Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Na península de Halkidiki

Volta ao Mundo de Moto

  • 333

À noite, no restaurante onde jantava, três russos grandes e muito bêbados, com os seus trinta e tal anos, davam ares de serem donos da terra. No fim da refeição um deles virou-se para o homem do táxi que os tinha trazido, que jantava numa mesa à parte e disse: "You can go back to your town" ao que o Grego respondeu: "o.k. It's 700 euros

Ainda ontem, durante a volta à península de Halkidiki.

Monte Athos Ontem tinha chegado perto de Lerissos, a Oupavono, onde começa o Monte Athos, a sede dos Cristãos Ortodoxos, um Estado Independente que há séculos não permite a entrada de mulheres no seu território.



À noite, no restaurante onde jantava, três russos grandes e muito bêbados, com os seus trinta e tal anos, davam ares de serem donos da terra. No fim da refeição um deles virou-se para o homem do táxi que os tinha trazido, que jantava numa mesa à parte e disse: "You can go back to your town" ao que o Grego respondeu: "o.k. It's 700 euros". "No problem", respondeu o Russo, que sacou de um maço de notas do bolso e contou 700 euros que entregou ao feliz taxista. Saíram os três a cantar aos SSS pela rua fora. Já me tinham dito que, hoje em dia, milionários russos são os grandes financiadores do Monte Athos e que o Abramovich vem cá muito rezar.



Hoje, pelas oito e um quarto da manhã, estava no escritório que serve de alfandega para ver se conseguia o imprescindível visto para apanhar o barco de visita ao território e os seus vinte mosteiros onde vivem cerca de 2000 monges.

Tinham-me avisado que era tarefa difícil. "É preciso marcar com seis meses de antecedência", contou-me a dona da hospedaria onde tinha ficado na noite anterior. Pensei ser apenas inveja por não poder lá ir.



Cinco destes misteriosos monges estavam por trás do balcão de atendimento. Num banco corrido visitantes com ar de "habitués", alguns com a imprescindível barba, batina e chapéu pretos, conversavam com o à vontade de quem tem a entrada garantida no "céu" que representa para eles aquele local.

Sentia-me como se fosse para um exame da quarta classe. Fiz o meu melhor ar de santo e estendi o passaporte, com a mão trémula, a um monge de barba e bigode cuja cara parecia ter saído do frigorifico.



Olhou para o passaporte e levantou a cara para mim, como que a examinar-me. Se consegui ler os seus pensamentos eram:



-Nãã. Este tem mesmo cara de pecador. Aposto que até sai com mulheres.

Perante a sua demora em tomar uma decisão, o colega do lado perguntou-lhe qualquer coisa em Grego a que ele respondeu: portugalía. O outro disse mais qualquer coisa e senti que a decisão estava tomada.



"No. Impossible to visit today"



"And tomorrow?



"Tomorrow not possible".



Estive para lhe dizer que os meus avós eram russos ou que odiava mulheres mas não tive coragem.



Resignado, com ar cabisbaixo, fui-me embora perante a falta de coração daqueles cristãos.Peguei na "Cross Tourer" e fiz-me à estrada a caminho da fronteira com a Turquia. Cheguei à ultima cidade grega perto das cinco da tarde e, com o sol quase a pôr-se, com medo de não arranjar logo lugar onde ficar do outro lado da fronteira, decidi ficar por aqui e amanhã partir para Istambul, ultima etapa desta primeira fase da viagem.