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7 dias em Havana: Amor e uma garrafa de rum

Estado Crítico

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Entre estes episódios desiguais, o que o filme, no seu todo tem de melhor é a capacidade de fazer passar, apesar de tudo, uma imagem global. Em que, mais do que um regime ou uma denúncia, procura fazer um retrato humano do povo de Havana. Uma sociedade rica no que mais conta.





Uma longa-metragem estruturada como se fosse uma coleção de curtas realizadas por diferentes autores, com pontos de união como um tema ou um cenário. O esquema é antigo e recorrente e muitas vezes resulta bem para o espectador, pois as diferenças de estilos quebram a eventual montonia e o filme torna-se especialmente arejado. Contudo, muito dificlmente um filme do género se tornará uma obra prima, pelo menos no seu todo, e é inevitável olhar para os fragmentos de forma autónoma, quase com o mesmo espírito em que se assiste a uma sessão de curtas-metragens. Isto apesar desse esforço de unidade temática. No caso de 7 Dias em Havana, o conceito é simples e quase primário: cada dia uma história, cada história um realizador. As pontes comunicantes entre as histórias são escassas. Funciona antes como um livro de contos em que, através de diferentes narrativas, se procura fazer um fresco sobre a cidade. Para assegurar uma maior consistência aos 'episódios', além do cenário, o filme conta com um único argumentista: nada mais nada menos que Leonardo Padura, o mais destacado romancista cubano da atualidade. E assim se constrói uma linha. As primeiras histórias são de quem chega, o final fica para quem parte. Dependendo dos ângulos, encontramos uma Havana íntima, muitas vezes embebida em álcool, com os seus rituais, passando ao lado de algum tipo de mensagem de regime (pró ou contra).

O episódio mais irónico talvez seja mesmo o de Elia Suleiman, Diário de um Principiante. O palestiniano mantém a sua figura de clown, em que, sem se rir, à moda de Buster Keaton ou Jacques Tati, consegue expor os traços mais irónicos da sua passagem pela cidade. O enredo tem por si só um potencial anedótico: tem encontro marcado com Fidel no final do seu discurso (como se sabe os discursos de Fidel duravam várias horas). É por isso um fragmento de espera e solidão. Em que se conclui: em Cuba ninguém está sozinho. Só ele acaba estranho e estrangeiro.

De início estes sete dias em Havana parecem-se com uma aventura alcoólica. Assim é o primeiro conto, de Benicio del Toro, Yuma, sobre um jovem ator americano que viaja para Havana para estudar cinema. De banana frita não gosta, mas deixa-se tentar pelo álcool e pelas mulheres. É apenas uma pequena paródia, que diz pior dos gringos do que dos cubanos. Na segunda história, Jam Session, de Pablo Trapero, encontramos Emir Kusturica, a fazer de si próprio, com uma bebedeira de caixão à cova. É um episódio de grande intensidade humana, um dos melhores no filme. Depois passamos para a Tentação de Cecília, a primeira história com Mélvis Estévez, talvez o menos conseguido dos 'episódios', mas que ainda assim nos deixa transbordar o desejo de partida, que se concretiza mais à frente, com Doce Amargo, de Juan Carlos Tabío.

Em Ritual, de Gaspar Noé, é uma eficaz crítica direcionada não ao regime, mas à própria sociedade (o regime em si não chega a ser criticado) e à sua intolerância. Muitíssimo bem filmado, é pouco mais do que um rito e um dos melhores da sessão. Em Doce Amargo, encontramos o melhor de Cuba, uma sociedade que se une, no caso pelos melhores motivos. Tem o seu contraponto em A Fonte, de Laurent Cantet, em que mostra uma radicalização dessa união, em torno de uma crença pagã - semelhante aos orixás brasileiros.

Entre estes episódios desiguais, o que o filme, no seu todo tem de melhor é a capacidade de fazer passar, apesar de tudo, uma imagem global. Em que, mais do que um regime ou uma denúncia, procura fazer um retrato humano do povo de Havana. Uma sociedade rica no que mais conta.



7 dias em Havana, de Laurent Cantet, Benicio Del Toro, Julio Medem, Elia Suleiman, Juan Carlos Tabío, Pablo Trapero e Gaspar Noé. Argumento de Leonardo Padura. Com Emir Kusturica, Josh Hutcherson, Melvis Estévez, Daniel Brühl,Melissa Riviera, entre outros, 129 min