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Eu não sou a tua Princesa: ARTE MENOR

Estado Crítico

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Um filme pintado com as cores da demência, de uma sede de amor que nunca se concretiza. A alternativa ao 'abuso' é a solidão. Eu não sou a tua princesa é uma obra corajosa de uma realizadora exposta a tudo.

Nos anos 60, a artista plástica e fotógrafa Irina Ionesco apresentou a mais ousada das suas séries de fotografia. Escolheu a filha, de apenas quatro anos, como modelo. E a criança era apresentada nua ou pouco vestida, em poses sensuais e provocadoras, induzindo a ideia de desejo. Essa modelo chama-se Eva Ionesco, hoje tem 47 anos, tem uma longa carreira enquanto atriz e agora estreia-se na realização com Eu não sou a tua Princesa, um filme autobiográfico. E demorou todo este tempo para que, finalmente, fizesse publicamente estas contas com a vida. Retratou traumas de uma infância invulgar, num filme algo cru, inusitadamente polémico, que levanta mais questões do que responde, mesmo que esse não seja o seu maior propósito. Ou seja, o tema dos limites das artes, da 'pedofilia' moral ou artística, não é dominante na narrativa, mas sobressai pela sua brutalidade. Mesmo que, no século XXI, a questão dos limites das artes, neste caso concreto, já não se coloque da mesma forma. E poucos defenderiam a fotógrafa, em nome da arte, neste caso assaz bizarro. A arte tem limites, é facto assente, limites legais, morais e éticos: não se pode matar em nome da arte, não se pode esculpir rostos humanos com canivetes, como o Joker de Batman. A arte , como tudo o resto, tem os seus limites, embora parte da história da arte se faça de transgressões. No caso Ionesco, há um abuso de menores, com conotações pedófilas, que não se justifica nem desculpa, nem sequer em nome da arte.

Não sou a tua princesa não é um tratado de moral, o filme não se preocupa em fazer este juízo, nem sequer em dar uma ambivalência de perspetivas que suscite o debate ou que faça a denúncia. Lida com a inocência moral da própria criança que, por prurido moral, é um pouco mais velha do que Eva era na realidade. Mas não deixa de haver um cruel jogo de interesses. Violetta, a personagem, é frágil, carente e até ciumenta, e procura, acima de tudo, o afeto maternal. Acreditamos que Hanah até gosta da filha, ao ponto de se apaixonar pela sua imagem, numa ligação quase incestuosa, mas coloca a sua 'arte' acima de todas as coisas, até da própria filha. E o filme é isso, um retrato de uma criança forçada a crescer à força, de fora para dentro, e de uma artista obcecada pelos seus projetos, maquiavélica e intransigente. Eu não sou a tua princesa é um filme pintado com as cores da demência, de uma sede de amor que nunca se concretiza. A alternativa ao 'abuso' é a solidão. Eu não sou a tua princesa é uma obra corajosa de uma realizadora exposta a tudo.



Eu não sou a tua Princesa, de Eva Ionesco, com Isabelle Huppert, Anamaria Vartolomei, Georgetta Leahu, França, 105 min