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Camarões? Só no prato

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Manolo e Glória Olivera retomam o blogue Rituais de Passagem. Já na posse da sua Isuzu, mas ainda desesperados para conseguir sair dos Camarões e seguir viagem. Não está fácil...

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A vida nos Camarões é muito dura, sobretudo, para a população. O poder está firmemente nas mãos de Paul Biya, o presidente autoritário desde 1982, e líder do seu Movimento Democrático. A corrupção grassa pelo país e a sobrevivência é a palavra de ordem, a todos os níveis.

“A cobertura vem de cima”, sublinha um professor universitário, que conhecemos no restaurante Saga África, em Douala.

- Então porque é que Biya ganha sempre as eleições? Pergunto de forma ingénua.

- As eleições são forjadas, cher Monsieur! Os militares, os policias e os funcionários públicos votam automaticamente no Presidente. O jogo está viciado com a cumplicidade do governo francês e de Vicent Bolloré (empresário francês e maior investidor estrangeiro no país e o maior transitário na África Central), e continuou: “Os interesses do presidente não são os interesses da maioria do camaronenses. Passa maior parte do ano na Suíça. A fazer o quê? Sabe que houve uma manifestação, feita por compatriotas meus, à porta de um hotel de luxo, em Genebra, onde Paul Biya estava hospedado para lhe perguntar o que é que ele fazia durante tanto tempo na Suíça? Está há trinta anos no poder e nunca percorreu a estrada de Yaoundé para Douala. É preciso que o mundo ocidental saiba estas coisas.”

Quando a Isuzu foi desalfandegada ficamos muito felizes e, ao mesmo tempo, surpreendidos: não faltava nada, exceto as placas de matricula. Depois de cumpridas todas as formalidades tivemos que pagar as novas placas de Transit. Em vez de 59-QV-49 ficamos com a matricula provisória de 02 16 85 que corresponde aos últimos seis dígitos do número do chassis. Este exercício é comum em África; já nos tinha acontecido a mesma coisa quando estivemos na Líbia.

A nossa passagem pelos Camarões foi um ritual de passagem terrível. Não só pela experiência desgastante, em termos físicos e psicológicos, de dias e dias passados na alfândega, presos a uma teia burocrática e corrupta, como na pressão que sentimos no quotidiano. Foram dias de grande tensão.

O autoritarismo, a arrogância e a prepotência das autoridades (policias, militares e guardas aduaneiros) são aterradores. Falamos com muita gente; em tascas, em ruas pouco aconselhadas para ocidentais, em bairros exclusivos de negros, a maioria desempregados, nunca tivemos medo, nunca apanhamos um susto, fomos sempre bem-recebidos. Só tínhamos medo das autoridades.

Desde aturar um crápula de um agente aduaneiro que nos acompanhou até à fronteira de Kye-Ossi para se certificar que a Isuzu saía do país e que só nos arranjou problemas, a começar pelo passe-avant que tinha como destino Bangui (República Centro Africana) em vez do nosso verdadeiro destino: Gabão. Desde enganar-se na fronteira e um policia nos querer multar “porque a lei camaronesa contempla uma multa para quem se engana no percurso”; passando por um outro que nos obrigou a tirar tudo do carro; um policia de trânsito que exigiu a apresentação do boletim das vacinas; militares que me confiscaram, com alguma violência, a máquina fotográfica porque estava a fotografar uns bonecos de madeira e a uma ponte de ferro, e mais não sei quantos que exigiam dinheiro pela nossa passagem, por tudo e por nada. Um pesadelo!

É possível fazer honestamente o próprio trabalho em ambientes onde prevalece a corrupção? Como contrariar esta situação? O país é campeão nos índices de corrupção. Talvez não seja por acaso que os camaroneses chamam aos Overland ocidentais “viajantes de urna aberta”.

Acreditamos que o mundo rural dos Camarões é o antípoda desta realidade. Acreditamos que existe um país diferente, com dignidade, com alma, com princípios. Provavelmente, estão nas pequenas aldeias, onde senhoras com as maminhas ao léu esboçam um sorriso ou acenam à nossa passagem.

O país é muito bonito. O seu clima equatorial proporciona uma selva cerrada, alta e verdejante. Aliás, tínhamos previsto uma incursão pelo interior para visitar uma comunidade de pigmeus e passar por alguns dos seus parques que são dos mais espetaculares do continente africano, como por exemplo o Waza, Bubadjidah, Benue Faro e Kamalue, onde vivem elefantes, leões, panteras, hipopótamos, girafas, búfalos e antílopes. Infelizmente, devido às circunstâncias não foi possível.

E foi pela primeira vez em quarenta anos de viagens que a Glória se virou para mim - estávamos num posto de policia à espera de um carimbo - me disse, com as lágrimas nos olhos: “Manolo, estou farta deste país”.

Chegámos à fronteira do Gabão, sob de chuva torrencial. Mas estávamos aliviados, o pesadelo tinha passado e aquela chuva parecia uma bênção. Chegamos ao posto fronteiriço, no domingo, dia 4, ao meio-dia. O nosso visto era válido até ao dia 5, segunda-feira, até à meia-noite.

Quando nos disseram que não podíamos passar e que tínhamos de regressar aos Camarões, a Yaoundé, para fazer renovar o visto, o mundo desabou.