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Ganhar o Euromilhões, acabar com a fome ou distribuir skates como transportes públicos: Como realizar os seus sonhos?

Kids: volta ao mundo das emoções

Porque devemos pôr as nossas crianças a sonhar é o que se propõe desvender a psicóloga Maria Palha no seu novo artigo no seu blogue da VISÃO, Kids: volta ao mundo das emoções

Maria Palha

Fujieda prometia. Não só porque ainda hoje significa “flor”, mas também porque passados 30 anos Sohei conseguiu realizar um sonho de infância: entrar em Lisboa por Santa Apolónia. Fujieda é uma pequena cidade Japonesa e Sohei é um pintor que decidiu apoiar o “Kids” e me convidou a conhecer as crianças da sua cidade de origem.

O Projeto “Kids” tem como objetivo criar um kit de Emoções para Pais, criado por filhos dos 4 cantos do mundo. Ao longo deste ano, viajo por vários países para entrevistar crianças dos 5 aos 10 anos e recolher delas dicas para se gerir as emoções. Às suas dicas adiciono o meu conhecimento na saúde mental, várias técnicas e ainda atividades que os pais podem usar em casa, para integrarem e promoverem mais competências emocionais nos seus filhos. Comecei por Portugal, fui até a Serra Leoa, estou no Japão e em Novembro sigo para a Colômbia (deixo cerca de 6 países para 2018). Podem saber tudo em mariapalha.com.

Se na última crónica viajei por Quioto e falei da importância da tolerância, hoje vim até Fujieda para entender porque devemos pôr as nossas crianças a sonhar.

Viajar é sem dúvida uma excelente forma de aprender, especialmente sobre a humanidade. Mas em Fujieda, com Sohei e a sua família, aprendi, sobretudo, como sonhar. Tudo começou como deve ser, à mesa, num dos Izakaias da cidade. Se pudesse traduzir à letra, diria que os Izakayas são pubs. Pubs de comida.

Os Izakaias são lugares onde podemos apreciar saquês e também comer. Normalmente são espaços onde se pode viver toda esta experiência sentada/o ao balcão e sozinha/o.

Historicamente, os Isakayas eram lugares de passagem e aos clientes que passavam era servido, ainda em pé, um saquê na sua masu (caixas de madeira que servem de medida para a bebida), e este era bebido ainda encostado ao balcão, de pé. Mais tarde, alguns espaços começaram a ter lugares sentados, mas ao balcão, para que a clientela conseguisse apreciar a sua bebida, desta vez, sem pressas.

Já tinha experimentado alguns Izakayas noutras cidades, mas foi Sohei que me mostrou o seu verdadeiro poder na sociedade japonesa e, arrisco-me a dizer, no mundo.

Tradicionalmente, após um dia de trabalho, os homens passam pelo Isakaya a caminho de casa e normalmente são os mais velhos, ou até o próprio chefe, que paga aos mais novos o que vão consumir. A ideia é que, à medida que vão bebendo, falem livremente sobre coisas relacionadas com o trabalho (aqui, sem qualquer restrição) e também sobre a sua vida pessoal. Para que os mais velhos possam ensinar os mais novos: a pedir, a refilar com o chefe (que muitas vezes é quem está à frente), a lamentar a mulher, a beber e até a viver o mundo. Quase como se estes pubs se tivessem vindo a tornar como uma escola de vida humana e social.

Naquela tarde, Sohei também partilhou que desde os 5 anos que uma imagem não lhe saía da cabeça. Era uma fotografia de Lisboa (como aquelas fotos de desconhecidos que se vendem na feira da ladra) e que desde então, sonhava em visitar a cidade.

Sohei também sempre quis ser pintor e fazia disso a sua vida. Por isso, não tinha muito cash flow (facto que dificultava a realização de dois sonhos numa só vida).Quando casou, partilhou Lisboa com a sua mulher e conseguiu envolvê-la. Envolveu-a de tal forma que a desafiou a vir passar a lua de mel à cidade das 7 colinas. Em 2015, entram finalmente, em Lisboa por Santa Apolónia, “afinal entrar numa cidade com a qual se sonha desde pequenino é como conhecer a mulher por quem estamos apaixonados em segredo há anos, requer um encontro especial. Entrar pelo aeroporto, iria tirar muita intimidade ao nosso encontro”.

Acrescentou ainda que a visita à cidade de Lisboa o contemplou de muitas formas. Que a figurinha que tinha guardado desde os seus 5 anos tinha agora dado lugar à sua primeira exposição de pintura internacional, em maio 2017, Sohei vai expôr no Centro Cultural.

Disse-me, também, que agora podia concentrar-se no seu atual sonho em relação à família: Educar os filhos, com a mesma capacidade de sonhar com que os pais dele o educacaram: “Ser japonês exige muita força de vontade para se conseguir ser diferente. Embora a indepência seja incutida desde cedo, temos que ter muito apoio para seguir os nossos sonhos, pois pode não ser claro o seu contributo para a harmonia social. E os meus pais, se havia uma coisa com que se preocuparam, era em transmitir que os sonhos, sejam eles quais forem, mais ou menos peculiares, mais ou menos diferentes do grupo, só têm uma regra, ser realizados! E é isso que quero passar aos meus filhos!”

