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Mudar de vida, de sapatos de trabalho ou até de Ano: Como lidar com mudanças

Kids: volta ao mundo das emoções

Ano novo vida nova. No caso do Projeto Kids, ano novo, continente diferente. Novo artigo da psicóloga Maria Palha, no seu blogue da VISÃO, Kids: volta ao mundo das emoções

Maria Palha

Desta vez deixei o Extremo oriente, no Japão e aterrei na América Latina, mais propriamente na Colômbia.

Na última crónica falei de perdas. Partilhei uma atividade para adultos e outra para as crianças, de modo que todos consigamos apropriar-nos de competências emocionais para lidar com situações de perda. Hoje, aproveitando o momento de virada de ano e todas as resoluções que ele envolve, foco a mudança.

A América latina, e neste caso a Colômbia, surge no projeto Kids (saiba aqui como se pode envolver), por várias razões.

A primeira porque a ideia é criar um KIT de expressão emocional para famílias, enriquecido com respostas de crianças de contextos que lhes exigiram aprimorar determinadas competências emocionais.

A segunda razão está relacionada com números. O Instituto Gallup partilhou um estudo que mostra que este continente tem o maior registo de emoções prazerosas vividas no dia a dia. A a Colômbia ocupa o segundo lugar (não resisto em partilhar uma curiosidade deste estudo, é que o Afeganistão, surge como o País com maior número de gargalhadas dadas por dia. Contudo hoje não vamos passar por lá).

A terceira razão, e esta mais focada no país, é que para além estar na lista de países com maior registo de emoções prazerosas, a Colômbia, é também o país com maior número de deslocados internos do mundo devido aos conflitos . Diria que estes factos transformam a Colômbia, numa verdadeira incubadora de especialistas em gestão de mudança (até de resiliência).

Com uma população de 48 milhões, em 2014 os registos mostravam que cerca de 5,4 milhões de pessoas tinham sido obrigadas a saír das suas casas e mudar de vida por causa dos conflitos vividos.

Os cerca de 50 anos de instabilidade e violência causada pelos paramilitares, pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia- F.A.R.C. - e os cartéis de droga estavam na base destes números. Se disser que o maior narco-traficante do País, Pablo Escobar, morreu apenas em 1993 e o 67º acordo de paz entre as F.A.R.C e o Governo só foi aprovado em 2016, posso dizer que esta realidade passada, está ainda muito presente na vida de um Colombiano. E Sinto que só me apercebi disto, quando conheci o José.

José é um caçador de 87 anos, e responsabilizou-se por me levar à aldeia onde tinha que entrevistar crianças. Ao longo do nosso caminho contou-me que era o caçador privado de Pablo Escobar. Sempre que ele visitava aquele mato, era José que caçava para os seus homens, “apesar de ter manchado as suas mãos com muito sangue, tinha uma enorme alma. Precisamos de mais pessoas com alma” lamentava José.

O Colombiano típico é aquele que nasce em Bogotá, leva os seus pais e muda-se para La Guajira, casa e passa uns anos em Guatapé, com a sua mulher, claro. Vive em Quibdó onde tem filhos, mas a sua morada fiscal do momento é junto a Leticía.

O merengue, a salsa, a religião e a sua família são os elixires essenciais a levar na bagagem para lidar com todas as mudanças pelas quais passa ao longo da vida.

Sem ter ponto de comparação, mas com muitas semelhanças, podemos ver de que forma a Colômbia pode acrescentar valor a Portugal, especialmente no que toca a “reinventar-se”, mudar, inovar, sem que isso signifique uma quebra de valores ou tradição.

Portugal, é um dos países mais antigos do mundo, com uma forte cultura de tradição e rituais religiosos difíceis de romper. Mentalidades fortes, com certezas absolutas, conservadoras e com medo de mudar. Contudo somos também um recetor significativo de populações migratórias, oriundas países Africanos, do Brasil, Ucrânia e até da China. E existem mais de cinco milhões de Portugueses espalhados pelo mundo. Facto que nos mostra que devemos e podemos desenvolver melhores gestões de mudança.

