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João Canijo e Anabela Moreira: Mulheres que sabem a mar

Encontros Imediáticos

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Uma perspetiva feminina do bairro piscatório de Caxinas, através de um jogo de olhares de João Canijo e Anabela Moreira. É o Amor (Obrigação) estreia dia 25 de abril (passa no Indie dias 19 e 20). Um documentário construído ou uma ficção ultrarrealista. Apenas o cinema é a sua 'obrigação'

Do Bairro Padre Cruz para as Caxinas. Tal como Sangue do Meu Sangue, É o Amor (Obrigação) é um filme de mulheres. Os pescadores aventuraram-se no mar, mas Canijo ficou em terra, imiscuindo-se no universo das mestras e trabalhadoras da lota. Para isso, contou com uma agente infiltrada, a atriz Anabela Moreira, que faz uma ponte muito original entre documentário e ficção. O filme foi uma encomenda do Curtas de Vila do Conde, para assinar os seus 20 anos e foi realizado com uma equipa de estudantes. A primeira versão, de cerca de 50 minutos, foi apresentada no Curtas, no verão passado, perante um cineteatro Neiva lotado de caxineiros. A versão longa descobriu o amor como o tema principal. O JL falou com João Canijo e Anabela Moreira sobre o amor, o mar, homens, mulheres, a praia e a cidade. JL: Tal como Sangue do Meu Sangue, Isto é o Amor é um filme de mulheres. Porque é que, num filme centrado numa comunidade piscatória, optou por ficar em terra e deixar o universo masculino de fora? João Canijo: Pareceu-me, logo à partida que, como sempre, as mulheres iriam ser muito mais interessantes. E, neste caso, de uma maneira muito mais paradigmática: elas é que são a parte viva daquela comunidade. Os pescadores são demasiado fechados? JC: Têm alguma dificuldade de comunicação, porque passam a vida nos barcos. Elas têm uma perspetiva mais aberta da vida. Anabela Moreira: Elas são as âncoras que os amparam quando regressam do mar. Dão-lhes um banho de normalidade. O mestre não tem nada para contar, está no vazio, porque no mar nada se passa. Para além do trabalho físico não há estímulos, apenas uma rotina constante. Quando eles regressam, elas querem servi-los, sem exigir nenhuma conversa em troca. É extremamente cruel essa forma de vida. Elas estão sozinhas, têm os filhos sozinhas. Acho muito pertinente que o João tenha escolhido o lado feminino porque essa perspetiva raramente é abordada. Muitas vezes, nos filmes mais antigos, como Maria do Mar, há uma preocupação primária com a sobrevivência dos pescadores que partem para um mar traiçoeiro. Agora tal já não acontece? JC: Há sempre. Mas neste momento a questão não é tão dramática, porque a comunicação e os meios de salvamento já não são os mesmos. A maior parte dos acidentes no mar não correm propriamente por inconsciência, mas por jogo com o risco. Quando o mar está bravo, a maioria dos pescadores não sai. Os que arriscam, sabem que vão pescar mais e ser os únicos a vender. Por excesso de confiança... ou ganância. O marido da Sónia arriscava muito quando estava no começo de vida, com o tempo tornou-se mais prudente. Este é um documentário com originalidades que marcam a diferença, como a introdução da personagem da atriz, que, no fundo, também é documentada. Como chegaram a esta forma? JC: A realidade é sempre uma ficção para quem a vê. Por isso, a diferença entre documentário e filme de ficção desfaz-se conceptualmente. Tratando-se assim de uma ficção, porque não introduzir um personagem de ficção dentro da realidade? E depois a Anabela tem este jeito extraordinário de se infiltrar. Com a Anabela, a pesquisa, que normalmente demoraria um ano, foi feita em dois meses. Como foi aceite no meio? JC: Convém explicar o contexto. Partiu de um convite do Curtas de Vila do Conde. Tinha como condição ser feita