Foi num balcão de um Isakaya que Sohei me mostrou o seu "eu" mais íntimo, sem restrições.

Sei que todos os países têm pubs, mas confesso que vi sérios benefícios em criar mais “Cafés de Sonho” em Portugal. Cafés onde os mais velhos nos esperam de braços abertos, com tremoços, para partilhar as suas experiências, e nós os nossos sonhos. Para nos ajudarem a realizar os sonhos de uma vida, e tudo isto ao balcão de um café a caminho de casa.

Consciente de que o sonho não é uma componente emocional, decidi incluí-lo como uma peça fundamental na educação das nossas crianças, pois está provado que desenvolve uma série de competências que afetam diretamente a forma como nos sentimos. Independência, criatividade, valor próprio, sentido de propósito e envolvimento são apenas alguns dos ingredientes que falo.

Por isso uma das perguntas que faço às crianças deste mundo é qual é o seu sonho.

Na Serra Leoa, a Martha, de 7 anos, disse-me que sonhava com o dia em que iria ter comida para dar a todas as pessoas. Em Portugal, o Diogo, de 8 anos, disse que o seu sonho era mesmo que todas as pessoas se deslocassem de skate, e o Martim, de apenas 6 anos, acrescentou que se toda a gente comesse hambúrgueres todos seriam muito mais felizes. No Japão, o Caio, de 6 anos, acrescentou que sonhava com o dia em que os adultos deixassem de dobrar a roupa; Para a Min, de 7 anos, era mesmo conseguir estudar até morrer. A Yoo, de 5 anos, disse que queria ser um especialista de "chopsticks". E quando terminei as entrevistas na Serra Leoa, também um pai desabafou que o seu verdadeiro sonho era que todas as crianças aprendessem a dedicar-se ao Yoga, assim seria mais fácil lidar com as mudanças.

Perante isto, fui investigar como estamos em Portugal em relação aos sonhos e descobri que a maioria dos portugueses em 2014 (registos de estudos mais recentes) ainda sonhava em ter uma casa própria, ter um carro ou ganhar o euromilhões. Muitos têm insónias, por isso não sonham e ainda há aqueles que se recusam a sonhar, por uma questão de gestão de expetativas. As boas notícias em relação aos sonhos, é que não há bons nem mau, o importante é mesmo sonhar!

Se formos literais como os neurocientistas, descobrimos o que nos mostram os estudos desta área: Sonhar está associado a dormir e faz bem à saúde. Os sonhos são fontes de/e para criatividade, aumentam a esperança no futuro e por isso a serotonina, dão sentido de propósito e, acima de tudo, quando partilhados, permitem que pessoas com o mesmo sonho se juntem a nós, aumentando assim a oxitocina (hormona das relações amigaveis).

Para os comuns mortais, sonhar está associado a aspirações. Sonhar é uma habilidade para definir objetivos para o futuro enquanto se mantém a inspiração no presente para os atingir. Se olharmos para as crianças, quando estas sonham deve ser simultaneamente desenvolvida a sua capacidade concreta, na realidade, de o realizar. Para que o Diogo consiga que todos andemos de skate nas ruas de Lisboa, ou até que o Martim seja capaz de transformar Lisboa num McDonald's gigante ou até a Martha de ter um Banco Alimentar global, é fundamental que consigam passar de “dreamers”- sonhadores - a “doers”-fazedores.

Aqui ficam algumas atividades que podem fazer lá em casa com a criança dos 5 aos 10 anos:

1 - Promover o valor próprio: É fundamental que a criança consiga perceber qual o seu valor, o que a torna única. Sabendo isto, conseguirá desenvolver o sentido de pertença, sentir que pertence a um grupo (seja à família, na comunidade, na escola ou com amiguinhos). Como? Faça uma tarde de talentos.

Cada um deve conseguir pensar numa coisa que sabe fazer bem e que o torna único. Depois, recorta, de revistas, pequenas ilustrações que o representem. Coloca todos os desenhos voltados para baixo e cada um escolhe um sem saber de quem é. Em grupo, todos devem apresentar às outras pessoas o talento que selecionaram e todos têm que adivinhar de quem é o talento.

2 - Envolvimento: É essencial promover envolvimento em tudo o que se faz. E com as crianças consegue-se fazê-lo quando tornamos as coisas “fun” e aventurosas. Quando em todas as atividades a criança está de tal forma envolvida que perde a noção do tempo. Alguns estudos dizem que para isto ser possível é essencial que criança sinta que há um risco associado e que o pode correr em segurança. “Missão Explorador”: Usando a ideia dos japoneses, o contacto com a natureza pode ser uma excelente forma de promover envolvimento. Num fim de semana em que esteja família reunida, fazerem uma incursão a um parque e descobrirem bicharocos da região. Há um projeto interessante que se chama http://projectorios.blogspot.pt/ e onde se pode apadrinhar um troço de um rio. Com o apadrinhamento vem uma série de atividades para viver esse troço do rio.

3 - O sentido de propósito: Por definição, é fazer algo de que gostamos, que faça a diferença e contribua para o bem de todos. Em família, cada um deve identificar um talento e uma coisa que goste muito de fazer no seu tempo livre, junta-las e por fim, chegar a um sentido de propósito.