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Juízos morais e motivação: três ideias inconsistentes

Quando Teresa diz que o aborto é imoral, ela está a dizer "abaixo o aborto"? Quando Tiago declara ser vegetariano, ele está a defender que comer carne é moralmente errado, isto é, contrário ao dever? Terceira crónica, do novo blogue Terceiro Excluído: O Universo da Filosofia, da autoria de Pedro Galvão

Com bastante frequência, a filosofia acontece quando se percebe que várias ideias aparentemente óbvias, ou pelo menos muito plausíveis, afinal não podem ser todas verdadeiras. São inconsistentes. Pelo menos uma dessas ideias há-de ser falsa, portanto. Mas qual? Ou quais? Geralmente, não é fácil descobrir a resposta.

Examinemos um caso deste género, concentrando-nos em três ideias. Uma delas é sobre a natureza dos juízos morais, a segunda respeita à relação destes juízos com a motivação para agir e a última é acerca da própria motivação. Ei-las, por esta ordem:

(1) Os juízos morais exprimem crenças. O termo “crença” tem uma forte conotação religiosa. Despojando-o dessa conotação, entendamos por “crença” nada mais que o estado mental de acreditar (seja no que for). Por exemplo, se acredito que está a chover, tenho a crença de que está a chover. Consideremos agora alguns juízos morais. Dois muito simples bastarão: Teresa julga que o aborto é imoral; Tiago julga que devemos ser vegetarianos. Não será evidente que estas pessoas acreditam, respetivamente, que o aborto é imoral e que devemos ser vegetarianos?

(2) Os juízos morais são necessariamente motivantes. Se julgo que está a chover, isso, por si mesmo, não implica uma motivação para fazer seja o que for. Os juízos morais, por respeitarem à prática, afiguram-se distintos. Se Teresa julga sinceramente que o aborto é imoral, não poderá deixar de estar motivada para se opor ao aborto, o que envolverá uma aversão ao ato de abortar. Se Tiago julga mesmo que devemos ser vegetarianos, há-de estar motivado, pelo menos até certo ponto, para não comer carne. Num momento de fraqueza, talvez não resista a um arroz de cabidela, mas é de esperar que a opção lhe pese um pouco na consciência.

(3) As crenças, por si mesmas, não são motivantes. Ao acreditar que algo é verdade, representamos o mundo de uma certa maneira, bem ou mal. Só isso. E isso, por si mesmo, não gera nenhuma motivação. Para voltar ao exemplo bocejante: acredito que está a chover; acredito também que, para não me molhar, será necessário levar um guarda-chuva. Estas crenças são manifestamente insuficientes para a motivação. Só haverá motivação se um desejo entrar em cena. Por exemplo, o desejo de sair de casa e não me molhar. Deste desejo, combinado com as crenças indicadas, resultará uma motivação para levar o guarda-chuva.

Onde está a inconsistência entre estas três ideias? De quaisquer duas delas segue-se a negação da outra, como não será difícil perceber. Por isso, não podemos aceitar consistentemente as três.

Para começar, suponha-se que (1) os juízos morais exprimem crenças e (2) são necessariamente motivantes. Nesse caso, há crenças necessariamente motivantes. Ou seja, há crenças que não podem deixar de produzir uma certa motivação — o que contraria (3), que nos diz que nenhuma crença, por si mesma, tem um poder motivante.

Suponha-se agora que (1) os juízos morais exprimem crenças, mas que (3) estas, por si mesmas, não são motivantes. Nesse caso, os juízos morais, por si mesmos, não são motivantes — e assim não motivam necessariamente, o que contraria (2).

Falta um argumento, cujas sementes estão no pensamento de David Hume. Corre assim: visto que (2) os juízos morais são necessariamente motivantes e (3) as crenças, por si mesmas, não nos motivam para fazer o que quer que seja, na verdade os juízos morais não exprimem crenças. A ideia (1) é falsa.

E, no entanto, a ideia (1) é verdadeira — é o que penso. Afinal, se os juízos morais não exprimem crenças, exprimem o quê? Exprimem emoções, desejos, preferências — é o que nos dizem os filósofos não-cognitivistas, assim rotulados por considerarem que os juízos morais nada dizem que seja propriamente verdadeiro ou falso. Estes não passam de expressões de atitudes de aprovação ou de reprovação. Assim, quando Teresa diz que o aborto é imoral, aquilo que ela está a dizer deixa-se captar por frases como “Abaixo o aborto!” ou “Que ninguém aborte!”. E Tiago? Quando ele declara que devemos ser vegetarianos, parece estar a fazer uma afirmação. Parece estar a afirmar que os atos de comer carne têm a propriedade moral de serem errados, de serem contrários ao dever. Mas as aparências são enganadoras, afiança-nos o não-cognitivista. No fundo, no fundo, Tiago está a dizer algo como “Viva o vegetarianismo!” ou “Não comam animais!” — ou seja, não está a afirmar nada.

Apesar do que os não-cognitivistas têm escrito, continuo a acreditar que tenho crenças sobre o que é bom ou mau ocorrer, sobre o que é certo ou errado fazer, e creio também que exprimo essas crenças através de juízos morais. Não rejeito a ideia (1). Para não cair na inconsistência, portanto, tenho de rejeitar (2) ou (3). Dito de outro modo, tenho de repudiar pelo menos uma das premissas do argumento humiano. Não me repugna rejeitar ambas.

Comecemos por (3), a ideia de que as crenças, por si mesmas, não são motivantes. São variadíssimas as crenças que, de facto, não bastam para a motivação. Creio que 5+7=12, que a homeopatia não funciona, que o aquecimento global resulta pelo menos em grande medida de atividades humanas. Nenhuma destas crenças é suficiente para me motivar para fazer seja o que for. No entanto, o caso muda de figura quando viro a minha atenção para crenças com conteúdo valorativo. Creio que o sofrimento é intrinsecamente mau, que é errado enganar as pessoas, que não devo votar em políticos corruptos. Por que razão estas crenças não hão-de poder ser motivantes por si mesmas? Por que razão só poderão motivar quando atreladas a um certo desejo, que ditará o rumo da motivação? Por vezes, apesar dos nossos desejos, fazemos algo simplesmente porque acreditamos que temos o dever de o fazer. É o que parece. E as aparências são inocentes até prova em contrário.

O que dizer de (2)? Será mesmo verdade que os juízos morais são necessariamente motivantes? Para sugerir que não, apresento-vos o amoralista. Ele é alguém que tem posições morais bem definidas, que sabe articulá-las primorosamente, que até as defendeu, com argumentos originais e sofisticados, em artigos que viram a luz em algumas das melhores revistas de filosofia. No entanto, pasme-se, o amoralista é indiferente à moralidade. As suas opiniões morais nunca o impelem para fazer uma coisa em vez de outra. Por exemplo, ele julga que é errado comer carne, defende tenazmente esta convicção à mesa, enquanto convive com alguns amigos, mas isto ao mesmo tempo que saboreia um arroz de cabidela sem sentir a mais ténue compunção.

Será o amoralista uma possibilidade genuína? Creio que sim, pois não distingo a menor incongruência no retrato que acabei de delinear. Mas, se o amoralista é possível, então uma pessoa pode julgar que deve fazer algo e não ter a menor motivação para o fazer — o que significa que, afinal, os juízos morais não motivam necessariamente. Na verdade, suspeito que o amoralismo não é só possível. É real. Suspeito até que muitos de nós, pontualmente, somos amoralistas. Sempre que tenho de acordar demasiado cedo, assisto a esse fenómeno em mim mesmo.