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Udaipur

Volta ao Mundo de Moto

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Três dias sensacionais já na companhia da Honda, que tanta falta me estava a fazer.

Quando, no meio do segundo dia daquela burocracia infernal do desalfandegamento da moto, não via o caso resolver-se, um dos oficiais da alfandega olhou para o meu ar desanimado e disse:

- "em Roma, sê romano".

Ele de facto tinha razão. Perante aquela confusão de papéis, assinaturas e carimbos que pareciam não ter fim o melhor era mesmo relaxar e esperar que a coisa se fosse resolvendo. É esta a atitude dos indianos perante a adversidade. Tenho constatado isso também agora no transito caótico. Embora estejam sempre todos a furar na procura do mais pequeno espaço onde possam colocar o carro, moto ou triciclo, os indianos parecem nunca se enervar. Ontem fiquei parado numa auto estrada por duas vezes durante uma meia hora de cada vez. À minha volta eram quase só camiões. Todos desligaram os motores e para ali ficaram, como se nada se passasse ou como se fosse uma coisa tão comum que fazia parte da viagem. Uma das vezes foi por causa de uma das faixas, que atravessava uma ponte, estar cortada e da outra vez a causa foi um enterro de três pessoas cujo trajeto, a pé, passava por um dos viadutos da auto estrada. Quando passámos por eles, num desvio por baixo do viaduto mais à frente, num decampado, lá estavam os enormes montes de lenha para cremar os corpos, à antiga.

Parti de Vashi a caminho de New Delhi e de facto é um gozo fazer a viagem de moto. Principalmente nesta moto, que tem um motor fabuloso e uma excelente posição de condução.

No primeiro dia fui ficar a Surat, uma cidade sem graça mas que, como muitas na India, ocupa uma extensão três vezes maior que a maioria das capitais europeias e tem quatro milhões e meio de habitantes.

Quando saí do Hotel andei perdido na cidade durante quase uma hora e acabei por entrar em estradas secundárias de onde só consegui sair uma hora e meia depois. Andar em estradas secundárias na India é como circularmos pelo meio de uma feira mas com motos, carros e triciclos à mistura, a movimentarem-se em todas as direções e com vacas, cabras e cães pelo meio de um povo que parece nascer do chão, como formigas. Quando pensamos que já vimos de tudo ainda passamos por uma carroça puxada por um camelo ou outra rebocada por uma parelha de bois a galope. Só mesmo na India.

Quando entrei na auto estrada tinham passado três horas e não tinha percorrido cem quilómetros de maneira que, como não estava ali muito movimento, o piso era bom a não me parece que hajam por aqui limites de velocidade, decidi acelerar para ver se chegava à próxima cidade ainda de dia. Pus-me a 200 Km/h só que, não tinham passado mais de dois ou três quilómetros quando vejo uma vaca, das que para ali andam e que sabem que não vão ser comidas e por isso têm um passo confiante e calmo, a atravessar a auto estrada. Felizmente foi 100 metros à minha frente de maneira que nem cheguei a apanhar um susto mas foi o suficiente para ganhar juízo e voltar aos meus habituais 120, 130 Km/h.

No segundo dia fiquei em Ahmedabad, uma cidade industrial, com mais de cinco milhões de habitantes e em que o único ponto de interesse é o Ashram onde Gandhi estava baseado, uma espécie de comunidade onde ele lia, pensava e vivia com os seus conselheiros e amigos. Fui visitá-lo e quando aprofundamos o que foi a filosofia de vida de Gandhi mais constatamos a enorme influencia que ele teve sobre o comportamento de todo um povo, pacifista por natureza.

Hoje vim até Udaipur que é uma cidade muito mais pequena mas que tem um encanto extraordinário, pelo facto de ter quatro grandes lagos dentro da cidade num dos quais uma das ilhas é preenchida com o fabuloso Taj Lake Palace Hotel.

Da parte da tarde visitei o Jagdish Temple onde os visitantes locais ficam prostrados a adorar os seus deuses, e ao fim do dia, fui assistir a um espetáculo de danças no Bagore Ki Haveli.