Para além disto, vivemos num mundo que nos exige uma constante reinvenção de nós mesmos, das nossas fontes de rendimento, dos nossos modelos familiares, das nossas estratégias, conceitos e preconceitos. Um mundo onde a mudança é a regra e não a exceção.

Acredito que o que a Colômbia tem para nos mostrar é essencialmente a sua capacidade de mudança, mantendo os seus valores de culto intocáveis: a igreja católica, o sentido de família e hospitalidade.

Isto mostrou-me que, afinal mudar, inovar, arrojar ser diferente, não significa perda de identidade, uma quebra de valores ou de tradição. Pelo contrário, inovar, tentar fazer diferente, pode trazer a uma cultura uma dimensão prática, de humanidade e empatia pelos outros, mais genuína e libertadora, sem preconceitos.

Em tempos, um amigo Português dizia-me que cada 10 anos mudava de profissão. Já tinha sido cozinheiro, fotógrafo e agora preparava-se para tirar o curso de enfermagem. De facto estes percursos de vida não são comuns em Portugal e podem até ser julgados como algo “sem rumo”, “sem carreira”. A pressão social pode ser de tal ordem pesada, que acabam até por ser desencorajados.

Mal cheguei a Bogotá conheci muitas pessoas a viverem a sua sexta/sétima vida.

Confesso que sempre tive uma admiração grande por aqueles que são capazes de usar a mudança para crescerem e desenvolverem-se enquanto Seres Humanos.

A Mama Glória, Colombiana de 58 anos, de olhar brilhante e gargalhada fácil, após um casamento desastroso (mas que lhe deu 4 filhos lindos) decidiu pedir o divórcio, deixar Bogotá e sediar-se em Guatapé. Da sua casa fez um pequeno alojamento local. Disse-me que após os anos que viveu de solidão e isolamento no casamento, ansiava conhecer o mundo, saber como se podia viver de forma diferente. Como tinha pavor de andar de avião, a melhor forma seria mesmo, ter o mundo a vir a sua casa. De facto, num alojamento com apenas 8 camas, por vezes chegava a ter 8 nacionalidades diferentes. Disse-me que há muito tempo não se sentia tão bem, que havia sido a mudança mais drástica da sua vida, mudança que mais resistência e medo lhe tinha trazido, mas, a que mais realização e honestidade consigo própria tinha conseguido.

A Sónia, professora de música de 47 anos, também me marcou pela sua mudança. Ela era a sétima mulher de uma família de 8 irmãs nascidas num vilarejo junto ao Putumayo. A região de Putumayo é uma das regiões que ainda hoje sofre de insegurança devido ao narco-tráfico. Há cerca 2 anos, Sónia, decide deixar Mocoa e sediar-se no meio da montanha de Serra Nevada, num terreno de 1 hectare herdado pela sua filha. Sónia sempre acreditou que a vida pode ser de mais crescimento pessoal e espiritual, mas para isso tem que ser feita em comunidade, com os outros.

Assim, decidiu construir uma pequena cabana (de bambu e plástico) no terreno e começar a plantar Café. Mesmo sem ter um verdadeiro conhecimento agrícola, decide disponibilizar a sua pequena casa para viajantes interessados em colaborar com a nova produção de café. Sei que em 2 anos, a Sónia tem uma cabana com mais de 10 redes (hamacas) para dormir e frequentemente está lotada. Os voluntários são quem a ajudam a cuidar do café. Durante os dias que lá estive a entrevistar crianças, tive o privilégio começar as manhãs com o melhor café do mundo. O café da Estância Madre Terra, era feito por uma das mulheres com um dos sorrisos mais realizados, que conheci até hoje, o da Sónia.

Todas as mudanças começam com uma “urgência”, uma necessidade urgente de mudar. Todas trazem consigo emoções, umas prazerosas outras difíceis.

Enquanto as prazerosas são normalmente bem aceites, as difíceis são tendencialmente rejeitadas. Por isto, as mudanças trazem tantos desafios para quem os vive.

Por isto, porque somos homens de hábitos e conforto, decidi incluir esta dimensão nas entrevistas às crianças.

