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Abel Ferrara: "Ninguém quer morrer sozinho"

Encontros Imediáticos

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ENTREVISTA. Os dias das limusines e champanhe acabaram. Os filmes têm de ser mais baratos e chegarem às pessoas que realmente se interessam por eles", diz Abel Ferrara.
4.44 Último Dia na Terra, o último filme de Abel Ferrara, desafia os espectadores a uma reflexão sobre o fim do mundo e a Humanidade que construímos. Depois da crítica, publicada no último número, entrevista ao realizador norte-americano, de 62 anos, para quem o pessimismo é apenas uma forma de estar atento

Paulo Portugal

Abel Ferrara igual a si próprio. Como há décadas. Menos truculento e violento, mas mais ecologista e tecnológico, o maverick nova-iorquino contempla o dia do Juízo Final, em 4.44 Último Dia na Terra. Felizmente, sem perder aquela calma resignada de quem não pode fazer mais. Pretende ele que seja mais do que um filme que nos faça - pelo menos - parar por um instante e sentir o momento em que nos encontraremos diante aquele dia inevitável. O que faremos então nos derradeiros instantes? Iremos procurar o Outro, pagar as dívidas morais - porque as outras pouca importância têm -, realizar um derradeiro gesto, nem que seja a fazer amor? São estas as motivações das personagens interpretadas por Willem Dafoe e a jovem Shanyn Leigh (namorada do realizador norte-americano) no mais recente filme de Abel Ferrara, que teve a sua primeira apresentação no último Festival de Veneza. Durante meia hora sentámo-nos com o sorridente e divertido realizador para partilhar o seu filme, no mais antigo e num dos mais prestigiados festivais do mundo. Ele lá foi abrindo o livro, o livro de ser Abel Ferrara, o eterno outsider, o maverick natural do Bronx que pontua as frases com um constante you know em carregado sotaque nova-iorquino. Aos 62 anos, convertido ao digital, a assumir ter trazido consigo o filme numa pen e fazer um uso regular do skype. Foi assim.



Jornal de Letras: Nestes tempos em que o box office dita as regras do sucesso, continua a ser difícil ser Abel Ferrara?

Abel Ferrara: Ser Abel Ferrara é fácil, pelo menos para mim (risos). Mas eu escolhi o meu cantinho nesta indústria. Apenas uso a minha experiência, não ando a bater com a cabeça nas paredes, não me vou preocupar qual foi a receita do filme na sexta-feira. E, veja bem, fiz este filme não para ter um sucesso de box office, mas para dar conta desta história que já pensava há vários anos.



Porquê esta ideia do fim do mundo? É um realizador preocupado?

Não estou propriamente a antecipar o fim do mundo, ainda que toda a gente pense em morrer. Por exemplo, tiro muito proveito dos atores quando lhes digo "hoje à noite vais morrer". E a primeira coisa que percebo é que ninguém quer morrer sozinho. A sugestão é esta: então o mundo acaba às 4:44 para toda a gente, portanto todas as vidas individuais irão terminar. Foi ao chegar a esta conclusão, a esta tensão, que percebemos que tínhamos material para trabalhar.



O Abel é pessimista ou...

...Eu sou pessimista no sentido em que não é um filme que irá mudar as coisas antes que se tornem num filme de terror.



Provavelmente, teremos então esse filme de terror, não?

Foi você que o disse, mas acho que é verdade.



Fez algum tipo de pesquisa sobre como poderá ser o nosso possível fim do mundo?

Fiz, mas não é isso que nos move aqui. Até porque cientistas amigos meus me disseram para não me meter nisso.



Digamos que era um final definido à partida...

Sim, é o último dia na Terra. Digamos, que pelo menos o final já eu tinha... (risos)



UMA POSSIBILIDADE ASSUSTADORA



Há uma mensagem subliminar que parece dar razão à premonição de Al Gore. Qual o peso que deveremos dar a essa componente da sua mensagem?

Aliás, tudo começou com o Al Gore, que quis reunir diferentes cineastas e sugerir filmes de 15 minutos sobre o aquecimento global ou temas ambientais. Foi aí que eu tive a ideia de fazer este filme. Pelo menos, fiquei a pensar nessa possibilidade.

 

E qual foi o ponto de partida?

A questão é esta: até que ponto podemos estar a aniquilar a atmosfera? Eu não sei. E acho que eles também não sabem. Veja o que sucedeu com o mercado financeiro, todos os experts na matéria ficaram de boca aberta. Como quando diziam que o mundo ia acabar no dia 23 de maio (de 2011). Nessa altura, em Nova Iorque, toda a gente falava nisso. Acho mesmo que deveria ter contratado o tipo que lançou essa patranha para promover o meu filme... (risos) Por isso é algo que temos de pensar. Sem dúvida. Já desapareceram tantas civilizações, e muito mais avançadas do que nós, que nos pode fazer olhar para trás e pensar um pouco.



Acha que o filme poderá levar as pessoas a criar uma consciência pessoal sobre o assunto?

Sem dúvida. Mas no meu país, muita gente pensa que é tudo fabricado. Acham que o Al Gore inventou tudo e está a fazer a fortuna dela por detrás disso. Esses são os mesmos que querem ver a certidão de nascimento do Obama...



Foi fácil de obter todo esse material do Al Gore?

