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Damão

Volta ao Mundo de Moto

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Os transportes públicos aqui são uma desgraça. As coisas vão andando mas o desastre parece eminente

Na quarta feira de manhã ligou-me o homem da companhia de navegação a dizer que o desalfandegamento da moto demoraria mais dois ou três dias de maneira que decidi apanhar um comboio e ir até Damão, cerca de 170 Km a Norte de Mumbai (Bombaim).

Os transportes públicos aqui são uma desgraça. As coisas vão andando mas o desastre parece eminente.

Temos a sensação que desde que os ingleses se foram embora nada evoluiu. Muitos dos táxis que circulam em Mumbai, por exemplo, são daqueles Fiat 1100 que eram aqui fabricados. A maioria anda na praça há mais de quarenta anos de maneira que estão num estado lastimoso. O contador, não sei porque razão, está colocado do lado esquerdo de fora do táxi  pelo que o homem tem que fazer ginástica para ligar aquilo de cada vez que entra um cliente novo. A maioria destes táxis tem tablier, painéis de porta, bancos e tejadilho, tudo forrado num pano manhoso com um padrão de flores castanhas, certamente para disfarçar a sujidade. O chão não tem tapetes e muitas das vezes os podres já abriram buracos por onde se vê o alcatrão. O motor vai funcionando mas a suspensão não existe. O mais pequeno buraco transforma-se numa cratera lunar. Ficamos com a sensação que aquilo se vai desfazer em pedaços.

Os comboios não são melhores. Comprei um bilhete de 1ª classe e quando vi a carruagem não acreditei que fosse aquela de maneira que fui até à primeira da linha, uma viagem de mais de 200 metros, para me certificar que não havia nada melhor e lá tive que voltar para trás para não entrar em nenhuma com os bancos em chapa e dois andares de gente encafuada com grades nas janelas.

As classes mais baixas enchem até transbordar e em todas as carruagens as portas nunca são fechadas com pessoas a entrarem e saírem em movimento e muitas a viajarem penduradas do lado de fora.

O rio Ganga divide Damão em duas partes, com as fortalezas existentes de ambas as margens a serem a única memória portuguesa do local. Do lado direito a mais antiga e pequena. A entrada ainda tem as inscrições em português mas, como tudo na India, está muito mal tratada. Quando cheguei, um casal indiano que me pediu para lhes tirar uma fotografia perguntou-me a nacionalidade e quando lhes respondi o homem disse: "Ah, então este forte é seu". E de facto ainda nos sentimos ali um pouco em casa.

No pátio miúdos jogavam "criquet" num campo improvisado o que é muito pouco português mas um pequeno cemitério acolhe, com algumas campas recentes, pessoas que certamente ainda se consideram portuguesas e querem ali ser enterradas, pois quase todas tinham nomes portugueses.

A muralha da margem esquerda do rio é do sec XVIII e encerra o que seria a cidade de Damão na época, incluindo o Palácio do governador, agora ocupado pelo governador indiano e a igreja do Bom Jesus. A caixa das esmolas já tem um toque indiano ao mostrar uma inscrição, em inglês, a dizer coloque aqui dinheiro que receberá 20, 40 ou 60 vezes mais.

Numa das entradas da muralha uma pequena casa com uma laje a informar que ali viveu o poeta Bocaje.

Na sexta feira voltei a Mumbai no comboio da amanhã pois havia a possibilidade de se conseguir o desalfandegamento das motos, a minha, a do polaco maluco e a dos três suecos, todas transportadas no mesmo contentor.

Os táxis na província ainda são mais antigos que nas grandes cidades. Aqui são quase todos Ambassador, um carro também feito na India nos anos 50 e que era uma cópia de um carro inglês, creio que de um Hillman ou Austin. São destes carros altos e redondos, típicos da época. O que apanhei para percorrer os 12 Km que me separavam da estação dos comboios pensei, sinceramente, que não passaria do fundo da rua do Hotel. Por fora estava todo amolgado, não tinha maçaneta na porta por onde entrei, faltavam-lhe os farolins traseiros e a tampa da mala tinha as dobradiças substituídas por umas de um portão de ferro. A andar ouviam-se umas pancadas preocupantes, de apoios de tudo quanto há, desde motor a suspensões, passando por caixa de velocidades e diferencial a trabalharem sem qualquer vestígio de borracha. Pancadas secas que faziam temer o pior. A direção tinha uma folga que fazia o desgraçado do homem rodar o leme de um lado para o outro à volta completa de cada vez. O problema agravava-se porque ao curvar, o eixo traseiro demorava a acompanhar o movimento da carroçaria. Enfim, assustador. O que os salva é que não há outra hipótese senão circularem muito devagar com aquela espécie de veículos. Mesmo assim cheguei a tempo de apanhar o comboio.

Quando cheguei ao porto os suecos já estavam doentes de aturar o polaco mas mantinham a típica calma escandinava.

A alfandega do porto de Mumbai é um pesadelo de burocracia, com dezenas de empregados a arrastarem-se para colocarem carimbos e assinaturas num amontoado de papéis e, como era sexta feira, é evidente que o processo teve que ficar adiado para segunda.

Para voltar para Mumbai apanhámos, já com ar cabisbaixo, um autocarro regional, daqueles que se vêm nos filmes a cair de podre e carregado de povo. Tínhamos percorrido pouco mais de 10 Km quando um barulho ensurdecedor de uma peça da suspensão a bater na cava da roda fez o condutor parar para observar os estragos. Como já era de noite não conseguiu ver nada e voltou a arrancar até que, poucos quilómetros depois, "Pum", ouviu-se um estrondo, o autocarro apinhado descaiu para o lado direito e o homem encostou-o à berma com a suspensão partida e um assobiar de pressão de travões a perder-se na atmosfera.

Saiu a multidão lá de dentro e, sem saber o que fazer, o homem disse qualquer coisa e todos voltamos a entrar rapidamente no autocarro nós os quatro a limitarmo-nos a seguir os movimentos do povo, acreditando serem os mais sensatos. Passados cinco minutos, com a aproximação de outro autocarro, voltou a sair uma carrada deles que fez sinal ao condutor para abrandar e para lá saltaram uns quinze ou vinte, não sei bem como. Com o autocarro mais vazio e sem que o condutor soubesse o que fazer, decidiu-se por colocar o animal a trabalhar e lá fomos nós a arrastar o monstro durante 20 Km até à vila mais próxima. Lá chegados eram dez da noite e decidi procurar um Hotel por ali onde fiquei, despedindo-me dos suecos.