O que aprendeste com uma mudança que tenhas tido na tua vida?

A Mayo, Japonesa de 7 anos, tal como a sua prima de apenas 6, diziam que o importante era mesmo ajudar outras pessoas, que quando o fazemos deixamos de pensar no nosso problema e sentimo-nos melhor com as mudanças. Já a shizuku (5 anos) contra argumentava dizendo que ajudar os outros ajudava, mas pedir ajuda a um adulto também podia ser uma boa ideia.

A marta e o Diogo, irmãos Portugueses de 5 e 7 anos, disseram ambos que o melhor era não ficar sózinho. Brincar com os primos. Contaram que com o divórcio dos Pais começaram a ficar em casa dos primos e hoje parece que em vez de dois irmãos, são 5.

Na Colômbia, O Javier, de 6 anos, partilhou que nestes momentos fica com muita raiva, mas normalmente reza, e percebe que Deus o ouve quando deixa de ter raiva, consegue parar de chorar e começar a resolver coisas.

A Simona, 9 anos, disse-me que lhe custou muito quando perdeu o seu diário, mas que uma coisa que aprendeu com esta mudança, é que tinha uma oportunidade para o renovar e criar uma forma nova de registar as suas coisas.

A julia de apenas 5 anos, aconselha que se deixe de beber tanto café e se comece a beber chá. Assim custa menos e é mais fácil parar de chorar.

O Guga, de 7 anos, disse que o melhor para deixar-mos de ter medo quando as coisas mudam, é mesmo ter um cão. “Quando fiquei sem o meu avó todos os dias ia ao jardim, brincar com o meu cão, até me habituar à ideia de que ele não iria voltar”.

Normalmente quando se coloca a hipótese de que uma mudança se aproxima, a apreensão, ansiedade o ou medo, são as primeiras emoções a surgir. Face à mudança, há uma tendência a resistir, de modo a tentar preservar os antigos padrões, formas de pensamento e ação. Tratando-se de uma nova condição, possivelmente vai exigir novas estratégias. Durante um período (e isto varia de pessoa para pessoa) a tendência vai ser de negociação, ou seja tento usar as minhas antigas estratégias, vejo se funcionam, tento reajustá-las, e sinto-me mal com o reajuste que tenho que fazer (um adulto sente sempre que deve saber fazer tudo, e este tipo de flexibilidade é muitas vezes sentido como um teste à sua performance e por isto é um estádio com muitas emoções como medo, baixa-auto estima, sensação de “não ser suficientemente bom”, dúvidas e inseguranças face ao futuro). Passado este momento entra-se numa fase de aceitação “ok, isto é diferente, mas não tem que ser pior” e logo em seguida costuma haver uma fase de exploração criativa, onde se começa a tentar fazer coisas de forma diferente, sem que isso traga emoções difíceis. Pelo contrário, muitas vezes traz sensação de “Isto até pode ser divertido”, “eu sou capaz” até que a mudança acaba por se instalar.

Aqui fica uma atividade lúdica que podemos fazer lá em casa e que pode ajudar a desenvolver algumas competências.

Atividade “Um livro de Receitas para as Mudanças”

Nesta atividade vai-se criar um livro de receitas para lidar com mudanças. É necessário ter um livro com folhas em branco. Material de desenho e colagens A ideia é que em família se identifiquem momentos de mudança, situações que a família passou e que exigiram mudar. Depois, cada um deve identificar situações pessoais onde sentiram uma mudança, ou que tinham que mudar. Todos devem identificar no mínimo 1 situação.

Após haver uma lista de mudanças, todos devem escrever e ilustrar pelo menos uma receita de gestão emocional:

I. Uma Receita capaz de sossegar o coração e ajudá-lo a sentir-se melhor com esta mudança.

II. Uma receita capaz de acalmar os pensamentos que surgiram com a mudança, ajudá-lo a ter pensamentos tranquilos, sem preocupações.

III. Uma receita capaz de reduzir as reações físicas que normalmente sentimos com as mudanças, por ex. Os nós na barriga ou o mal-estar que sente no corpo, e que podem ajudar a dormir bem todas as noites.

Boas mudanças para 2018