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Teerão 4

Volta ao Mundo de Moto

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Novos e velhos não só percorrem as ruas com correntes a bater nas próprias costas, ao som de enormes tambores e com um pregador ao microfone de uma carrinha de caixa aberta que os segue a passo de tartaruga, como alguns rapazes se revezam para transportar sozinhos enormes estruturas metálicas

Ontem fui com a minha amiga Hasala assistir ao último dia das comemorações da morte do Iman Hossein, que deu a vida pelo Islão há 1400 anos.

Está um dia de sol lindo e a minha amiga conta-me, com uma certeza inabalável, que naquele dia, mesmo quando antes e depois estão tempos de tempestade, o sol brilha e não há nuvens no céu.

Aqui as semanas têm a mesma duração que as nossas, mas metade dos meses do ano têm 29 dias e a outra metade 30. Os meses começam em alturas diferentes (ontem foi dia 10 do mês de Moharam), enquanto os fins-de-semana são à nossa quinta e sexta feiras.

A passagem do ano, por exemplo, que a eles calha no início da Primavera, nunca é no mesmo dia do ano, pois os 12 meses somam apenas 354 dias.De manhã começámos por ir ver os desfiles no bairro dela, talvez os mais espectaculares aqui de Teerão. Novos e velhos não só percorrem as ruas com correntes a bater nas próprias costas, ao som de enormes tambores e com um pregador ao microfone de uma carrinha de caixa aberta que os segue a passo de tartaruga, como alguns rapazes se revezam para transportar sozinhos enormes estruturas metálicas, com estátuas de dragões e outras figuras, que se estendem pela largura das artérias do bairro. Conseguem dar poucos passos com aquele peso às costas e acreditam que só o podem fazer ajudados pela força sobrenatural que o Imã Hossein lhes transmite. Depois passam o fardo a outro candidato que enfia as correias nas costas onde apoia a armação.

Os mais velhos encorajam aqueles rapazes com apoio moral e beijos na cara. É um pouco a versão deles de ir a pé a Fátima, neste caso talvez mais próxima de dar a volta ao recinto de joelhos.

Numa grande praça com um jardim e lago no meio outro animador leva as pessoas a rezarem enquanto andam à volta do lago a bater com a mão no peito.As cenas espalham-se por várias ruas com grandes grupos, numa enorme algazarra de tambores e barulho de correntes a baterem nas costas dos dedicados fiéis, gerando a confusão no trânsito.

Passeámos de grupo em grupo e a Hasala até me perguntou se não me queria juntar ao sacrifício, reservado aos homens. Disse-lhe que estava melhor no papel de espectador e ficou um pouco desiludida.Da parte da tarde fomos assistir a uma espécie de teatro que decorre num enorme espaço em terra batida, do tamanho aproximado de um campo de futebol e onde recriam a cena em que, há 1400 anos, depois de terem sacrificado o Iman Hossein, mataram toda a sua família, incluindo mulheres e crianças, para tal arrastando os miúdos pelo chão e pegando fogo às tendas onde viviam.Esta cena começa com um homem a chorar aos altifalantes, enquanto conta a história do massacre, entusiasmando as pessoas para se juntarem a ele no choro.

Vi mulheres a soluçarem, comovidas com aquela recordação de há 14 séculos. A fase mais espectacular é quando os supostos malfeitores pegam fogo às tendas que quase explodem com o combustível que têm dentro. A cena acaba com as crianças, presas por correntes, algumas com ar assustado perante tanta confusão e outras verdadeiros artistas a fingirem ser pontapeados e arrastados por homens armados de enormes espadas.O teatro ao ar livre envolve camelos, o suposto cavalo de Hossein com manchas de sangue no dorso e homens que transportam lanças com réplicas de cabeças humanas espetadas na ponta.Um espectáculo único.