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João Viana: Histórias da Guiné

Encontros Imediáticos

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Depois do sucesso de João Salaviza e Miguel Gomes, Portugal recebeu uma menção honrosa em Berlim, para a longa A Batalha de Tabatô, de João Viana (estreia no segundo semestre de 2013), na categoria de primeiras obras, num ano em que a comitiva portuguesa contou com quatro filmes. João Viana, 46 anos, já tinha estado presente em Veneza, com a curta A Piscina (2004), co-realizada por Iana Ferreira. O JL falou com o realizador que também apresentou em Berlim a curta Tabatô.

Como se deu este fenómeno raro de estarem a concurso dois filmes do mesmo realizador num festival da importância de Berlim?

João Viana: São dois comités de seleção distintos. Coincidiu selecionarem ambos os filmes. Nós chegámos a avisar que estavam a escolher dois filmes do mesmo realizador, com a mesma produtora, com os mesmos atores e filmados no mesmo sítio. Eles estiveram a pensar três dias, mas mantiveram as escolhas.



Ambos os filmes passam-se na Guiné. Como foi a experiência no terreno?

A Guiné é um país culturalmente riquíssimo, com mais de 30 grupos étnicos, com os seus hábitos e costumes. Isto para um contador de histórias, como eu, é uma mina. Poderia fazer 300 filmes diferentes.



O filme está na fronteira entre a ficção e o documentário?

Sim. Porque a Guiné é uma terra de ficção. Fazendo-se um documentário sobre contadores de histórias, o resultado nunca é convencional. Numa simples conversa com um homem sábio vivemos vários tempos em simultâneo. É muito intenso em termos de ficção. Mas eu quis fazer um documentário, e foi para isso que ganhei um subsídio, e acho que, ao filmar assim, não enganei o Estado. Nós não ficámos em hotéis, antes em casas. Eles construíram-nos as paredes e nós os telhados. Com o filme foi exatamente o mesmo. O filme foi construído por eles, nós fizemos muito pouco.



Este projeto ainda envolve outros filmes?

Há mais dois. Um making of sobre a forma como a música entra no filme. O som é a coisa mais importante no cinema, como explica João César Monteiro. O filme tem uma grande componente sonora, que tem a ver com o trabalho do percussionista Pedro Carneiro, que trabalhou sobre a música Mandinga. O Paulo Carneiro, o meu assistente de realização, está a acabar um documentário sobre o naufrágio que a equipa sofreu durante a rodagem. Estavam 109 pessoas a bordo, incluindo crianças, perdemos o material de iluminação, morreram os animais mas, felizmente, não morreu nenhuma pessoa.



Este repetido sucesso do cinema português em festivais de grande importância parece contrastar com a crise de subsídios...

Isto acontece porque é trabalho que vem de trás. Os apoios foram dados pelo ICA no tempo em que ainda havia Ministério da Cultura. Os subsídios que cortaram em 2012 vão refletir-se negativamente durante os próximos dois, três anos. Certamente que para o ano não haverá nenhum filme português nos festivais A.



Fizeste um filme manifesto, que passou no DocLisboa, exatamente sobre a 'morte' do cinema português. Entretanto, já abriram os concursos para 2013. Há esperança?

O concurso veio mesmo no timing certo. Era terrível. Estávamos no limite de não termos dinheiro para enviar os filmes para Berlim. Agora há esperança, mas isto ainda vai demorar muito tempo. Ficará historicamente como um período em que não existe cinema.



Que portas se podem abrir com esta menção honrosa?

Já aconteceu muita coisa. Foram assinados contratos com vários países. Hoje de manhã os americanos quiseram comprar o filme. Fomos muito bem recebidos pelos Cahiers du Cinema e Le Monde, e o filme levantou voo. Agora estou ansioso por ver a reação em Portugal e em África.