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Respostas sem pergunta

Cinéfilo

Encontrar antepassados de figuras públicas portuguesas? Facílimo. Perceber que perguntas faziam? Mistério total.

Pedro Homero

A correspondência entre leitores e revistas é um tema que me enche de assombro, perplexidade e alegrias inesperadas. Todas estas sensações são amplificadas pela distância temporal ao folhear as páginas da Cinéfilo. Senão vejamos:

O primeiro número da revista, datado de 2 de Junho de 1928, já tinha uma secção de correspondência. Que revista é esta, pergunto, que clarividência têm os seus futuros leitores, clamo, se antes de existir a dita já tem perguntas para aclarar? Que dúvidas poderão ter pessoas que sabem que uma revista que não existe vai existir?  É que sabendo isto, como é que não se sabe a morada da famosa actriz Esther Ralston, ou quais os países onde foi rodado o Miguel Strogoff? É de ficar assombrado.

A correspondência na Cinéfilo é, aliás, e ao contrário de, sei cá, uma Premiere, uma Automotor, uma Maria, um exercício incompleto. Porquê? Porque só temos acesso às respostas, não às perguntas. Em cada número temos um rol de respostas a perguntas que ninguém sabe quais são.

Veja-se esta, de um tal O homem que nunca ri: 'Aproveitaremos oportunamente. Agradecemos'. Aproveitarão... o quê? Que há para agradecer?

Ou esta, de Adelino Rosa: 'Os seus desejos serão oportunamente satisfeitos.' Mas isto é o quê, uma ida à bruxa? O avô do professor Karamba a exercer o seu metier em revista alheia?

Só mais esta, a resposta à 3ª pergunta de José Manuel A. da Silva: 'Foi, sim senhor'. Foi... o quê? Quem, onde, quando, como? Que raio de jornalismo é este?

É uma espécie, percebo agora, de confidencialidade ao contrário: digo quem és, respondo-te em praça pública mas oculto o que me perguntas. Ganham os demais leitores, inadvertidamente, um exercício interessante, isto de adivinhar a questão, e certamente terá dado jeito a quem tinha horas para matar, mas é de encher uma pessoa de perplexidade.

Por fim, páginas e mais páginas de respostas crípticas a perguntas enigmáticas não deixam, ainda assim, de proporcionar momentos de regozijo: temos, por exemplo, questões sobre cenas cortadas, insultos a leitores mal-intencionados (ou simplesmente lentos de compreensão), piadas de grande calibre e a resposta definitiva à grande polémica cinematográfica do ano: quem é o dono do Rin-tin-tin?

Disse ainda agora 'por fim'? Precipitei-me, pois falta referir um achado curioso: vemos, no sexto, sétimo e décimo terceiro número da revista, respostas a um tal de Joseph Markl que, segundo parece, será bisavô do Nuno homónimo, e da respectiva irmã. Portanto, e - agora sim - concluindo: encontrar antepassados de figuras públicas portuguesas, facílimo. Perceber que perguntas é que faziam, mistério total.