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Reinventar a vida no Tarrafal

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Tarrafal

Era conhecido como o campo da morte lenta. E foram muitos os que lá perderam a vida. No documentário Tarrafal, Diana Andringa, 62 anos, recupera as memórias dos últimos ocupantes da prisão política que durante demasiados anos recebeu militantes anti-fascistas, quer portugueses, quer africanos. Neste caso, são sobretudo patriotas que lutaram pela independência das ex-colónias africanas, que a jornalista e realizadora conheceu muito bem, já que também ela foi presa pela PIDE, em 1969, por defender um futuro diferente para Portugal e para o país onde nasceu, Angola. Tarrafal é mais um contributo para a memória colectiva portuguesa, na sequência de inúmeros trabalhos que Diana Andringa tem vindo a concretizar. Para si, o jornalismo e o documentário são armas contra o esquecimento.

Porque decidiu fazer um documentário sobre o Tarrafal?

Diana Andringa: É um assunto que me diz respeito. Eu própria estive presa pelo que me interesso por tudo o que aconteceu em Portugal durante a ditadura e em particular no que diz respeito às prisões. Não se pode perder a memória, porque sem passado é difícil perceber o presente e clarificar o futuro.

Sentiu este filme como um imperativo?

Era daqueles que tinha em mente. Fiz filmes sobre as prisões portuguesas, referentes à geração de 60, nomeadamente Peniche e Caxias, e já nessa altura filmei o Tarrafal. O documentário proporcionou-se devido a um encontro com os sobreviventes, promovido pelo Presidente da República de Cabo Verde. O que acabou por assinalar, em 2009, os 35 anos da libertação do campo.



As filmagens decorreram durante esse seminário?

Sim. Foi uma oportunidade única para os encontrar. Tive a sorte de ter o apoio das fundações Mário Soares e Amílcar Cabral. Depois, trabalhámos que nem uns loucos para conseguir entrevistar o maior número de pessoas. A ideia foi centrar o filme no Tarrafal: praticamente não saímos do campo e estamos muitas vezes em celas. Assim é mais fácil perceber o ambiente prisional, de onde não é possível sair. Porque muitas vezes quando se saía era para o cemitério.



Qual o contributo deste filme para a história do Tarrafal?

Há um tratamento novo em relação aos presos políticos africanos. A parte portuguesa tem muitos depoimentos, muitas pessoas escreveram memórias sobre o que lá passaram e ainda bem que assim foi. Também já há muitos documentários sobre essa perspectiva. A parte africana, no entanto, tem sido menos abordada e é extremamente importante fazê-lo. Há quem não saiba que o Tarrafal voltou a abrir para receber patriotas africanos. É importante dizer que eles iam lá parar sem um julgamento ou sem conhecer a acusação.



O que mais a surpreendeu neste documentário?

Os relatos dos guineenses sobre o que passaram quando ainda estavam presos pela tropa portuguesa. Confesso que à tortura já me tinha habituado, porque fiz um trabalho sobre ela, nas Duas Faces da Guerra. Nessa altura ouvi histórias de presos que foram atados num varão e ficaram suspensos. Alguns chegaram a morrer. Mas aqueles testemunhos parecidos com os campos nazis - do género: "Para não dares trabalho, cava a tua sepultura antes de nós dispararmos" - surpreenderam-me muito.



Nunca pensou em fazer uma narração em voz-off?

Como no documentário sobre a geração de 60, entendi que o diálogo que se estabelece entre os protagonistas era suficientemente forte. Cada ex-preso pega no que disse o anterior, prolongando a conversa. Pelo meio, vai surgindo a secura dos documentos administrativos. Sempre considerei que este filme tinha de ser feito com uma grande sobriedade, até para dar a ver o isolamento daquela ilha.

A narrativa é limpa, contida e simples, porque não são precisos adjectivos. A realidade está lá.



O que mais a seduz no documentário?

De uma forma geral, todas as pessoas têm uma dignidade própria e merecem ser ouvidas. E é fascinante quando lhes damos tempo e espaço para falar das suas histórias. Acho lindíssimo quando neste documentário o Jaime Schofield diz que: "O importante não era eles quererem matar-nos lentamente. É que no Tarrafal reinventámos a vida". Isto resume a dignidade do ser humano que quero captar.