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Anna Kerenina: Choque 'Anna'filáctico

Cinema

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Mais uma adaptação do clássico russo. Esta sofre do síndrome-souflé

É muito curiosa a atracção que Anna Karenina, um dos célebres clássicos de Leon Tólstoi, exerce sobre os cineastas americanos: uma vintena de adaptações, entre filmes e séries televisivas. Greta Garbo interpretou-a duas vezes, uma num filme mudo, a outra em 1935; Viven Leigh em 1948; Sophie Marceau em 1997... E agora a sempre angulosa e algo alienígena Keira Knightley, na sua terceira colaboração com este realizador (Orgulho e Preconceito, Expiação), que se mostra absolutamente obcecado com a imagem, tanto que o filme não só enche, não só avoluma: o filme sufoca, como um choque anafilático de picada de abelha. De tanto cuidado com os figurinos, com o roçagar dos vestidos, com os bailes, com os estereótipos visuais (competentemente cumpridos), com a coreografia da cena, o filme vai ao forno, mas sofre do síndroma-souflé, mas já lá vamos... É curioso, também, como a Madame Bovary, de Flaubert, o protótipo do romance realista, que introduziu o tema mulher adúltera na literatura da época, não tenha tido metade das adaptações (Manoel de Oliveira fez a sua variante em Vale Abrãao, com Leonor Silveira). Isto apesar da proximidade de culturas - ou então, talvez justamente por isso. A sociedade da Rússia czarista da segunda metade do século XIX, todo aquele ambiente de altíssima aristocracia, de príncipes e princesas ("os ricos farão tudo pelos pobres, menos saltar das suas costas", nas próprias palavras de Tolstói), a ostentação, o luxo, as estepes geladas, e os mujiques que também faziam parte da paisagem, terão muito mais potencial cinematográfico do que a tristonha e entediada Emma, que acumulava a sua queda em desgraça social com imensas e prosaicas dificuldades financeiras. Bom, e a cena do comboio, princípio e fim da história, é muitíssimo iconográfica. O expediente de Wright começa por ser interessante, porque parte do pressuposto de que toda a gente está cansada de saber a história e anuncia-a visualmente como o artificialismo de peça de teatro, em que no palco estão os protagonistas, e os restantes circulam pelos bastidores, cheios de pó e de roldanas. No fundo, esta é a melhor metáfora da sociedade russa da época: a invisibilidade do pessoal menor. Também seria interessante se o expediente teatral, com a assumida existência da quarta parede, servisse para colocar os acontecimentos em destaque e depois os intricados pensamentos das personagens nesses submundos do fora de cena. Mas depressa, estas sugestões cénicas se perdem, em algo que é tão histriónico, cheio de efeitos e planos sequência, como um musical. E tão exibicionista como um anúncio de perfumes.     

Anna Karenina

De Joe Wright. Anna Karenina, com Keira Knightley, Jude Law, Emily Watson, Aaron Johnson, Kelly Macdonald, Matthew Macfadyen. Drama. 130 min.  EUA. 2012