Sem Querer, de João Fazenda, recebeu o prémio para o melhor filme português do 35.º Cinanima, em Espinho. Uma surpresa num festival dominado por filmes de Leste, mas com muitos prémios para a América do Norte

"Bem-vindos ao festival de Bratislava de 1977", disse-nos, com sarcasmo, um conhecido ilustrador português na cafetaria do Pavilhão Multimeios de Espinho, onde decorreu o Cinanima. E é verdade que o festival parece que se deixou congelar num tempo antigo, para o melhor e para o pior, e muitas são as vozes que apelam à renovação. Mas o Cinanima é mesmo assim, um dos mais importantes festivais de cinema de animação do mundo, com os vícios e as virtudes que só a idade traz. O diretor, o senhor Gaio, como lhe chamam, faz discursos emocionados, que dão ao festival um cunho familiar, numa cerimónia de encerramento embaraçosa onde quase tudo falha, mesmo o que não falhou. Mais grave, queixam-se os realizadores, é a qualidade da projeção: Sem Querer, de João Fazenda, passou com a imagem distorcida e ainda assim ganhou um prémio, sabe-se lá onde chegaria se a imagem tivesse passado nas devidas condições. Mas o Cinanima é uma Instituição e também uma prova de resistência. E, também aqui, resistir é vencer e é bom que a animação continue a ter uma capital em tempos em que a crise sufoca a cultura.
Para o ano decorrerá a 36.ª edição do Cinanima, aconteça o que acontecer, a garantia foi dada não só por António Gaio, como também pela vereadora da Cultura da Câmara de Espinho. Nos próximos anos não saberemos o que será feito da Competição Nacional. Sendo o cinema de animação uma forma particularmente dependente de apoios, a queda dos subsídios poderá ser uma fatalidade, quebrando todo o trabalho de afirmação nacional no estrangeiro, com obras de Abi Feijó, Pedro Serrazina, José Miguel Ribeiro, Regina Pessoa, Zepe, Nuno Beato, entre outros. O próprio João Fazenda, que fez três filmes em dois anos, admite uma pausa forçada: "Quero pensar melhor no próximo passo e isto não está bom para apoios". Zepe, que prepara a sua primeira longa-metragem, refugiou-se no apoio do Brasil. E Filipe Abranches, já premiado no Cinanima, assegurou, para já, a manutenção do apoio do ICA ao projeto em curso. Em todos nota-se uma sensação de desconforto. Alex Gozblau, mais lutador e otimista, define a estratégia: "Temos de fazer as coisas primeiro e vender depois". Mas a desolação é a nota dominante.
Foi quase sem crer que João Fazenda ganhou o Prémio António Gaio, para o melhor filme português em Competição. Para muitos o troféu já estava atribuído à partida, a O Sapateiro, de Vasco Sá e David Doutel, aliás porque este era o único filme português nomeado para a Competição Internacional e que se destacava de todos os outros pelo seu trabalho plástico. Ficou-se pela menção honrosa, assim como Independência de espírito, de Marta Monteiro. A decisão do júri, composto por Carlos Nuno Lacerda Lopes, Joana Toste e Rui Cardoso, segundo apurou o JL , esteve longe de ser unânime. Os seus elementos tinham opiniões muito diferentes e acabaram por chegar a esta solução de compromisso.
João Fazenda, um dos mais talentosos e premiados ilustradores portugueses, é olhado pelo meio com a mesma desconfiança que um fadista aceita um intérprete vindo do rock. É certo que há um preconceito, mas também há um estilo, que se aproxima do cartoon e da banda desenhada (o argumento é de João Paulo Cotrim), que se distancia de outro tipo de cinema, que usa uma linguagem de animação mais ousada, como O Sapateiro, ou mesmo Independência de espírito, que opta pela força da uma narração íntima na construção do argumento. Mas este Sem Querer será facilmente o que mais agrada ao público em geral, quer pela simplicidade e eficácia do argumento, quer pelo traço característico de João Fazenda que, entre muitos outros trabalhos, é responsável pelas ilustrações das crónicas de Ricardo Araújo Pereira, na VISÃO, e pelos discos dos Deolinda. A Competição Nacional espelhou de resto a irregularidade da produção nacional, faltando grandes filmes e realizadores, depois de um ano em que concorreram Pedro Serrazina, com Olhos de Farol, e José Miguel Ribeiro, com Viagem a Cabo Verde. João Alves, com Bats in the Belfry, um filme caseiro, que talvez seja o melhor acabado, mas nem por isso o mais interessante. Quer Câmara Obscura, de Marta Maia, quer A Primeira Vez que Percebi para que Servia o Meu Rabo, de Bruno Silva. Aliás, os três filmes do Prémio jovem Cineasta, categoria maiores de 18 anos, ilustram os tempos que correm: o primeiro é falado em inglês, os outros são produzidos no estrangeiro (Austrália e França, respetivamente).
Num festival dominado pela cinematografia de Leste, em particular da Rússia, ironicamente os prémios principais foram para a América do Norte. O Grande Prémio foi para O Inquilino, de Jason Carpenter, um filme bem desenhado em traços experimentais e pistas desafiadoras. Mais original, As Cordas de Muybridge, uma homenagem do canadiano Koji Yamakura, entre a ficção e o documentário, a Eadweard Muybridge, um dos pioneiros do cinema ou da sua pré-história. O Canadá, de resto, esteve em destaque, com quatro outros filmes distinguidos. Para a Rússia foram três prémios e para a Polónia dois, mostrando que a tradição ainda é o que era nos países de Leste. Quanto às longas-metragens o júri decidiu, e bem, não atribuir qualquer prémio, pois nenhuma das obras tinha qualidade. O Cinanima ficou ainda marcado pela morte de Armando Coelho, um realizador e professor de animação, presença anualmente no festival.