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Entrevista com Carlos Saboga: UMA INVASÃO DE HISTÓRIAS

Encontros Imediáticos

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Uma superprodução portuguesa, com a assinatura de Paulo Branco, que inclui um vasto naipe de autores portugueses e estrangeiros. As Linhas de Wellington passou pelo festival de Veneza e chega às salas portuguesas no dia 4. Trata-se de um filme de época que retrata a terceira vaga das Invasões Francesas, lideradas pelo general Massena e a estratégia defensiva delineada pelo General Wellington. Mas, mais do que um filme de batalha, é um filme das gentes e da tragédia de um povo dizimado pela guerra e suas sequências. O JL falou com o argumentista Carlos Saboga.

Uma superprodução portuguesa, com a assinatura de Paulo Branco, que inclui um vasto naipe de autores portugueses e estrangeiros. As Linhas de Wellington passou pelo festival de Veneza e chega às salas portuguesas no dia 4. Trata-se de um filme de época que retrata a terceira vaga das Invasões Francesas, lideradas pelo general Massena e a estratégia defensiva delineada pelo General Wellington. Mas, mais do que um filme de batalha, é um filme das gentes e da tragédia de um povo dizimado pela guerra e suas sequências. O JL falou com o argumentista Carlos Saboga.



JL: Este filme tem uma longa história, que até envolveu uma mudança de realizador. Como tudo começou?

Carlos Saboga: Fui convidado pelo Paulo Branco para escrever qualquer coisa à volta das Invasões Francesas. Ele tinha participado num raide equestre nas Linhas de Torres e propuseram-lhe a produção de um filme para comemorar o segundo centenário. De início, o Raul Ruiz não estava implicado, nem nenhum outro realizador. Fiz um reconhecimento do terreno, falei com historiadores (de que destaco Guardado da Silva), consultei os arquivos. Já conhecia o período porque tinha trabalhado numa série sobre Napoleão para a televisão francesa. Só depois do argumento estar escrito é que se falou com o Raul. Foi um work in progress. Ele leu o argumento, propôs-me algumas modificações. Entretanto, ele ficou doente e continuei o trabalho com a Valeria.



A investigação foi complicada?

Há um extenso rol de memórias. Muitos ingleses escreveram sobre a guerra, desde o soldado raso aos oficiais, incluindo uma jovem que atravessara Portugal nessa altura. Foi o que mais me interessou. Não quis propriamente contar as peripécias guerreiras. O que me interessava era o que estava à volta. Na primeira versão, o Wellington aparecia apenas como uma silhueta, nem personagem era. Outros dos livros a que me socorri foram as memórias do general Baron de Marbot, um escritor extraordinário.



Curiosamente não há grandes cenas de batalha. Porquê?

A única batalha importante durante a campanha do Massena em Portugal foi no Buçaco. Onde, de resto só interveio uma parte das tropas, porque o Wellington escolheu estrategicamente o local da batalha de forma a que fosse compensada a desvantagem numérica. Quando chegaram às linhas houve escaramuças que não foram decisivas. Os franceses foram-se embora sem combate. Do ponto de vista do argumentista, parto de uma realidade para fazer uma ficção. Uma das coisas mais importantes é a terra queimada e o êxodo das populações. Esses dramas humanos dão uma ideia da tragédia que assolou o país, em que pereceram cerca de 50 mil portugueses, 2% da população.



Opta por não explicar que a coroa fugiu para o Brasil e o país está entre franceses e ingleses.

O filme di-lo, porque os comandantes não são portugueses. Na decisão ao mais alto nível os portugueses não intervêm. Contei isso na série para a televisão francesa, porque era o período do Junot. Aqui estávamos três anos mais tarde, a coroa já estava no Brasil e não interveio em Torres Vedras.



Criou muitas personagens. Procurou mostrar a amplitude máxima do que aconteceu

Interessam-me mais as personagens e as situações que a intriga. É isso que faz avançar o argumento.



É difícil encontrar uma personagem central, talvez seja o sargento, interpretado por Nuno Lopes, o que mais se aproxima...

Há duas ou três. O sargento, o tenente Alencar e o Pena Branco, que também aparece do princípio ao fim. O Vicente Almeida também era um dos fios condutor. Eles eram as traves mestras da construção.



O Vicente de Almeida é uma das personagens mais enigmáticas, chega a ter contornos surrealistas. Há um valor metafórico?

Não é estranho que se distinga, porque é o personagem em que Raul Ruiz mais intervém. Na minha versão era apenas um tipo à procura da mulher, foi o Raul que lhe deu essa dimensão platónica. Uma contribuição que eu perfilho.



Como foi a transição para a Valeria Sarmiento?

Conhecia já a Valeria porque era montadora do Raul e tínhamos trabalhado junto nos Mistérios de Lisboa. Ela também realizou filmes que ele escreveu, por isso tinham grande cumplicidade artística. Para mim a transição foi simples. Para ela talvez tenha sido mais difícil, porque não estava habituada a fazer este tipo de cinema. Foi de uma coragem incrível. Ela pensou muito no que o Raul lhe tinha dito, mas a certa altura teve de chamar o filme a si, aquilo que tinha mais a ver consigo: o êxodo e as histórias femininas. O filme, de facto, dá uma importância às mulheres invulgar em filmes de guerra.



Há vários pontos em comum entre Os Mistérios de Lisboa e As Linhas de Wellington. Ambos são filmes de época e têm múltiplas personagens.

Nos Mistérios foi diferente, porque parti de um texto extraordinário do Camilo Castelo Branco. O Trabalho com o Raul foi simples e os problemas diversos. Quisemos respeitar ao máximo o livro e gosto da proliferação de personagens. A grande dificuldade foi o tamanho do livro e é por isso que acabámos por fazer um filme tão grande. O que mais me influenciou na escrita dos mistérios foi o espírito do Raul. Nas Linhas foi diferente. Justamente porque só me encontrei com o Raul depois do argumento escrito. O Raul tinha uma série de ideias que nunca cheguei a saber quais eram e que certamente dariam um filme diferente, em parte pelo estilo de mise-en-scène que teria imposto ao filme.



Parece procurar um meio-termo ao nível da linguagem, entre o português que se falava na época e o atual.

Não se pode ser fiel a 100 % no tempo da ação. Tem que se fazer um compromisso entre a linguagem da época e a atual. Isto para que o espetador se interesse pelas personagens. É um equilíbrio complicado, que nem sempre se encontra. Não pode haver grandes anacronismos, mas também se pode modernizar o discurso sem que isso choque.



Para terminar, em que anda a trabalhar.

Realizei um filme, tem o título de trabalho de Photo. É uma história entre a França e Portugal, entre os anos 70 e a atualidade, em que a fotografia tem um papel essencial. Estará pronto em outubro, estreará num festival, ainda este ano, e estreará de seguida.