Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

DJANGO: À Prova de Bala, à Prova de Tudo

Cinema

  • 333

Tarantino fez um western extraordinário, cheio de sentido de humor e violência, e, como sempre, baralhou tudo. Os cavalos têm nomes, os membros do Ku Klux Klan reclamam porque os buracos nas carapuças não coincidem com os olhos e há uma bela donzela,  negra germanófona, guardada pelo terrível dragão esclavagista, à espera de ser resgatada pelo poor lonesome cowboy

Se falar sobre um filme fosse um exercício policial, então o culpado era tão fácil de identificar com o mordomo dos maus livros de detectives. É que o western, Dajango, o Libertado (estreia-se no próxima quinta, dia 24) está cheio de impressões digitais de Tarantino. Façamos rapidamente a "check list". Há uma brincadeira de géneros cinematográficos, em que as convenções são subvertidas, reconstruídas, recicladas com clichés, muitos momentos musicais e private jokes relativas aos seus anteriores filmes? Confere. Trata-se de um Western, que começa no Texas e acaba no Mississipi, antes da guerra da Secessão; há cavalgadas, capas de cobrir do pó, saloons, sherifes e marshals, muito cowboy a cuspir tabaco, o próprio genérico tem letras à John Ford, e ouve-se música de Ennio Morricone. Mas por outro lado, o herói a cavalo é um negro (uma provocação genial), não há índios a serem exterminados, mas escravos a serem barbaramente dizimados, e ao lado de Morricone tanto pode escutar-se um rap como o Freedam, do Richie Havens, a célebre improvisação no Woodstock (mas noutra versão). Mas, voltando à lista: Há conversas engenhosamente banais, extravagantemente prolongadas, guinadas no argumento, pormenores bizarros, cenas de violência crua e dura, sadismo insidioso ? Sim. Há uma cena, quase redentora e catártica, de carnificina final, como em Kill Bill ou em à Prova de Morte ou nos Sacanas sem Lei? Certo. Então não restam dúvidas: o culpado é Quentin Tarantino, o mais insolente, hiperbólico e reciclador de géneros cinematográficos do mundo. É neste sentido que os seus se podem chamar "filmes- ornintorrinco": um mamífero ovíparo, com bico de pato e cauda de castor. Já brincou com um filme de artes marciais, já brandiu catanas japonesas, já se meteu com os nazis na segunda guerra mundial (com aquela ideia genial do pelotão de americanos que vai para França tirar escalpes a nazis, como dantes os índios lhes faziam a eles, os cara-pálidas), já jogou com os estereótipos dos filmes de gangsters, e com todo a iconografia e o imaginário das fitas série B. Agora agarra no western, e todos os códigos de género, e desorganiza-os à sua maneira: os cavalos também passam a ter nomes, os membros do ku-klux-klan reclamam por os buracos da carapuça branca não coincidirem com os seus olhos (numa cena anacrónica, os KKK só apareceram depois da guerra civil, mas tão divertida, tão absurda que parece um sketch dos Monty Phyton), e os fora da lei mais repugnantes estão dentro da lei, os penteadinhos, de laçarote ao pescoço, donos das fazendas sulistas, e suas plantações de algodão (ou será o mesmo que dizer, campos de concentração de escravos?).    

E os cavalos brancos, e o algodão serão manchados de sangue. Abundantemente. Tal como em Kill Bill, se tinge de vermelho a neve, depois da famosa cena em que o topo do crânio de Lucy Liu é decepado. E é aqui que a transgressão de Quentim Tarantino começa a pisar terreno minado. Ele usa o western para fazer o que geralmente os westerns não fazem: denunciar as atrocidades que se cometiam nas fazendas da América profunda contra os escravos. E falar de escravidão, num país como os EUA  (e mesmo o Brasil) é remexer numa ferida ainda mal cicatrizada. A escravatura foi abolida na segunda metade do séculos XIX ( facto recentíssimo se comparado com Portugal, em 1761, na metrópole), mas os danos colaterais do racismo prolongaram-se até à segunda metade do século XX, com apartheids, racismo e humilhação. E aquela velha e célebre frase estará sempre em vigor, passem os séculos, passem as leis, passe um presidente negro pela casa branca: "Podemos esquecer o que nos fizeram; jamais esquecemos como nos fizeram sentir".