Está tudo na internet. É uma fonte tremenda de informação. Só temos de procurar e encontrar. É claro que temos de obter autorização para a usar. Foi a mesma coisa que sucedeu com o Dalai Lama. Ele é muito aberto. Tal como o Al Gore.



Já teve oportunidade de lhe mostrar o filme?

Não, acabámos agora mesmo. Mas tenho a certeza de que terá uma opinião positiva. Até porque o ponto de vista dele é bem evidente. Até porque quando propus este trabalho apresentei-o como "o pior pesadelo de Al Gore".



E ele esteve interessado em financiar o seu filme?

Não chegamos a isso. Mas, como disse, ele estava motivado com esta ideia desde o início.



A IMPORTÂNCIA DAS IDEIAS



Foi difícil arranjar o dinheiro para fazer o filme?

Isso é algo sempre dificílimo. Por isso temos de pensar em fazer o filme por muito pouco dinheiro. Os dias das limusines e champanhe acabaram. Eu lembro-me de sair do avião e ter 20 jornalistas a fotografarem-me e fazerem-me perguntas. Mas os filmes têm de ser mais baratos e chegarem às pessoas que realmente se interessam por eles. São poucos aqueles que ganham as grandes fortunas, como o Johnny Depp e poucos outros. O resto tem de se esforçar pata fazer filmes.



O filme ganha uma estética diferente, mais televisiva, ao receber todo esse material. Foi algo intencional?

Não sei se a televisão confere a verdade ou sugere a mentira. Ou se torna as coisas mais importantes. É como os jornais. Lá porque vem escrito no jornal não significa que seja verdade.



Lê jornais?

Eu gosto de ler. E nem me importo de os ler no computador. Não sou daqueles que tem de sentir o papel. Mas gosto de ler, o que me preocupa. Isto porque o jornalismo já não reporta verdadeiros eventos, mas meras reproduções de relatos de pessoas. Já não há verdadeiras reportagens. Tudo é transformado em rumor e boato. E isso não é jornalismo. Mas o mundo sem jornalistas não é nada bom.



Percebe-se que se dá bem com a tecnologia, ao contrário de algumas pessoas...

Claro. A ideia da internet é algo que me entusiasma. Até porque uso o suporte digital. Fico até estupefacto como há pessoas que hoje em dia não sabem enviar um email. Acho que não saberia viver sem computadores. Desde logo, para fazer o filme usei computadores. E transporto o meu filme num cartão de memória. Não é como dantes em que tinha de carregar todas aqueles bobines. O que precisamos de ter é uma ideia. Algo para dizer.



Uma vez mais trabalha com o Willem Dafoe. O que tem ele de especial?

É o terceiro filme que faço com o Willem. O primeiro foi ok (New Rose Hotel), depois fiz GoGo Tales, que foi ainda melhor. E agora acho que está no ponto. É difícil trabalhar com estranhos, mas não temos aquela pressão de Hollywood e dos investimentos. Mas foi ótimo, como sempre. Até porque há cinco anos que queria fazer este filme. E foi também muito bom trabalhar com o Willem. Ele é muito corajoso e deu-nos algumas boas ideias. Foi muito divertido.



UMA CIDADE ADORMECIDA



Nova Iorque continua a ser o centro fulcral da sua vida, mas também da ação dos seus filmes. O que significa exatamente para si, sobretudo depois do 11 de setembro?

Nova Iorque é uma cidade imensa que está sempre em mutação. Para o melhor e para o pior. É um enorme centro financeiro, onde vivem as pessoas mais ricas do mundo. Depois do 11 de Setembro toda a gente tinha medo de ir para lá. Estavam todos paranoicos Nem sequer queriam fazer filmes ali, o que confirmava o preconceito de Hollywood relativamente a Nova Iorque. Agora estão a construir, dez anos depois, um novo World Trade Center. Mas deveriam tê-lo iniciado logo a seguir e igualzinho ao que era. Ainda que eu não gostasse dele até o destruírem. Mas deveriam tê-lo feito igual! O problema é que toda a gente quer vir para Manhattam, mas pelas razões erradas. Estão a tornar a cidade num enorme centro comercial. Já não se vem para Nova Iorque para ser um artista como sucedeu comigo. Não é preciso ter um grande sucesso. Por exemplo, no Chelsea Hotel as pessoas vêm à procura de quem já lá não mora. E não estão lá devido aos preços que pedem.



O Chelsea Hotel não esteve fechado?

Sim esteve fechado. Tentaram evacuar toda a gente. Colocaram cimento na canalização... Agora está praticamente vazio. Já não tem alma. Tiraram tudo o que lá estava, mas ainda há pessoas a morar lá que não conseguem despejar.



Mas olhe que fui lá há uns dois anos e estava tudo a funcionar...

Sim, há dois anos estava tudo bem.



Como é que encara o negócio do cinema hoje em dia, por comparação com os anos 80 e 90? Acha que se tornou numa espécie de parque de diversões?

Tudo muda e nós temos de mudar também. Agora a mudança é a internet e o digital. Só temos de os usar em nosso favor, em algo superior. Mas é o que é.



E o 3D, temos uma moda?

É uma piada. Já é a terceira vez que ouço falar no 3D. Começaram nos anos 50 com algumas experiências, que retomaram depois nos anos 70. Mas no fundo todos os filmes são em 3D, o que eles usam é a lente estereoscópicas. E fazem-nos usar estes óculos ridículos...