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Entrevista com Carlos Saboga

Encontros Imediáticos

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Portugal faz contas consigo próprio num filme que vasculha a sua História recente. Photo é a inesperada estreia de Carlos Saboga na realização, aos 76 anos. O filme, que já está em exibição em França, chega às salas portuguesas a 9

 

Portugal faz contas consigo próprio num filme que vasculha a sua História recente. Photo é a inesperada estreia de Carlos Saboga na realização, aos 76 anos. O filme, que já está em exibição em França, chega às salas portuguesas a 9



Foi António Cunha Teles quem o desafiou a realizar um filme, explicando-lhe que nunca é tarde demais para começar. O resultado é este Photo, um filme luso-francês, falado nas duas línguas, filmado em ambos os países e com uma equipa mista. A estrela é Anna Mouglalis, atriz fetiche de Saboga, mas conta com Rui Morrison, Simão Cayatte, Marisa Paredes, John Leyesen, entre outros. Percorre um itinerário comum à vida do autor, com a enorme nostalgia de quem lutou pou um mundo melhor.

Apesar deste ser o seu primeiro filme, Carlos Saboga tem uma longa carreira como argumentista, em França e em Portugal, entre outros escreve O Lugar do Morto (António-Pedro Vasconcelos), Matar Saudades (Fernando Lopes), Amor de Perdição (Mário Barroso), Os Mistérios de Lisboa (Raul Rouiz) e As Linhas de Wellington (Valéria Sarmento). Em Photo, encontramos uma mulher que parte para Portugal em busca da sua identidade. Também será a identidade o que Carlos Saboga procura. Ele que, segundo nos disse, sente-se estrangeiro onde quer que esteja

 

Jornal de Letras: Depois de tantos anos como argumentista, porque só agora agora resolveu realizar o primeiro filme?

Carlos Saboga: Comecei a trabalhar em cinema como assistente de realização. E o meu projeto era, mais cedo ou mais tarde, realizar. Mas, entretanto, tive que me exilar. Vivi quase dez anos sem documentos. Foi possível encontrar trabalho no cinema e na televisão, mas deixei de encarar a passagem para a realização numa perspetiva imediata. Depois, deram-me a oportunidade de escrever um argumento. A partir daí, foi como uma corrente, passei a viver da escrita. E não voltei a pensar no assunto. Embora haja sempre uma frustração comum a todos os argumentistas, porque o resultado do filme nunca é como tinham idealizado no papel.



E como chegou agora a oportunidade?

Há uns anos, o António Cunha Teles propôs-me realizar um filme. Eu achei que era demasiado velho para começar. Mas ele convenceu-me, dizendo que ele era ainda mais velho ainda e continuava a fazer filmes. Escrevi então o argumento. E enviei-o a concurso. Tive apoio para a escrita, mas o apoio à produção foi recusado três vezes. Até que o Paulo Branco conseguiu os fundos necessários, com o apoio do Canal Plus.



Para este filme não teve de fazer um grande trabalho de pesquisa. É quase a história da sua vida...

A maior parte dos argumentos que escrevi foi por encomenda. Obrigando a documentar-me - escrevi uma série sobre o vinho de Bordéus, de que não conhecia absolutamente, ou sobre as Invasões Francesas que não dominava, ou adaptando romances, como Os Mistérios de Lisboa, de Camilo. Aqui nada disso foi preciso.



Photo não é um filme autobiográfico, mas a sua biografia está presente.

Estritamente autobiográfico não há praticamente nada. Há coisas de que ouvi falar, personagens que conheci. Parti de um acontecimento real, o assassinato de um jovem, que transformei radicalmente. Retrata o que André Malraux chama de perda da ilusão lírica. Ou seja, o fim da ideia que através de um combate se podia transformar o mundo em algo mais justo e fraterno. Nos anos 70, essa ilusão cedeu à tentação da violência e depois desapareceu. Curiosamente, aqui, o personagem que me está mais próximo é também aquele que me é mais alheio. Elisa, uma francesa, que não é da minha geração, e que se interroga sobre aquilo que não conhece.



Mas até há uma coincidência de percurso, não tanto com a Elisa, mas com a sua mãe, que passou pela luta antifascista e se fixou em França.

Sim, vivi essa relação França-Portugal. E mesmo o personagem italiano tem a ver com o meu itinerário, porque vivi sete anos em Itália. A mãe da Elisa é um resumo de vários pessoas que conheci.



Há a referência de uma outra personagem, o David, que vem de Marrocos, que de certa forma também coincide com o seu itinerário, uma vez que viveu na Argélia...

O David é um personagem de outra geração. Em França, há jovens que, por um certo tipo de rebelião, que simpatizam com as causas árabes. Há muitos jovens franceses que se convertem ao islamismo. É a minha vontade de falar de algo atual, porque eu não quis fazer um filme de época. Quis falar dos anos 70 vistos de hoje.



Qual foi o seu itinerário pessoal. Quando saiu de Portugal?

Fui preso em 1962 e voltei a sê-lo em 1964. Primeiro, três meses, depois, seis meses. A PIDE chegou a mim com atraso, quando me prenderam já não militava em qualquer grupo político, embora estivesse obviamente contra o regime. Não me espancaram, mas sofri a tortura do sono. Isso marcou-me. E quis sair do país, para que não me prendessem novamente. Não me deram passaporte, porque a minha família era do contra - o meu pai passou 15 anos nas prisões da PIDE. Fugi a salto, como muitos portugueses faziam. Na verdade, esse desejo já era antigo. Alguns amigos, como o António-Pedro Vasasconcelos e o Alberto Seixas Santos foram para França. Na altura, não pude ir com eles porque não tinha passaporte. Um desejo foi sempre adiado.



