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Urmia 2

Volta ao Mundo de Moto

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Hossein tem 21 anos e além do pai e da mãe vivem aqui um irmão de 8 anos, que não pára um segundo, e uma irmã de 18, que trabalha numa fábrica de bolachas. É uma família típica iraniana do que aqui se poderá considerar classe media

A forma de sofrerem por Iman Hossein é irem para algumas praças da cidade, reunirem-se em grupos e, ao som de música, tambores e um incentivador num altifalante, baterem com umas correntes nas próprias costas, ao ritmo da música ou dos tambores. Um espectáculo impressionante  

Quando vinha para Urmia no carro com este novo amigo Hossein e lhe perguntei se conhecia um Hotel onde eu pudesse ficar ele sugeriu que ficasse em sua casa, onde costumam alugar um quarto a viajantes. Aceitei e instalei-me aqui na pequena e modesta casa da família Sheakhloo.

O Hossein tem 21 anos e além do pai e da mãe vivem aqui um irmão de 8 anos, que não pára um segundo, e uma irmã de 18, que trabalha numa fábrica de bolachas. É uma família típica iraniana do que aqui se poderá considerar classe media. Está a ser uma experiencia única. Ao entrar em casa todos tiramos os sapatos, que ficam do lado de fora da casa.Tinha dito ao Hossein que pretendia comer qualquer coisa de maneira que, chegados a casa dos Sheakhloo a mãe rapidamente preparou uma refeição. Estendeu uma toalha no chão da sala, onde se servem sempre as refeições, e fritou umas salsichas que comemos acompanhadas de pão iraniano e iogurte, sentados no chão. Aliás não é só na sala que se sentam no chão. Muitas vezes a mãe está sentada no chão da cozinha, que tem apenas um balcão a separá-la da sala, a tratar da refeição e quando a chamam surge por detrás do balcão. 

No Irão não se vende nem bebe álcool pelo que o pai Shaekhloo se sentou ao meu lado depois de almoço e, no seu parco inglês, me fez um inquérito sobre em que sítios se vendia álcool em Portugal, se eu já tinha provado whisky e se o preferia ao Vodka. Tanto ele como o filho ficaram muito espantados quando lhes disse que os miúdos em Portugal saíam à noite com 16 anos e bebiam álcool.

Aqui as mulheres não podem sair à rua ou trabalhar com a cabeça destapada nem se misturam com homens em locais como Mesquitas ou festas. Quando fui hoje a um restaurante almoçar com o Hossein ao lado havia uma loja de roupas para mulheres com saias curtas nas montras. Fiquei espantado e perguntei ao meu amigo como era possível venderem aquelas roupas se nas ruas e escritórios estão todas com saias muito mais compridas. Nas festas, contou-me ele, mas só para as outras mulheres verem pois mesmo nas festas de casamento, as mulheres estão numa sala e os homens noutra.

- O quê? E então o que fazem nessas festas se nem sequer podem beber?

-  Falamos e dançamos?

- Dançam? Como?

- Homens com homens e mulheres com mulheres.Não há sexo antes do casamento porque as mulheres, se perderem a virgindade, já não podem casar. A excepção são as divorciadas, que podem voltar a casar. 

Aqui têm um calendário diferente assim como a mudança de hora em relação à Turquia que não é de uma hora nem duas mas de uma hora e meia.Quando cheguei ontem era o terceiro dia do mês de Mohrram no qual, os primeiros dez dias são dedicados ao Iman Hossein, que morreu pelo Islão. A forma de sofrerem por ele é irem para algumas praças da cidade, reunirem-se em grupos e, ao som de música, tambores e um incentivador num altifalante, baterem com umas correntes nas próprias costas, ao ritmo da música ou dos tambores. Um espectáculo impressionante.

Tanto o Hossein como o irmão têm as suas próprias correntes e embora desta vez só o mais novo tenha entrado na cena, foi a família toda assistir a este espectáculo que representa o entretenimento nocturno destes dez dias. Há quem poupe as costas, como obviamente os miúdos que estão ali a treinar para quando forem grandes, mas há os que batem com força.

Pelas onze da noite, já com as costas massacradas, os protagonistas vão para a Mesquita, onde é servido chá e uma espécie de bolas de berlim com creme mas sem açúcar. Acompanhei família masculina e amigos. Sapatos à porta e entramos numa pequena mesquita de bairro com construção de baixa qualidade mas fabulosos tapetes persas a cobrirem o chão. Sentamo-nos alguns no chão e outros em cadeiras junto às paredes. Fiquei perto de uma esquina e três lugares ao meu lado, na outra parede, está o guarda da mesquita, de metralhadora ao colo. Reparei que a metralhadora, por azar, estava apontada a mim pelo que mudei para o lugar ao lado, que estava livre.

Toda a gente que vai saindo despede-se do guarda e fico com a sensação que é mais por respeito à metralhadora que ao homem em si. Às tantas houve um telemóvel de um amigo do Hossein que tocou, mais que uma vez. À segunda um homem refilou com o rapaz, que resmungou qualquer coisa. O guarda olhou com ar critico e no fim ralhou com outro dos amigos de Hossein ao que este, zangado, atirou com a sua echarpe com força contra um dos tabuleiros do chá. Estive para lhe dizer que era melhor não se zangar com o homem da metralhadora mas achei mais sensato não me meter no assunto.

Hoje à noite vou de autocarro para Teerão, para visitar a cidade e tratar dos vistos para a Índia e Emirados enquanto espero pela chegada do Carnet da moto que me permitirá ir buscá-la à fronteira, onde ficou ontem, para poder seguir viagem.