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Tolerância Zero ou Tolerância De ponte. Tolerância Divina, mista e até Tolerância alimentar. O Importante é ser Tolerante

Kids: volta ao mundo das emoções

Novo artigo da psicóloga Maria Palha, no seu blogue da VISÃO, Kids: volta ao mundo das emoções: Desta vez, sobre a tolerância, empatia e compaixão. Chaves para acabar com as guerras na geração dos nossos filhos

Maria Palha

Saía mais pesada. De coração Cheio. Talvez pelos cânticos do mantra do coração que me acordaram naquela manhã, talvez por ter conseguido finalmente apanhar um escaravelho antes de seguir para Quioto. No último artigo falei da generosidade e partilhei uma atividade que pode ser feita com crianças dos 5 -10anos. Hoje viajo por Quioto e pela importância da tolerância.

Quioto, embora tenha dado nome a um rigoroso protocolo de controlo de gases, é uma cidade bastante descontraída. A sua história exigiu-lhe ser uma cidade, essencialmente tolerante.Tolerante a mudança, a diferenças, a turistas e estilos de vida. Começou por ser a capital do império, mais tarde Tóquio roubou-lhe o lugar. E por isso hoje chamam-lhe “Antiga Capital” e (embora para mim, Quioto tenha mais de futurista do que de antigo) as ruas de Machyas - casas tradicionais anteriores à II guerra mundial - não deixam dúvidas da sua sapiência antiga.

O centro da cidade está ordenado segundo as linhas de Feng Shui, mas as áreas periféricas, não mantém padrão do centro. Como se desde início, Quioto se distinguisse pela sua rebeldia em relação às linhas das cidades que seguiam a tradição. Sem dúvida que ao longo de uma viagem, vivemos mudanças a vários níveis. No Japão, a maior viagem de todas é ao nível de reformulação de preconceitos. E foi através da arte que me confrontei com a tolerância e com os meus preconceitos ocidentais. Foi nas lojas de Manga e Animação de Akiabara ainda em Tókio, como as lojas do Sonic, do Dragon ball ou do Jay World que voltei a sentir aquela adrenalina que só o mundo fantástico nos pode dar. E que deixamos de usar à medida que crescemos. Estas lojas, ao contrário do que se esperaria no Ocidente são, acima de tudo para Adultos. É através das animações de Manga que se vive e consome a literatura Japonesa. Os Livros de Tankôbon ocupam muitas das prateleiras das livrarias, e o Miyazaki não pára de esgotar as salas de cinema, com os seus filmes de Totoro. É com muita cor, fantasia e brincadeira que se fala de assuntos de adultos, e se abordam temas que vão desde a ficção cientifica, a romance que fazem chorar ou até mesmo dilemas éticos, filosofias de vida.

É inevitável comparar a sociedade Japonesa adulta, com a sociedade Portuguesa. Em que momento é que deixamos de ter momento de lazer, humor e flexibilidade (tambem falo da física), em prole das responsabilidades de gente grande. Como se ser adulto exigisse uma postura corporal séria, pesada, barriguda e sem dúvida “saber tudo sobre tudo”? A arte levou-me também a pensar ao nível do papel das mulheres, pois, nas ruas de Quioto ainda se veem Gueixas, muitas Gueixas.

E se há coisa que não são, é o equivalente às prostitutas do ocidente, como dizem as más línguas ocidentais. A Gueixa é uma apaixonada por arte: estudante exemplar de arte, canto e dança milenar Japonesa. Identificáveis à distância, pelo seu traje, delicadeza e estatuto, a Gueixa é alguém que conhece muito da cultura do seu país, uma artesã. Muitas vezes os próprios Japoneses recorrem aos seus serviços, por isso mesmo, para conhecer mais das suas raízes culturais.

Ser Gueixa é uam opção de vida que deve ser feita desde cedo, quando a jovem meninda (por volta dos 17 anos) deve decidir integrar a escola das Gueixas, e para isso, deve ter uma conta poupança para as propinas, para pagar os encontros com Gueixas mais velhas, e comprar o primeiro quimono. Para assim se conseguir dedicar à vida de entretenimento. Algumas gueixas chegam a ganhar até 5000euros/aparição. Mas este é apenas mais um caminho de vida. Outro caminho de vida, são as mulheres Japonesas que enveredam pela vida familiar. E ao contrário dos estereótipos ocidentais, a mulher que decide dedicar-se a um projeto de família, não é submissa ou isenta de auto-determinação. De facto, os números mostram que cerca de 64% das mulheres Japonesas trabalham, nem que seja em tempo parcial. A modéstia, primeiro nas conversas com as suas amigas, e a sua autossuficiência são algo muito valorizado nesta cultura. Autossuficiência, porque a mulher “Needy” é vista como um fardo para os outros. A modéstia, pois, a descrição ajudará a ter um melhor sentido de oportunidade na relação com os outros.

