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DUAS FACES DA VINGANÇA

Cinema

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Only God Forgives, de Nicolas Winding Refn

'Only God Forgives', do dinamarquês Nicolas Winding Refn ('Drive') é um filme obscuro e demasiado violento, centrado numa história de vingança, com Ryan Gosling, como dono de uma academia de boxe tailandês, em Bangcoque. 'Grigris', de Mahamat-Saleh Haroun ('O Homem que Ri'), não é nem mau nem bom, mas tem os encantos e a ingenuidade de um filme africano do Chade, sobre um jovem deficiente, que quer tornar-se bailarino profissioal para sair da pobreza.

José Vieira Mendes

Após se terem afirmado no panorama do cinema mundial, em Cannes 2011, com 'Drive', a dupla Gosling/Winding Refn, regressou à competição com 'Only God Forgives', um thriller de gangsters, com contornos edipianos. Winding Refn, retoma o mundo obscuro da sua trilogia 'Pusher', enfatiza o formalismo de 'Drive', e constroi desta vez a ação nas ruas sombrias e estreitas de Bangcoque, em vez das largas avenidas e parques de estacionamento de Los Angeles. O argumento feito quase de silêncios e poucos diálogos, é muito simples: dois irmãos americanos, Julian (Ryan Gosling) e Billy (Tom Burke) administram uma academia de boxe em Bangcoque, como cobertura para uma rede internacional de tráfico de droga, liderada por uma toda-poderosa mãe (Kristin Scott Thomas). Numa noite de 'descida aos infernos', Billy assassina uma prostituta e acaba massacrado até à morte pela polícia e pelo pai da rapariga. A poderosa mãe-galinha, viaja até à Tailândia para forçar Julian a vingar o seu irmão. O mínimo para contar a história desta história de 'Only God Forgives', que não é um filme de policias e ladrões ou mesmo de bons e maus, já que todos os personagens são horrendos e sinistros. O filme tem que ser visto antes pela forma como joga com a rivalidade entre irmãos e a lógica do filho favorito de uma 'mãe castradora'. Isto é em mais uma das muitas variações das histórias biblicas edipianas do Antigo Testamento (algumas bastante violentas até), ao estilo de um techo noir oriental, do século XXI, com muitas sombras, luzes vermelhas, néons e a música dos Daft Punk. Neste sentido também 'Grigris', do tchadiano Mahamat-Saleh Haroun, pode ser considerado um filme policial, até pelos contornos das histórias, embora o filme africano se passe na capital do Chade: N'Djamena. Grigis (Souleymane Deme), um musculado e encantador jovem de 25 anos, com uma perna paralizada, não se deixa desmotivar pelas suas incapacidades e sonha ser bailarino. Na verdade dança e ensaia as suas coreografias como um profissional. Este desafio pessoal é quebrado quando seu padrasto, que o criou como um filho, fica gravemente doente e Grigris se apaixona por Mimi (Anais Monory), uma linda prostituta. Grigris para salvar o tio e conquistar Mimi, decide trabalhar para os traficantes de gasolina. 'Grigis' é um filme exótico, mas tem curiosamente uma lógica do thriller e do film noir, pela agitação e surpresa que cria ao espectador. Mas tem sobretudo a ingenuidade e a frescura do cinema africano, de Mahamat-Saleh Haroun, que tem sido a sua grande montra nos festivais internacionais.