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Mutilação feminina: "Calma, é a minha cultura. Isto é África"

Kids: volta ao mundo das emoções

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Primeira crónica, desde a Serra Leoa, da psicóloga Maria Palha, no seu blogue da VISÃO, Kids: volta ao mundo das emoções, no qual dá dicas que podem ajudar a introduzir as emoções na educação lá de casa

Maria Palha

É oficial, aterrei na Serra Leoa para dar início a mais um projecto: Criar um Kit de SOS das emoções para pais, com a ajuda de crianças (dos 4 cantos do Mundo). A ideia é dar a volta ao mundo das emoções das crianças de modo a compilar o que sentem sobre as preocupações dos adultos e o que lhes recomendariam como soluções. E só depois, partilhar algumas dicas do que podemos fazer para que a linguagem emocional seja progressivamente introduzida na educação das futuras gerações. Se nos preocupamos em ensinar as crianças a lavar os dentes, a não falarem com estranhos ou a dizerem “obrigado”, porque não lhes ensinamos desde cedo a lidar com a frustração, a fazer escolhas socialmente mais responsáveis, a pedir ajuda quando têm medo, a pedir desculpa quando magoam o outro?

A Serra Leoa é um país muito resiliente, foi obrigado a reinventar-se ao longo de várias décadas. Primeiro com a guerra civil (entre 1991 e 2002), que resultou na morte de mais de 50 mil pessoas e muitos milhares de refugiados num país com 7 milhões de pessoas. E depois, entre 2013 e 2015, o ébola.

Em 1462, Pedro da Sintra, navegador português, chegou ao país e deu-lhe o nome de Serra Leoa. Quer dizer, alguns rumores dizem que o nome “Serra Leoa” se deve ao facto deste território, quando avistado do mar, ter muitas serras e, além disso, o trovejar na época das chuvas se assemelhar ao rugido de uma leoa. Aqui são conhecidos cerca de 16 grupos étnicos, cada um fala o seu dialecto. E embora a língua oficial seja o inglês (língua em que se lecciona também todo o currículo escolar), o Krio é o que mais se ouve nas ruas do centro e sul do país. O Krio deriva do inglês, mas dá-me um enorme prazer ouvir as expressões “Pikin” (pequenos) ou “No Sabi” (não sei), pois aproxima-me a casa.

Uma das minhas prioridades ao aterrar é garantir que tenho condições para começar o projecto: um tradutor e crianças com diferentes características. Neste momento já tenho filhos de gangsters em Freetown (na capital), crianças surfistas (em Bureh Beach, e crianças das zonas das minas de ouro (em Kabala – uma das zonas mais remotas do país).

Aqui, independente da região, idade ou estado civil, a primeira pergunta que é feita é “How Di Bodi?” (Como está o corpo?, em krio) como forma de cumprimentar quem chega. Adorei esta pergunta, não só porque de facto, se não nos sentimos bem fisicamente, tudo o resto fica afectado, mas também pelas respostas que ela origina: “under my clothes“ (de baixo da minha roupa) “bodi fine” (corpo bom) ”bodi sick...bodi fine..this is Africa” (corpo doente...corpo bom...isto é África).

As entrevistas seguem sempre o mesmo guião e a primeira pergunta que faço é se a criança sabe o que são emoções. Foi com esta pergunta que Maray, de 10 anos (residente em Kabala). me surpreendeu.

Maray começou por responder que sabia “mais ou menos” o que eram as emoções. Mas depois da brincadeira que faço inicialmente, rapidamente me disse que já tinha entendido. Disse que devia ser o que sentia no peito naquele momento. Contou-me que se estava a esforçar para deixar que as inquietudes passassem, pois preparava-se para o ritual de iniciação de entrada na vida adulta.

Trata-se de 2 semanas com várias danças, práticas e muitas outras mulheres, que culmina com um encontro com uma circuncisadora tradicional, uma mulher mais experiente, que lhes fará, uma a uma, mutilação genital feminina – MGF. A MGF é a remoção de parte ou de todos os órgãos sexuais externos femininos – os lábios vaginais, o clitóris. