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Salomé Lamas: Como se constrói a História?

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Terra de Ninguém, de Salomé Lamas, foi eleita a melhor longa-metragem da competição portuguesa do DocLisboa, vencendo ainda o Prémio Escolas, o de melhor primeira obra e o galardão do público. O JL falou com a realizadora, de 25 anos, que, também este ano, recebeu o prémio de melhor documentário no festival Curtas Vila do Conde com Uma Comunidade   

Carolina Freitas



Terra de Ninguém, de Salomé Lamas, foi eleita a melhor longa-metragem da competição portuguesa do DocLisboa, vencendo ainda o Prémio Escolas, o de melhor primeira obra e o galardão do público. O JL falou com a realizadora, de 25 anos, que, também este ano, recebeu o prémio de melhor documentário no festival Curtas Vila do Conde com Uma Comunidade    



Jornal de Letras: O que significam, para si, estes prémios?

Salomé Lamas: Os prémios são sempre muito gratificantes. Neste caso, foi particularmente bom porque, embora o filme tenha uma produtora, não teve financiamento. Foi feito porque houve pessoas que o quiseram fazer, e a parte boa é que agora podemos dividir o dinheiro irmamente e, pelo menos, cobrir os gastos de quem o realizou. No fundo, em vez de servir para investir num próximo projeto, estes quatro prémios vêm financiar o próprio filme.



E de que trata este documentário?

É sobre um personagem real, o Paulo de Figueiredo, que nos conta a história da sua vida. Temos várias situações, tanto que o filme está dividido em capítulos. Começa por contar a sua experiência na Guerra do Ultramar, como comando em Moçambique, Angola e na Guiné. Depois, foi recrutado pela CIA para participar numa situação de guerrilha, em El Salvador. Mais tarde, trabalha como guarda-costas e segurança ao serviço da Fidelis, no pós-25 de Abril. E, a certa altura, vai para Espanha, trabalhar para um grupo ilegal. Acontece que foi dito aos mercenários, recrutados em Portugal, França e no Magrebe, que a missão era liquidar etarras, o que significava que estariam a trabalhar a mando do Governo espanhol com a conivência dos serviços secretos franceses. O Paulo chega a dizer que, na verdade, era mais um assassino do que um mercenário porque recebia X pesetas para matar X pessoas, e as informações eram dadas pelo CESID, ou seja, o Governo espanhol obtinha essas informações de formas obscuras. Até que há um momento, que coincide com a subida do Aznar ao poder (sucedendo a Felipe González), em que o juíz Baltasar Garzón começa a investigar o caso, e o Paulo é apanhado e preso durante 15 anos.



O que a interessou nessa história?

O Paulo acaba por fazer um statement que tem a ver com a seguinte questão: Quem é pior? Aqueles que contratam, que estão no poder, que não dão a cara e, por isso, não chegam a ser apanhados, ou um sniper, que mata ao serviço de uma organização governamental? No fundo, ele atravessa um período conturbado da História em que assiste a revoluções que geram novos poderes, que vêm substituir os anteriores, e ele viveu na franja desses vários poderes. Interessou-me a questão da História, como é que ela se cristaliza, se constrói, e as questões de identidade, pertença e violência que lhes estão, neste caso, associadas. Carolina Freitas