com estagiários. Depois aceitei uma sugestão de fazer em Caxinas. De seguida percebi quais as mulheres que me poderiam interessar. E então fizemos um casting, já com a Anabela no projeto. Um casting no documentário? JC: Sim. Entrevistámos 15 mestras. A Sónia foi a antepenúltima. O que lhes foi pedido em concreto? JC: Dissemos-lhes que se tratava de uma atriz a fazer uma pesquisa para um papel. Que tinha que aprender a ser mestra. AM: Antes disso, o João fez as suas investigações. E as informações sobre as mulheres de Caxinas vinham envoltas em mitos extraordinários. Quando me estava a falar disso, o meu primeiro instinto era que não seria assim. Por isso, confrontei as mulheres com essas histórias logo no casting. Aqui há um jogo olhares. O olhar do realizador sobre o olhar da atriz. JC: A Anabela é tão autora do filme como eu. Foi ela que fez a pesquisa. Tínhamos uma espécie de guião, mas os temas foram todos descobertos por ela. Também é autora, porque as situações são provocadas por ela, enquanto mestranda. Havia um guião prévio? Ao ponto de definir que em determinada cena seria bom que cantassem? JC: Sim ou quase. AM: Aconteceu no processo de pesquisa. Íamos na carrinha para Aveiro a cantar É o Amor. O João viu essas filmagens e achou aquilo maravilhoso. No filme, quase coloco a música de empurrão. Eu pergunto "Não é verdade que todas as mulheres têm uma música?"... É muito difícil tentar recriar espontâneo. Elas não se aperceberam para onde as estava a levar. Quis recriar uma cena que tinha acontecido antes. Mas claro, não foi a mesma coisa. Mas o guião é do João, ele inclui-me por simpatia. JC: A pesquisa foi tua... AM: O que aconteceu foi que o João, como não pode ser mosca, pôs uma atriz em Caxinas com uma câmara de filmar. Eu filmava, entregava-lhe o material e ele ficava no hotel a ver. Deve ter sido delicioso para ele estar a trabalhar no guião e receber informação através do meu olhar. A partir daí, ele escolheu o guião que quis. Fez o filtro do que é interessante e importante. Para depois escrver o guião e filmar cena por cena. Eu não sou argumentista de coisa nenhuma, isso é uma generosidade dele. Funcionava como a Sónia e o Zé. Eu fui o mestre que vai à pesca de material e ele a mestra que lhe dava sentido e fazia aquilo render. Quando se aperceberam que o tema forte era o Amor? JC: Logo no princípio, o amor e a confiança no amor. AM: Foi um ato de provocação do João para com a Belinha. Ele percebeu que aquela comunidade funcionava à volta da segurança, no que é o amor e o parceiro. Ele, como sabia que eu tinha muitas questões à volta disso, provocou-me como faz noutros guiões. É um agente provocador da interioridade dos atores. Ele sabia que essa era uma questão minha. Sabia quais as minhas limitações conceptuais em relação ao amor. As cenas da atriz ao espelho são ficção? JC: É um mistério, mas estavam escritas. Foram escritas com a Anabela. É um método que o Platão já usava, com um personagem chamado Sócrates. O amor surge de uma forma teorizada, que é bastante curiosa. Aquelas pessoas têm conceções muito definidas... AM: As mulheres de Caxinas têm algumas questões muito bem resolvidas. Sobre o que é suposto ser um casamento, o que é amar os maridos... Não é por acaso que o trabalho delas se chama obrigação. É obrigação da mulher amar os maridos daquela forma. O marido está sempre presente, mesmo quando não está ali, porque elas condicionam a sua ação mediante ele. Não são tão instintivas quanto se possa imaginar. E, como é uma comunidade muito pequena, elas vigiam-se muito umas às outras. Elas podem não filosofar sobre isso, têm uma conceção muito definida do que são os seus papéis. Provavelmente, não se passará o mesmo comigo quando me casar. Eu não sei qual é a minha obrigação. Eu, por viver em