Nunca pensou em voltar?

Estava a trabalhar em Itália, onde vivia com uma italiana, e não pensava em voltar. Embora, em 1974, vim a Portugal para visitar a família e os amigos. A verdade é que sou um português matizado de várias coisas. Já vivi mais tempo no estrangeiro do que em Portugal.



No filme nota-se um certo desencantamento com o rumo do país e daquela geração. É o que sente?

Há um desencanto geral em relação à época. Um dos militantes tornou-se ministro de um governo de direita. Acontece. Houve pessoas bastante radicais que conheci, que me acusavam de pequeno-burguês porque não era maoista e quando voltei a Portugal encontrei-os como secretários de Estado em governos de direita. É normal que as pessoas mudem. Eu não tenho as mesmas ideias que tinha na juventude, mas mantenho uma certa fidelidade aos valores que defendia. Parece-me que, como diz o David, há aqui uma traição da própria juventude. Não me arrependo do que vivi, nem dos ideais que aspirei, continuo a tê-los de um certo modo, apenas penso que já não são sejam atingíveis da mesma forma. Quando era jovem sabia como mudar o mundo, agora não tenho tantas certezas. Para mim interessa não só a mentira e a traição não só no cenário político, mas a questão da procura de identidade.



Elisa, tal como o país, tem contas a fazer com a sua História, para descobrir a sua identidade, o seu pai...

A coisa mais importante para mim é a condição de estrangeiro. Eu vivo essa condição em França, porque nota-se o meu sotaque. Em Portugal, depois dos anos que vivi fora, sinto-me estrangeiro. E quando era mais novo também, porque vivi sempre com Salazar, o que fazia com que não me identificasse com o meu próprio país. Durante a preparação do filme apercebi-me mesmo de que começava como O Estrangeiro, de Camus. Não tinha a ver com a história, mas inicia-se da mesma forma, com a morte da mãe.



Pode confundir-se Elisa com o país que anda à procura da sua própria identidade?

Sim. Há sinais mais evidentes, como o ex-inspetor da PIDE que nega a realidade, dizendo que a PIDE não matava. O facto de Salazar ter sido considerado a figura mais importante do país num programa de televisão, é sintomático de que Portugal ainda não fez o ajuste de contas consigo próprio. Como os países em geral não fazem. A França tem uma dificuldade enorme em lidar com Vichy, a colaboração com os alemães e com a guerra da Argélia. O passado de Portugal é duro, 50 anos de ditadura marcaram as consciências e as gerações. A geração da Elisa e do David pagam por erros do passado.



O filme chama-se Photo, há um motivo interno para o nome, uma vez que tudo parte de fotografias, mas não acaba por ser também uma chamada de atenção ao trabalho fotográfico de Mário Barroso?

Não havia essa intenção. São efetivamente as fotografias que revelam o filme. Mas também é uma referência ao próprio cinema, os filmes são sequências de fotografias provocando a ilusão de movimento. Agora com o digital já não é necessariamente assim. Mas era uma homenagem à película. Por outro lado, o modo como trabalhei as fotografias é uma artificialidade da representação. Umas foram tratadas com Photoshop, outras foram tiradas na atualidade e manipuladas para parecerem dos anos 60. É um falso testemunho.



Já trabalhou várias vezes com o Mário Barroso, mas desta vez inverteram-se os papéis...

Já tínhamos feito curtas-metragens juntos e outros filmes em que eu escrevi o argumento e ele tratou da fotografia. Temos uma relação de amizade, vivemos os dois em Paris e às vezes vamos ao cinema juntos. Há uma compreensão tácita. Ajudou-me não só na fotografia.



E a escolha dos atores?

Além dos temas pessoais, este filme corresponde à minha vontade de filmar Anna Mouglalis que, além de ser muito bonita, é uma ótima atriz, muito mal aproveitada no cinema francês. Eu vira-a no seu primeiro filme, Merci pour le Chocolat, de Claude Chabrol. Tinha um papel secundário mas importante. Achei-a magnífica e pensei que se alguma vez tivesse a oportunidade, far-lhe-ia justiça. O papel do pai começou por ser interpretado pelo Michel Piccoli, só que ele adoeceu e substitui-o por Johan Leyesen - estou contentíssimo com a prestação dele. Queria o Rui Morrison e a Ana Padrão. Os outros portugueses foram escolhidos através de um casting. O Simão Cayatte estava em Nova Iorque e ele próprio se filmou a dizer os textos. A Helene Partot foi um caso incrível: descobri-a no autocarro e depois segui-a e fiz-lhe a proposta.



E a Marisa Paredes...

É pena ter um papel tão pequeno, gostava que mais amplo, e ainda tentei, mas não cabia no filme.



Em França será recebido como um filme francês?

É um filme mestiço, porque tem vários sotaques. Tem sido bem recebido em França, fiz várias apresentações e está neste momento em exibição em Paris. Julgo que não fará um sucesso enorme, até porque é restringido a um universo particular, mas está a correr bem.



E o próximo?

Já está escrito e entreguei o projeto. Não tenho grande esperança. Se não receber dinheiro de Portugal, espero que se encontre uma solução alternativa. Passa-se em 1942, é uma história de dois refugiados franceses. Desta vez é mais falado em português do que em francês. Mas volta a questão do estrangeiro.





destaque: Quando era jovem sabia como mudar o mundo, agora não tenho tantas certezas, mas os ideiais continuam os mesmos