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4: 44 Calma é apenas mais um fim do mundo

Estado Crítico

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Um filme catástrofe sem ui nem ai

Curioso que num espaço tão curto, dois realizadores, Lars von Trier (Melancolia) e Abel Ferrara abordam o fim do mundo numa perspetiva de fatalismo absoluto, sem salvação, sem escapatória, sem sobreviventes, sem super-heróis. É bom que fiquemos cientes: neste grande Titanic que é o mundo não há botes salva-vidas- nem para a primeira classe. E no entanto as orquestras continuam a tocar. Porque sim. Ou, porque não? Tal como em Melancolia, o filme foca-se num ambiente familiar. Mas ao contrário de Trier, no filme Ferrara não há a sádica e bela coreografia do horror. Aqui há um apartamento sombrio, habitado por um casal, ela pinta, ele está mais inquieto, as ruas nova-iorquinas têm um ar lúgubre, os transeuntes também... As sequências mais alucinatórias são muito cruas e despidas de artifícios. Do alto do apartamento, ouve-se o ruído incessante lá de fora. OS habitantes do planeta sabem que aquela é a última noite, o planeta irá extinguir-se exatamente às 4 h e 44 - mas continuam a circular, ruidosos e atarantados, como num formigueiro que acabou de levar uma patada. O fim do mundo "está a dar" em todos os canais, o homem arruinou o planeta, Al Gore, diz-se a certa altura, tinha razão. Mas até os pivots vão abandonando os seus postos. O último cigarro, o último bife, o último beijo ganham aqui um novo sentido - a falta dele. O sentido morre. É uma experiência única na vida. Ou na morte. Alguns suicidam-se, outros drogam-se, outros fazem amor, outros comem e bebem, outros rezam, o chinês continua a vir entregar comida ao domicílio, ginastas pedalam num ginásio, fala-se com os pais por skype, à distância. Talvez o único alívio perante o nada seja a proximidade. E o toque.    

 

4:44 Último Dia na Terra

De Abel Ferrara. 4:44 Last Day on Earth, com Willem Dafoe, Natasha Lyonne, Paul Hipp, Triana Jackson. Drama. 85 min. EUA. 2011