivo de apanhar Cuba em estado de transição e de desmontar estereótipos que surgiu este filme (7 Dias em Havana estreia-se hoje, dia 13), composto por sete curtas de ficção, realizadas por sete realizadores, e que captam o que a ilha ainda é, o que já deixou de ser, e um bocadinho do que será. Apesar de serem dirigidas por realizadores tão distantes, em geografia e registos, como o loquaz e francês Laurent Cantet (A Turma) ou o lacónico e palestiniano Elia Suleiman (Intervenção Divina), há uma curiosa contiguidade entre as curtas. Ou por terem relações de vizinhança temática, ou por partilharem atores, personagens, locais e outras adjacências. Neste projecto patrocionado por uma marca de rum, o escritor cubano Leonardo Padura fez alguns dos guiões e supervisionou a coerência global. E o que é certo é que no final, temos a sensação de uma sinfonia de cidade, à antiga, onde se capta uma Havana tridimensional, em corpo, em espírito, em cores e em som. E aquela estranha forma de vida cubana, em que se parece fazer de conta que não se pode ter tudo bom. E em que nada funciona, e o se caos instala, mas à última hora, tudo acaba por se arranjar.

Benicio del Toro, o Che de Soderbergh, volta a ser assombrado pelos seus genes latinos e abre com a primeira curta El Yuma (é também a sua primeira passagem para trás das câmaras): a história de uma noite de sedução e um boné. O rum, as mulheres, o ritmo contagiante da música, os equívocos provados pela embriaguez, pelo deslumbramento e pela ingenuidade de um forasteiro americano. O argentino Pablo Trapero, em Jam Session, traz um fantástico Emir Kusturica (himself) a Havana para receber um prémio, num festival de cinema, mas ele está enfadado, envolto em questões conjugais que deixou lá na Sérvia, e encanta-se com o seu motorista (também extraordinária personagem), que nas horas vagas e noctívagas é trompetista- o tema do  duplo emprego, os engenheiros que conduzem carros ou as psicólogas que vendem bolinhos para fora está muito presente em 7 Dias em Havana. Woody Allen foi convidado para fazer de si próprio, enquanto cineasta entediado pelo cerimonial cinematográfico, fascinado por um trompetista, mas recusou. Haneke mandou dizer que não fazia curtas.

Elia Suleiman, em Diary of a Beginner deslocaliza o seus tiques mudos, à Jacques Tati, visita o jardim zoológico de Havana (algo que nem o turista mais zeloso se lembraria), perde-se nos corredores do hotel, observa as manobras fotográficas dos turistas num carro vintage e deixa-se "a contemplar as contemplações do mar", na famosa amurada, à espera, também ele, que o discurso de Fidel de Castro termine. La tentacion de Cecília, de Júlio Medem, resgata o ator hispano-germânico Daniel Bruhl (Good-bye Lenin), que por sua vez tenta resgatar uma jovem cantora talentosa para se evadir para a Europa, e em Ritual, Gaspar Noé, mostra-nos uns exorcismos afro, exemplarmente filmados, que não julgávamos subsistir em Cuba. O realizador cubano Juan Carlos Tabio (Morango e Chocolate) entra no quotidiano acelerado de uma psicóloga que tem um programa de conselhos na TV e que faz bolinhos para festas, enquanto faltam os ovos, a energia, e as balsas continuam a partir na cumplicidade crepuscular. E porventura, o melhor filme fica para Domingo, La Fuente, de Laurent Cantet. Um capricho religiosa de uma avó que mobiliza o prédio todo, e uns demolem paredes, outros constroem um lago com peixes verdadeiros dentro de uma sala, uns arranjam a tinta, outros o bolo, e o vestidos e a festa acontece, apesar de todas as improbabilidades. Talvez a melhor metáfora para o paradoxo cubano.