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A outra que era ele

Cinema

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Como um argumento que podia ser Almodóvar se "transveste" nas mãos de um canadiano de 23 anos





A história resume-se basicamente assim: um heterossexual trintão, professor de literatura, com uma relação amorosa estável, decide mudar de sexo. O que, como se compreende, perturba um bocado o seu relacionamento com a namorada.  Mas estamos nos anos 90, no Canadá, e o realizador com pouco mais de 20 anos usa-se de um estilo supostamente arty que pode despenhar-se com toda a facilidade - o que, aliás, acontece. O professor diz que se sentiu debaixo de água a vida toda, e precisa de respirar, mas quem está inundado é o filme, cheio de parafernália kitsh de época (imensos vestidos, joias e perucas), mas enquanto, por exemplo, Almodóvar consegue transmitir um encanto muito especial ao piroso (nos anos noventa chamava-se assim), e à música melodramática, que se encontra naquele equilíbrio instável do pimba (nos anos 90 também se chamava assim), Xavier Dolan apenas consegue emprestar um registo empanturrado, e o excessivo nem sempre tem de ser uma acumulação, em bochechas de hamsters, sedimentos a seguir depositados em torvelinhos de ideias, músicas, câmaras lentas, efeitos visuais (às vezes repetidos), personagens escusadas... Dizer que há alguma imaturidade no filme é demasiado axiomático, sabemos à partida que o realizador tem pouca idade. Mas faz-nos lembrar, de facto, aqueles jovens escritores deslumbrados que, não se conseguindo decidir por um adjetivo, colocam todos. Nolan não vai tanto pela questão da descriminação ou da humilhação. Também - convenhamos - estamos no Canadá dos anos 90, e uma das mais bem conseguidas cenas do filme é aquela em que o protagonista vai dar aulas, pela primeira vez, vestido de mulher e uma aluna levanta o braço e coloca-lhe casualmente uma pergunta sobre a matéria. A tese que o filme pretende seguir é a de que não há impedimentos ao amor destes dois, venham perucas, cirurgias ou pestanas postiças. De resto, tudo parece demasiado saturado, é claro que o potencial dramático é muito cinematográfico - admitem-se as complicações sérias ao casal- mas falta-lhe humor, empatia com as personagens, e a ausência da noção do timing é fatal: ser excessivo também não é acumular minutos - neste caso, quase três horas.

Laurence Para Sempre

De Xavier Dolan. Laurence Anyways, com Melvil Poupaud, Monia Chokri, Nathalie Bave, susan Almgren, Suzanne Clément, Yves Jacques. Drama. 168 min. Canadá. 2012