Lisboa e pertencer a uma realidade urbana, quando deixo crescer as minhas raízes não tenho um chão firme onde as assentar. Esse conceito não é algo conservador? JC: A ideia do filme surgiu quando ouvi uma senhora chamar ao governar da vida dos maridos fazer a obrigação. Não era uma obrigação má. Havia a obrigação do amor e de fazer o amor. Pode ser conservador, mas não de forma negativa. Nada se mantém exatamente de geração em geração. Num certo sentido, elas são modernas. Os fatos de treino justos nada têm a ver com as sais abaixo do joelho. AM: Sim, mas durante a semana não usam roupa muito feminina, porque os maridos não estão em terra. É tudo muito construído. Ela não se permite agir de forma instintiva, como lhe dá na real gana. Também jogam com esse preconceito, que a vida em Caxinas é dura e são todos muito infelizes... JC: Eles estão sempre em festa. Só numa semana fui a quatro. Não me parece que sejam muito infelizes, embora trabalhem muito. Serve também para fazer o contraponto com a urbanidade miserável da atriz. JC: Pode sempre colocar-se a questão: será que a Sónia é tão feliz quanto parece? E será que a atriz Anabela é tão infeliz como parece? AM: Todos nós temos papéis, e agimos de acordo com o que achamos que esperam de nós. JC: Mas graças à qualidade da Anabela eu sabia que iriam agir de uma forma muito parecida com a realidade. Sabia que quando chegássemos já ia estar tão entrosada que não agiram de forma muito diferente com a nossa presença. Tivemos uma outra vantagem grande, porque os operadores eram miúdos da escola, a que elas não respeitavam nem davam importância. AM: Há uma altura em que ela ficou chocada quando se vê de fora. E disse: "Eu não sou assim". Ela já não está em controlo total da imagem que quer transmitir para o João. A primeira vez que fui com ela à doca portou-se de uma forma muito mais doce. Mas o seu motor interior é ser a mestra. Elas que estão a trabalhar com ela há anos, ouvem as mesmas coisas, com a mesma dureza. Ultrapassar a barreira da máscara é fascinante. Ela já não se lembrava de que eu era atriz.   A montagem foi difícil? JC: Foi importante para descobrir a estrutura. Por isso é que não gosto da versão curta que apresentámos no festival de Vila do Conde. Foi feita à pressa. Como é que uma atriz lida com esta overdose de realidade? É uma espécie de agente dupla? AM: Essa dose de realidade é o que é preciso para ser atriz. Neste caso está a viver a experiência de forma mais intensa, mas ao mesmo tempo com a consciência plena de que está a fazer um filme e de que está ali a câmara... AM: O João ensinou-me ao longo do tempo que não interessa onde a câmara está. Se tiver essa preocupação estou a falsear tudo. Se ele está a cortar-me os pés ou os braços ou se está a captar partes íntimas do meu corpo isso não é uma questão. É ele que tem de conduzir. Eu tenho apenas que agir. É como fazer teatro, no sentido em que é o espectador que escolhe para onde olha. JL: É um teatro em que só uma das personagens está consciente de que é atriz. AM: Mas ninguém deixa de ser ator, no sentido em que cada um tem o seu papel, que é uma construção. E agora o que se segue? JC: O próximo filme, é uma peregrinação a pé de Montalegre a Fátima. O filme teve o apoio, está homologado, mas o contrato ainda não está assinado. Há de acontecer um dia. Para cada passo é preciso um número do Ministério das Finanças. Embora o dinheiro não seja do OE, formalmente quando o contrato é assinado conta como dívida. O que fazer perante isto? JC: Não sei, agora que aquele Miguel Fernando Relvas já lá não está, pode ser que a Lei do Cinema tenha os regulamentos aprovados em conselho de Ministros. Na sua esperteza, ele dividiu a regulamentação da lei em duas partes, o que tornou a sua aprovação impraticável.