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A Criar uma Filha Para Isto

Cinema

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eu não sou a tua princesa

A filha da fotógrafa Irina Ionesco serviu-lhe de modelo erótico com apenas quatro anos. Agora ela volta as câmaras de filmar para (ou contra?) a mãe - a sua suave vingança...



Diz-se acima "suave" porque no filme Eu Não Sou a Tua Princesa (estreia-se hoje dia 8) não há bem um ajuste de contas, uma vendetta familiar, uma desforra ou "um quem ri melhor, ri por último". É bastante mais complexo, e subtil. Existe, nas palavras da realizadora Eva Ionesco, uma ferida por cicatrizar, mas um filme não tem assim tantas capacidade anestésicas nem de suturar ferimentos antigos. Pode ajudar a exorcizar fantasmas, sublimar emoções, mas isso nem Freud precisou de explicar, já os velhos gregos sabiam. Portanto há nesta primeira longa semi-autobiográfica uma velha arca que se abre, e saltam cá para fora não roupa suja, mas traças, poeiras, trapos velhos esfiapados, muita bijuterias e o fantasma da mãe -a famosa fotógrafa parisiense de origem romena, Irina Ionesco, que nos anos 70 e 80 viu os seus trabalhos expostos nas galerias mais prestigiadas e nas revistas mais sofisticadas. Umas das suas (literalmente) imagens de marca são mulheres em poses sedutoras, às vezes com mais olhos que barriga, outras com mais barriga. Despidas ou não, mas sempre rodeadas de uma estética de bordel vitoriano, num ambiente fetichista, muito composto, cheio de lingerie, rendas, quinquilharia, flores, pérolas, folhos e tiaras... A polémica instalou-se quando as fotos que mais destaque lhe concederam eram as da própria filha, uma menina de apenas quatro anos, de cabelo louro armado, olhos e unhas pintados, despudoradamente desnudada. Se nesses tempos, ainda havia alguma margem para tolerar aquelas fotos, considerando-as subversivas, enfrentadoras de tabus e puritanismos, como um apelo à transgressão; nestes que se vivem, agora, nem se questiona a legitimidade de colocar frente às lentes uma menina que possa provocar olhares lascivos. Nem que seja em nome da... arte.

Talvez por isto, e porque os tempos mudaram, e as mentes evoluíram, os direitos das crianças consolidaram-se.... Certo é que a realizadora ao reproduzir a sua experiência não quis repetir a mesma "violação". Daí, ter-nos poupado à parte da sua infância mais precoce, já feita Lolita impúbere aos quatro anos, mas inicia-a aos 10 anos com uma actriz da mesma idade, escolhida num casting entre 400 meninas, num processo que durou quatro meses. Na mesma lógica, ocultou de nós, espectadores, (teve esse bom gosto ou pudor),a nudez crua da criança, apenas a coloca maquilhada, entre plumas e com meias de ligas, o que, para ferir qualquer sensibilidade, não é nada pouco: "Quando chegou a minha vez, não podia explorar uma menina em saltos de agulha e ligas, de pernas abertas. Seria demasiado violento. Esse era o meu limite. Estabeleci a distância da minha ferida pessoal", comentou a realizadora, também atriz e fotógrafa.

O filme começa quando a menina é abruptamente resgatada à infância. Aquela mãe ausente chega, fascinante e vampírica, de noite ao apartamento onde ela vive com a avó romena. E leva-a para a noite, outra vez - primeiro para a obscuridade do seu estúdio, depois para o bas-fond também notívago de uma certa elite marginal. Acaba numa mansão exuberante, nos braços de uma estrela de rock patrocinadora, meio híbrida e decadente. A miúda rebela-se, mas já foi longe demais, depois da lingerie, de tantas rendas e maquilhagem, de tantos tiques, artificialismos e acessórios,  dificilmente conseguirá voltar a envergar os bibes do recreio da escola.

O assunto é doloroso, demasiado íntimo. Eva escreveu o guião há mais de dez anos. Mas ainda assim a história autonomiza-se da biografia pessoal. Toda as situações se posicionam numa lógica de projeções, como as imagens de uma fotografia. A avó romena projeta a sua inquietação pela filha extravagante e pela neta desviada da sua própria infância nos ícones religiosos a quem roga as preces. Por sua vez, a miúda deixa-se projetar na imagem que a mãe quer fazer dela naquela máquina fotográfica. Aliás, um dos momentos mais duros do filme é quando, perante o sorriso instintivo da menina "apontada" pela máquina, é repreendida pela mãe. Não quer que ela se ria como uma miúda normal. E instiga-a: "Tens de ser mais desinibida".

A mãe, essa, (a fria e desconcertante Isabelle Huppert) projeta-se naquela filha, na sua frescura e beleza, que ela já não tem e jamais voltará a ter. E talvez a própria realizadora projete a sua verdadeira mãe neste misto de imagens, algumas reconhecidamente cinematográficas, de femme fatale dos filmes noir dos anos 50, com suas vestes compridas, mangas largas e golas com penugens, sempre muitas penugens...  E é nesta ambiguidade que o filme se torna mais do que um acerto de contas. Apesar de a mãe a ter levado para o lado lunar, ela não é uma figura sombria. Oportunista, narcísica, inconsciente, sim, mas menos do que um monstro. Uma mãe que atrai e repele ao mesmo tempo, sobretudo imatura, alheada dos assuntos terrenos, a quem nem lhe ocorre que é suposto dar o almoço à filha.