A mulher de família é alguém que tem um enorme poder familiar e social. A “koiko mama” - a mãe que é responsável pelo orçamento da família, por garantir que todos estão bem e ainda, que as crianças têm um excelente desempenho na escola. Para alem de que é alguém que deve contribuir para a vida comunitária do seu bairro e por isso, voluntariar-se para tal. Como me disse a Marta, uma amiga Portuguesa, casada com um monge Japonês, “Talvez aqui a grande diferença entre a Dona de Casa japonesa e Dona de Casa Portuguesa” seja o facto de cá, haver um reconhecimento quase oficial e muito grande, quando a mulher faz a escolha de ser uma mulher de família”. Depois há as turistas. Em Quioto, há muitos turistas.

E ao olhar para as ruas de Quioto, apercebo-me da quantidade de mulheres turistas que por cá passam. Sem dúvida, com uma enorme miscelânea de línguas, idades, culturas, famílias, máquinas fotográficas e escolhas de vida. Algumas tirarem licenças sem vencimento para viajar, outras em mudança de trajeto de vida, outras mesmo com filhos para lhes mostrar o “Mundo” e até aquelas que se dedicam a juntar dinheiro para conseguir viajar, nem que seja apenas uma vez por ano.

“Para mim o mais importante, é conseguir ver o mundo; mudar de perspetiva e sentir que há muitas formas de viver, crescer e sentir”, dizia-me a Anne, viajante de 40 anos. Estas realidades são apenas algumas que se cruzam em Quioto. Pessoas que se cruzam diariamente nas ruas da cidade, nos supermercados ou transportes públicos, e que final do dia dormem de consciência tranquila. Pois, se há coisa que a sociedade Japonesa não é, é moralista.

A tolerância é uma atitude fundamental para quem vive em sociedade. Uma pessoa tolerante aceita opinião ou comportamentos diferentes daqueles estabelecidos pelo seu meio social, sem julgamentos ou moralismos. E nós por cá, somos tolerantes? Como sabemos que alguém é diferente de nós? É a Pergunta que faço às crianças de modo a entender o que sentem em relação à tolerância e que dicas de respeito pelo outro nos dão. O Diogo de 8 anos respondeu “é pelo aspeto e se forem gémeos, pela postura”. O Daniel de 5 anos: “porque temos coisas diferentes no corpo...só que eu não percebo muito dessa parte... Depois acrescentou “Mas julgo que podemos, mostrar respeito, fazendo acordos”.

O Miguel de 6 anos, disse que era pelos sabores “Algumas pessoas gostam da outra e essa outra pode gostar ou não gostar da primeira”. Já no Japão, a YeChan de 8 anos, e a ShizukoChande 5 anos, o Yuki de 6 e Caio de 7 anos, não souberam responder a esta pergunta. Apenas a YuChan, de 7 anos, disse-me que devia ser...por exemplo como ela e a sua gémea, a irmã é muito boa em ballet e ela é apenas uma especialista em manejar “chopsticks”.

E só 15 entrevistas depois entendi porque só a Yo tinha conseguido responder “Se me perguntares o que temos de semelhante, é mais fácil, mas se for de diferente...não sei...disse-me ela. O Sohei, um amigo pintor tambem me explicou, o que hoje entendo como a base da tolerância: “se me foco na diferença de quem está á minha frente, tendo a distanciar-me dela, se por outro lado, tento identificar o que temos em comum, em última instância chego à permissa de que somos humanos, com os mesmos medos, a mesma necessidade de ser aceites, sentir segurança, com a mesma vontade de ser feliz ou medo de não conseguir, e por isto, porque somos da mesma especie, vale a pena olha-la de forma única e pôr em prática a minha responsabilidade de a respeitar”.

Segundo o estudo o jornal Público, em 2016 Portugal era o terceiro país da Europa que mais se opunha a acolher imigrantes. Mesmo sabendo que cerca de 1,2 milhões de pessoas procuram proteção na Europa (um número mais alto do que na Segunda Guerra Mundial). Mesmo que a tolerância cultural seja um dos valores da Democracia Portuguesa. Por esta razão, porque acredito que devemos ser mais e mais tolerantes à diferença, menos moralistas em geral, e que a tolerância, empatia e compaixão, são as chaves para acabar com as guerras na geração dos nossos filhos, deixo-vos uma atividade de como a podemos promover lá em casa com os miúdos:

1. Pegando nas revistas ou jornais velhos lá de casa, a criança deve escolher imagens (partes que constituem uma cara, nariz, boca...) para recortar e construir uma cara. Em seguida devem escolher as imagens que mais gostam e usá-las para fazer uma máscara através de colagens numa folha que servirá de porta retratos.

2. Fazer um serão e jantar multi-cultural: Escolha um continente e depois um país, decore a casa com elementos desse país, faça uma comida que o represente e mostre á criança como se brinca (ex. Ásia: monte um TiPi, e ao jantar mostre como se come com pauzinhos, por exemplo). Tambem posso aproveitar para sugerir ao adulto lá de casa tolerar o dia do “hoje comemos como nós quisermos” a refeição é escolhida pelas crianças e comida como elas quiserem (à mão, na mesa sem pratos... – sim, desculpem a bagunça!!)

3. Em família, todos devem identificar as características diferentes de cada um e porque é que cada uma é importante para o grupo.