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“Cada civilização é o resultado do combate travado pelo Homem, para levar a natureza a cooperar com ele”

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No blogue Rituais de Passagem, Manolo e Glória Oliveira contam hoje a passagem por Yaoundé, capital dos Camarões

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Podemos ou não concordar com a substância da frase, mas é o que se pode ler à entrada do museu Blackitude, um dos poucos locais de interesse para visitar em Yaoundé.

Como muitas cidades africanas, a capital dos Camarões tem poucos motivos de interesse. A cidade até tem bons princípios, assenta sobre sete colinas como Lisboa, mas a semelhança é pura coincidência. As ruas fedem, paira no ar um cheiro a podre, ácido, e o ambiente é insuportável. O calor, os esgotos a céu aberto, hábitos de higiene estranhos e as águas estagnadas onde crescem a olhos vistos larvas e insetos, fazem desta cidade uma lixeira a céu aberto. “Já melhorou bastante”, dizem-nos.

A sumptuosidade do palácio governamental numa das colinas que, por coincidência ou não, tem uma vista sobranceira sobre o bairro das embaixadas, Bastos (em alusão a um português), contrasta cruamente com o resto da cidade.

As principais atrações turísticas da cidade são: a Notre Dame de Yaoundé, a grande Mesquita, a Praça da Reunificação (onde se pode ver a famosa Virgem Negra com 3,5m de altura), o jardim público Mfoundi, o jardim botânico de Santa Anastasia, o centro cultural francês, o museu etnográfico (decrépito), o museu Blackitude, o palácio presidencial, e a tribuna presidencial, na avenida 20 de Maio.

Nos arredores da cidade, os bairros de lata de telhado de chapa ondulada são o destino da maioria, onde todas as esperanças se desvanecem. Vindos das aldeias perdem a dignidade e as circunstâncias obrigam-nos a sobreviver. Custe o que custar.

A maioria sai das suas aldeias, arrastados pela pobreza, empenhados à procura de melhor vida na grande cidade; vendem o seu gado, as suas casas, e deixam a família à vulnerabilidade das circunstâncias, com a promessa de um regresso vitorioso.

A alta taxa de suicídios é uma realidade preocupante que as entidades oficiais tentam desvalorizar. Os números não falam por si. Um membro da Organização Mundial de Saúde com falamos, na embaixada do Gabão, preferiu manter o anonimato, mas referiu que os números de suicídios no país estão ao nível de Moçambique, o país que lidera o ranking mundial de suicídios.

Os meios usados são os pesticidas, querosene, químicos domésticos, monóxido de carbono ou drogas. O principal motivo é a vergonha de regressar à sua aldeia mais pobre do que partiu e ter que enfrentar a família e, sobretudo, os “notáveis” da aldeia.

Em Yaoundé, os bairros de lata, milhares e milhares de quilómetros de chapa ondulada, não pedem licença para engolir, ou melhor, para engordar a cidade. Um monstro que é engordado por elites corruptas que condenam milhões e milhões de pessoas a viver na mais abjeta das pobrezas. Ontem, vimos um homem a lavar-se com um sabão num dos esgotos da cidade.

O atroz monstro da marginalização urbana manifesta-se na crueldade infligida por alguns que se agarram ao poder, em proveito próprio, sem olhar o interesse comum, enquanto que uma maioria que não para de crescer é obrigada a esconder-se nas periferias, contaminadas e ignoradas.

Quando perguntamos a um africano se a vida vai bem, a resposta é invariavelmente a mesma: “Graças a Deus vai muito bem”. Mas, à medida que a conversa vai avançando surgem perguntas denunciadoras do verdadeiro estado de alma: “Como é que se passa de áfrica para a Europa?” “Quanto custa a passagem de barco para a Europa?”, “Gostava muito de ir para Portugal, arranja-me maneira?”, “Precisa de alguém para trabalhar em Portugal?”.

Camarões produz petróleo, cacau, café, algodão e enormes reservas de gás natural ainda não exploradas. A desvalorização da moeda resultou num período longo de recessão económica alimentada pela pobreza do país.

Camarões é mais um país de um continente rico, que vive de mão estendida.