Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

4:44: CALMA, É APENAS O FIM DO MUNDO

Estado Crítico

  • 333

O fim do mundo é, na verdade, o dogma de qualquer vida. Porque sempre que alguém morre, o mundo acaba para essa pessoa. E é por isso que os filme apocalíticos ganham essa leitura pragmática e concreta da dimensão humana, aplicada ao indivíduo

Todos os realizadores devem reservar-se ao direito de fazer o seu filme apocalítico, sem os acusarmos de andar a repetir ideias. O fim do mundo é demasiado grande para se tornar num lugar comum. E os filme que o retratam são tantas e tão variados que até se pode falar de um subgénero. E assim dizermos que já estamos fartos de ver o fim do mundo no cinema é tão insólito como maçar-nos por mais uma cena com um cowboy na pradaria.

Tal como Melancolia, de Lars Von Trier, 4:44, de Abel Ferrara, é um filme pré-apocalítitico (Mad Max, por exemplo, é pós-apocalítico) e, como tal, é feito de angústias e dúvidas existenciais. Ambos os filme fecham a ação num microcosmos (apesar de vermos ocasionalmente um todo), partindo particular para o universal, realçando que o fim é um drama individual antes de ser coletivo. Trier fechara-o num cenário campestre, com uma família disfuncional e desencontrada. Ferrara concentrou-se num casal em Nova Iorque, onde entre os estilhaços do futuro interrompido, o amor floresce.  

Só que Abel Ferrara não é Lars Von Trier nem nunca poderia ser. O dinamarquês, naquela que é uma das suas melhores obras, diverte-se com pormenores sádicos, regozijando-se no seu conhecido prazer de torturar o espectador, numa manipulação demolidora. Vai ao ponto de afirmar que, não só não há além que nos acuda, como a vida é inexistente no resto do universo, elevando ao máximo a dimensão do vazio e ausência total de esperança.

Abel Ferrara consegue transmitir a esperança, apesar da inevitável atracão para o vazio. Isto muito embora deixe uma regra pré-estabelecida (coisa que Van Trier não faz), logo desde o início do filme: a certeza que o mundo vai acabar à hora marcada. Nenhuma personagem, por lunática que seja, tem a esperança que alguma variável altere este premissa, porque o fim do mundo é o dogma do próprio filme.

O fim do mundo é, na verdade, o dogma de qualquer vida. Porque sempre que alguém morre, o mundo acaba para essa pessoa. E é por isso que os filme apocalíticos ganham essa leitura pragmática e concreta da dimensão humana, aplicada ao indivíduo. E é também por esse motivo que a dimensão filosófica do tema encaixa bem em Abel Ferrara, ou pelo menos na sua linguagem dos últimos 20 anos, onde mostrou algum gosto em desconstruir géneros ou ir alem dos seus parâmetros (no início da carreira Ferrara divertiu-se com os próprios géneros, desde o policial à pornografia).

O ambiente fechado, dominado por Willem Dafoe, um dos melhores atores americanos de todos os tempos, assemelha-se, por exemplo a Histórias de Cabaret (2007). Mas a textura de 4:44 acaba por estar mais próxima de Os Viciosos (1995), em que Ferrara intelectualizou de forma surpreendente o género dos filmes de vampiros. Aqui há um relativo realismo, uma calmia interrompida por espasmos de pânicos, mas nunca o caos. O apocalipse é pretexto para a redescoberta das essências, das interioridades remotas.

Logo no início, ela pergunta-lhe: "Para quê que estás a fazer a barba". E ele responde "porque tu gostas dela curta". Mas ninguém se questiona a utilidade da longa tela que Skye pinta no chão, usando técnicas semelhantes às de Jason Pollack. Aquele que se anuncia como o mais efémero dos objetos artísticos. Isto porque a arte é por natureza inútil e só prevalece enquanto conceito. Depois passamos para uma cena de sexo, exemplarmente filmada. Caminhamos entretanto para o fim. Onde, apesar de tudo, a humanidade prevalece, quer através do ciúme quer na irresistível tendência para regressar às origens.

Mais ainda, o que salva o Homem do caos é a inaceitabilidade da morte. O fim é algo que pura e simplesmente não podemos tolerar. É inevitável resistir, vivendo os últimos momentos como se fossem os primeiros.

 

4:44, O Último dia na Terra, de Abel Ferrara, com Willem Dafoe e Shanyn Leigh,  EUA, 85 min