V de Vingança

Há um caçador de prémios (Christoph Waltz, oscarizado por Sacanas sem lei, e nomeado este ano, outra vez), que conduz uma carroça de dentista (com um dente gigante, cuja mola range, no topo) e tem um sotaque (pois, o actor é austríaco, foi "descoberto" por Tarantino e ele incorpora e joga com a nacionalidade dele na história). Ele mata numa piscadela de olho, sempre naquele jeito amaneirado e gentil que Waltz domina tão bem, sem escrúpulos nem remorsos. As expectativas são goradas, e as personagens podem desaparecer num ápice, inesperadamente, que é uma das características com que Tarantino, esse manipulador, consegue sempre surpreender, e provocar o sobressalto. Ele dispara mais depressa que a sua própria sombra, claro, mas enquanto isso a américa dispara sobre a sua própria sombra. E do buraco da bala, pode fazer sangrar. Não é fácil pôr o dedo na ferida, quanto mais mortificá-la ainda mais com um balázio. Os fantasmas, pelos vistos, também se abatem. O escravo que o caçador de prémios resgata (Jammie Foxx), por mera conveniência de serviço, revela-se um atirador nato, entra nas jogadas e nas emboscadas do expediente, e o outro ensina-o a não ter compaixão nem rodeios. E aos poucos vai-se configurando uma vigança, porque é sempre assim que o arco da narrativa dos filmes de Tarratino se compõem, em "V" de vigança, é sempre ela que faz mover as personagens, que faz avançar o guião. Uma Thurman seguia uma lista de abates (Kill Bill), as raparigas dos carros seguem o psicopata até à sangrenta execução final (À Prova de Bala), e todos os personagens de Sacanas sem Lei estão mobilizados para "aviar" nazis, sobretudo naquela apoteótica cena final, naquele extraordinário wishfull thinking de toda a humanidade: que todo o 3º Reich (Hitler, Goebbels, Goering e Bormann, incluídos) se desfizesse em cinzas, num cinema em chamas. E que os nazis fugitivos estivessem marcados para sempre com a cruz suástica na testa. Em Django são os negros que têm as cortas sulcadas pelas feridas do chicote. E a Django e a mulher marcaram-nos como ao gado, com ferro em brasa, um "F" de fugitivo, nas faces. Mas também aqui, a humanidade tem contas a ajustar, e sentimos a mesma satisfação, de vigança cumprida, quando vemos o tal cinema a explodir do que quando vemos também a sinistra casa sulista, com as suas habituais colunas, a ir pelos ares.

Tarantino foi muito criticado por este filme, também pela comunidade negra, que não gostou de ver ali, da forma crua e sádica (uma das especialidades de Tarantino), as torturas infligidas aos negros. Talvez incomode o facto de o personagem mais sinistro e repugnante ser o de um negro (Samuel L. Jackson, extraordinário), traidor de raça e de classe. Mais até do que o seu amo (Leonardo Di Caprio, fantástico), que organiza e aposta em lutas de escravos até à morte, e condena os negros fugitivos a serem tragados e esquartejados por cães, como se de mais um divertimento se tratasse. Tarantino fala, no fundo, de um "holocausto negro". E garante que ainda falta falar no "holocausto índio".

Uma única coisa destoa neste filme (e aproxima-o talvez do Cães Danados), em relação à sua restante cinematografia. As mulheres aqui são totalmente descartáveis. Há uma mulher negra que fala alemão e espera passivamente que a resgatem. E uma outra, irmã do dono da plantação, que é literalmente varrida para fora de cena. Tarantino "him-self" comparece, no papel de traficante de escravos, mas, desta vez, passou o habitual fetiche dos pés.