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O que importa na sobrevivência?

Segunda crónica, do novo blogue Terceiro Excluído: O Universo da Filosofia, da autoria de Pedro Galvão

Diagnosticaram-nos uma doença medonha – vamos imaginar. Caso siga o seu curso, esta atuará de uma forma imperceptível, sem nos incapacitar nem fazer sofrer. Só que ao fim de cinco anos morreremos de repente. No entanto, dizem-nos, a doença é curável. Se quisermos, poderemos optar por um tratamento que nos livrará dela. A opção é urgente, note-se, dado que o tratamento só resultará se o iniciarmos nos próximos dias. Curados, várias décadas de vida futura – de vida futura feliz – ficarão à nossa espera. Preparamo-nos para dizer já que sim, que obviamente queremos ser tratados. Mas sugerem que pensemos melhor. É que o tratamento tem um efeito colateral um tanto perturbante: apagará irremediavelmente todas as nossas memórias, deixar-nos-á com uma personalidade radicalmente alterada. Passaremos a ter outro temperamento, outros gostos, outros planos, outras convicções. Os conteúdos da nossa mente, digamos assim, serão obliterados pelo tratamento. E agora? Nestas circunstâncias, o que será prudente fazer? Ou seja, que curso de ação será realmente do nosso interesse?

Este caso, A Cura, é um dos muitos exemplos imaginativos que o filósofo Jeff McMahan nos apresenta em The Ethics of Killing. Se o século XXI já nos legou uma verdadeira obra-prima da ética filosófica e me pedissem para identificá-la, apostaria neste livro. Nele McMahan empreende uma discussão magistral da natureza das pessoas humanas, do mal da morte e da moralidade de matar, aplicando depois os resultados dessa discussão às questões do aborto e da eutanásia.

E então, optar pelo tratamento seria o melhor para nós mesmos? Alguns dirão que não. Dirão que o tratamento na verdade não nos curaria – que este, bem pelo contrário, nos mataria. A pessoa que fruiria as décadas de vida futura feliz seria literalmente outra pessoa. Uma pessoa com o nosso cérebro, com o nosso corpo inteiro, vivo, mas ainda assim outra pessoa.

Esta é a resposta que nos dariam aqueles que, na esteira de Locke, concebem a nossa identidade ao longo do tempo como uma questão de continuidade mental, mais precisamente como uma questão de continuidade dos nossos conteúdos mentais. Para os neo-lockianos, por outras palavras, aquilo que faz de alguém a mesma pessoa ao longo de toda a sua existência é haver uma certa corrente de conteúdos mentais. Ora, como o tratamento faria cessar essa corrente, poria fim à nossa existência. Assim sendo, não seria boa ideia "tratarmo-nos".

E se não estivermos dispostos a seguir Locke? Há muitas outras maneiras de conceber a identidade pessoal, mas restrinjamos a nossa atenção a duas alternativas. Uma delas, conhecida por animalismo, pode parecer uma trivialidade: cada um nós é um determinado animal humano, pelo que a nossa existência ao longo do tempo se deve a nada mais que uma certa continuidade biológica. Continuaremos a existir enquanto o nosso corpo, constituindo ou sendo um organismo humano, continuar vivo – e no dia em que o nosso corpo morrer, passando de organismo a cadáver, também nós morreremos. Como poderia ser de outra forma, se nós somos esse organismo animal?

A outra alternativa está de certo modo entre as duas referidas. McMahan, que a defende, chama-lhe perspetiva da mente incorporada. Quem prefira designações sucintas e não desgoste demasiado de "ismos" poderá chamar-lhe mentismo. Segundo esta perspetiva, cada um de nós é uma certa mente, sendo a capacidade de gerar estados de consciência aquilo faz existir uma mente. Mas a nossa mente, longe de ser uma coisa imaterial, "desincorporada", está realizada nos tecidos do nosso cérebro. Assim, a existência de uma pessoa ao longo do tempo envolve essencialmente, por um lado, a continuidade física do seu cérebro, e, por outro, a continuidade funcional deste mesmo órgão, que estará assegurada enquanto a capacidade mental de gerar estados de consciência não se extinguir.

Voltemos à doença peculiar que nos atingiu. Valerá a pena curarmo-nos? Ou será melhor contentarmo-nos com os cinco anos de vida que nos separam do desfecho fatal? Tanto o animalista como o mentista dirão que o tratamento não nos matará. Pois o tratamento não fará cessar a vida que flui no nosso corpo, nem extinguirá, no nosso cérebro, a capacidade mental de gerar estados de consciência. Caso optemos pela cura, portanto, nós viveremos décadas de felicidade. Sobreviveremos. Não será isso muito melhor, para nós mesmos, do que viver apenas mais cinco anos?

Eu recusaria o tratamento. McMahan também. Suspeito que esta atitude será a mais comum – ou, pelo menos, que a grande maioria das pessoas vacilaria perante a oferta da cura, mesmo crendo, como eu creio, que a cura não seria uma escolha genuinamente suicida.

Mas recusaria o tratamento porquê, se este me faria sobreviver por um período muito mais longo? Porque não teria razões suficientemente fortes para desejar essa sobrevivência. Poderá parecer que "aquilo que importa na sobrevivência", para usar uma expressão comum nestas discussões, é simplesmente que nós mesmos continuemos a existir – e a existir felizes, claro. Poderá parecer, dito de outro modo, que a identidade pessoal é aquilo que importa na sobrevivência. Com A Cura, McMahan põe em questão esta ideia apelativa. Talvez a identidade pessoal nada importe. Ou seja, talvez aquilo que, no fundo, nos dá razões para existirmos num certo período futuro não seja o facto de sermos nós mesmos quem continuará a existir. Aquilo que mais importa na sobrevivência, e que talvez seja tudo o que importa, é que continue a existir alguém psicologicamente conectado connosco – alguém que tenha as nossas memórias, os nossos planos, os nossos traços de caráter ou, se quisermos resumir tudo isto e mais numa palavra, a nossa personalidade.

A esta luz, vê-se que o tratamento seria uma escolha terrível. Obliterando a nossa personalidade, seria tão mau como o suicídio. Antes viver apenas mais cinco anos, mas sem um abismo psicológico entre mim, agora, e eu mesmo ao longo desse período. Confesso não compreender quem julgue o contrário. A respeito da imortalidade, Leibniz disse que esta, se não incluísse a memória da existência terrena, nada teria de desejável. Tinha toda a razão.

Notas

A Cura está na pág. 77 de The Ethics of Killing.

A ideia de Leibniz sobre a imortalidade surge na Secção 34 do seu Discurso de Metafísica.

Para uma introdução ao tema da identidade pessoal, veja-se o meu artigo, curiosamente intitulado Identidade Pessoal.

Pedro Galvão

Pedro Galvão

Filósofo e professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde é membro do grupo de investigação LanCog (Language, Mind and Cognition). O seu ensino e investigação situam-se sobretudo na área da ética filosófica. Escreve literatura de fantasia.