Há um homem (Rui Morrison) que veste duas peles. Ou melhor: três. A de amante, a de marido e a ainda a sua "pele marinha" que é o fato de mergulhador. E esta terceira tem relevância nesta história de errâncias por terra e por mar, que começa e acaba num mergulho. E com ele vão também pelos abismos azuis as mágoas, os erros, os traumas e um tempo que já não é este. É um filme submergível e de desistência serena, o 30º de Fernando Lopes (Câmara Lenta, estreia-se hoje, dia 8) - talvez o melhor do realizador dos últimos anos, mas também o mais inquietante e esmagador. É um filme das profundezas, dos resíduos que ficam na alma e dos sedimentos depositado nos fundos. E que fala de perdas e de encontros. O primeiro foi com o cronista, argumentista, escritor Rui Cardoso Martins (prémio APE, pelo seu segundo romance, Deixem Passar o Homem Invisível e que, em breve, lançará o terceiro: Se Fosse Fácil Era Para os Outros).   

Visão: Como aconteceu este seu encontro com Fernando Lopes?

Rui Cardoso Martins. Coube-me transformar em linguagem cinematográfica esta espécie de tragédia íntima. Algumas cenas são baseadas no livro de Pedro Reis , outras inventei, tentando captar o espírito que o Fernando pretendia. Entre nós, gerou-se uma colagem geracional espontânea e em cinco minutos, estávamos a falar do mesmo.   

É verdade que mantém uma cassete VHS do Belarmino [1964] na estante da sua sala?

Apesar de não ter leitor de VHS (risos)... É a história de um pugilista português que explica o que é um homem a sério. É uma marialva pobre, que discorre sobre as mulheres com a convicção de boxeur, não muito distante do protagonista deste filme que é um marialva rico e culto. Que tem uma amante mas faz questão de acordar todas as manhãs com a mulher legítima.

Também há outro personagem masculino que está sempre a beber e a lamuriar-se pelo abandono da mulher, que usa uma linguagem arcaica e diz que "é importante preservar as novidades para que estas não caiam no esquecimento"...

É um bêbado, conheço muitos assim, de uma geração anterior à minha, repetem-se muito e falam com uma certa solenidade para dar alguma altivez à sua triste condição de homem que bebe... Sou alentejano, percebo muito bem esse tipo de existências de homens dados a excesso de álcool e sentimentalismo.

O tal marialva culto diz, a certa altura, "nenhum homem deve chorar por causa de uma mulher, a não ser pela mãe"...

Concordo que os homens não devem chorar...

Ah, é?

Não devem, mas talvez precisem. Penso que devem reservar o choro para problemas mais sérios.

Há uma cena do filme muito Madame Butterfly, que envolve uma cerimónia do chá, uma mulher vestida de gueixa que se suicida serenamente, enquanto o homem continua a brincar, sem perceber nada...

É uma cena terrível. É uma visão muito elegante da tragédia humana. Estou familiarizado com a erva que é a cicuta, que cresce nas margens dos ribeiros. Curiosamente não é um suicídio muito praticado no Alentejo, ali é mais enforcamento ou 605 Forte...

Nem sempre escrever guiões é gratificante para si?

Já me enfureci o suficiente como argumentista, não me vou enfurecer mais. O filme pertence ao realizador, faz parte do jogo. E neste caso estou bastante satisfeito. Deu-se a coincidência de eu praticar mergulho e de poder perceber uma morte no mar, por hipotermia e quebra de energias, daí a lentidão progressiva dos movimentos... Ser artista é um bocado isso, saber pegar na sua vida e transformá-la em arte. São esses que ficam, os que investigam "por fora" desaparecem... No fundo, estamos todos a falar sobre a mesma coisa... o amor, a morte, as mulheres... E também acredito no humor, o riso é o que existe de mais humano, as grandes obras de arte são tragicomédias. E às vezes escrevemos frases que só fazem sentido depois...

Já lhe aconteceu?

Sim, uma espécie de premonição. No primeiro livro escrevi "Os olhos são buracos de filtrar tragédias num fio de luz. Um dia as nossas". No segundo livro, falava sobre um cego. Mais tarde percebi a frase na minha própria vida.