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AS LINHAS DO BRANCO

Cinema

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As Linhas de Wellington, de Valeria Sarmiento

A alma de Raul Ruiz, pairou no Lido, com 'Linhas de Wellington', uma excelente coprodução internacional, que o produtor português Paulo Branco carregou aos ombros para se realizar e que sem ser uma obra-prima vai ter uma importância decisiva no futuro do cinema português. O realizador coreano Kim Ki-duk regressou com 'Pieta', um excelente filme-escândalo, mas até agora um dos melhores do certame. 

José Vieira Mendes

Depois do grande sucesso de 'Mistérios de Lisboa', o produtor Paulo Branco, o argumentista Carlos Saboga e o realizador chileno com uma grande alma portuguesa, Raul Ruiz, (embora já debilitado em Paris), preparavam com o entusiasmo, um grande filme histórico sobre as Invasões Francesas a Portugal, em 1810. Mas a morte a de Ruiz surgiu inesperada, mau grado a doença do realizador. Depois de alguns meses de natural hesitação, Paulo Branco, não quiz deixar cair o projecto e pegou-o em ombros, tornando-o um dos projectos mais internacionais do cinema portugues dos últimos anos, contra todas as crises do sector e no país. Desafiou Valeria Sarmiento, a mulher e habital montadora dos filmes de Ruiz, para completar este épico de duas horas e meia (que vai ter tal como 'Mistérios de Lisboa', uma versão mais longa para televisão), intitulado 'Linhas de Wellington'. E na verdade 'Linhas de Wellington', é visivelmente um projecto de equipa puxado por Branco, muito bem escrito por Saboga, subtil e competentemente dirigido por Sarmiento, e sempre com a alma de Ruiz a pairar em tudo: desde a rodagem à construção de algumas cenas já escritas, como foi dito por todos na conferência de imprensa. O elenco internacional é de uma preciosa raridade: John Malkovich, Marisa Paredes, Michel Piccoli, Catherine Deneuve, Melville Poupaud, Mathieu Amalric, Isabelle Huppert; e são muitos os portugueses com destaque para os protagonistas, Nuno Lopes, Soraia Chaves, Marcelo Urghege, Carloto Cotta e muitos outros, que acabaram também por fazer uma homenagem a Raul Ruiz. A história de grande interesse cultural para todo tipo de espectadores (isto é um verdadeiro serviço público de cinema) centra-se na retirada do exército e da população para as linhas de fortificação de Torres Vedras, que fez juz a 'estratégia da terra queimada', a fim de enfraquecer o exército francês tirando-lhe a possibilidades de conseguir abastecimento local. Essa ação até então única na história militar, acabou por mexer com o destino dos civis (homens, mulheres e crianças), que com fome e sem casa, acompanharam e ajudaram como puderam o exército anglo-português. Esta igualmente a justificação para a presença das mulheres (e das actrizes) num filme de guerra como as 'Linhas de Wellington'. Um filme que inteligentemente é um excelente mosaico, focado nos efeitos devastadores da guerra na vida dos soldados, famílias e vítimas, sem representação sangrenta das várias batalhas travadas com as tropas napoleónicas, durante as Invasões Francesas, que naturalmente exigiria um orçamento de grande produção histórica. Kim Ki-duk, um dos grandes autores da 'primavera do cinema coreano' regressou à ficção com 'Pietá', depois de uma pausa de três anos, após um acidente no set que quase matou uma das suas actrizes e depois seguido de um período catártico, composto por dois filmes meio-documentais-pessoais-meditativos: 'Arirang' e 'Amen'. Neste seu 18º filme como realizador, aliás com é referido no genérico inicial (estreou-se em 1996), Kim Ki-duk continua no seu intenso percurso artístico muito pouco convencional. Um homem. Vive e trabalha em Cheonggyecheon, uma área pobre de Seul, onde usando e abusando da violência, reclama pagamentos a devedores. O homem, cresceu sem família, vive uma vida de solidão e vazio desprovida de qualquer compaixão para com os outros. Um dia, aparece à sua porta uma mulher de meia-idade que diz ser sua mãe. Prostrado e penitente, o homem parece mudar comletamente o seu comprtamento, por causa desta mulher. 'Pieta', é um verdadeiro filme-escândalo, cheio de crueldade e de uma vingança inesperada, mas no fundo  é um regresso de Kim Ki-duk às suas velhas questões que têm assombrado o seu percurso  e a sua filmografia fundamental como:  espiritualidade, religião e sexualidade. Diga-se em abono da verdade um dos melhores filmes desta competição algo desapaixonada até ao momento.