Hoje são muitos os que pensam que a população residente em Portugal aumentou. Parte dessa perceção deve-se, talvez, ao facto de uma grande fatia da população portuguesa viver em zonas próximas do litoral, em áreas urbanas, em especial nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Com efeito, nestas duas áreas, que ocupam cerca de 4% da superfície do território, reside 40% da população, segundo os resultados preliminares do Recenseamento da População de 2011. Cinco décadas atrás, o panorama era bem diferente: em ambas as áreas metropolitanas, residia cerca de 26% da população de Portugal.  

Os traços de litoralização, de urbanização e de bipolarização do povoamento do território português mantém-se fortes. Portugal continua, portanto, a ser um país muito assimétrico, com a sua população a avançar a várias velocidades, de um lado sentida como "em excesso" e de um outro percebida como "em falta". O sentimento de sobrelotação demográfica diz, assim, respeito a zonas concretas do território, sendo reforçado pela explosão do parque habitacional. Com efeito, segundo os dados agora conhecidos, na última década o número de alojamentos aumentou 16% e o de edifícios 12,4%, um valor superior ao aumento do número de famílias, que se cifrou em 11,6%, e ao da população, inferior a 2%.

O resultado destas dinâmicas demográficas muito diferenciadas saldou-se num aumento ténue do número total de residentes em Portugal. Com efeito na última década, a população teve um acréscimo de cerca de 200 mil habitantes, menos de metade do aumento observado na década de 1990, conforme se pode concluir dos dados publicados na Pordata .

Note-se, porém que esse crescimento ligeiro da população teria sido ainda menor sem os movimentos migratórios. A quebra da natalidade e o prolongamento médio da vida dos indivíduos não só são responsáveis pelo progressivo envelhecimento da sociedade portuguesa mas também redundaram numa "externalização" do crescimento populacional. A diferença entre os que nascem e os que morrem é cada vez menor (tendo atingido valores negativos, pela primeira vez em 90 anos, em 2007, 2009 e 2010), pelo que a componente migratória desempenhou um papel decisivo sobre a variação populacional na última década: larga parte (91%) do aumento da população resultou do saldo migratório positivo.

Contudo, apesar do valor do saldo migratório ser positivo, como se esperava, este ficou abaixo do que seria expectável. A partir das estimativas anuais, divulgadas na Pordata, só nos anos de 2002, 2003, 2004 e 2005 o saldo migratório positivo terá atingido 219 mil, bastante superior, portanto, ao agora apurado - de 182 mil - para o total do decénio.

O que quer isto dizer? Que porventura desaproveitámos, mais cedo do que pensávamos, uma oportunidade importante de atrair e fixar a população em Portugal. Só mais tarde, com a publicação dos resultados definitivos do Recenseamento da População de 2011, estaremos em condições de aprofundar esta questão. Para já fica a dúvida e alguma preocupação caso, tal como tudo parece indiciar, Portugal tenha regressado à situação, que não acontecia desde 1993, de país predominantemente de emigração.

PS: Este trata-se do último artigo da série de dez que nos propusemos escrever sobre a realidade social portuguesa. Saúde, Educação, Emprego, Qualificações e População foram temas a que dedicámos particular atenção por, em nosso entender, encerrarem facetas particularmente críticas da atualidade do país.

Para saber mais sobre estes e outros temas da sociedade portuguesa nos últimos 50 anos, consulte Portugal: os Números , o livro dos autores publicado na coleção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos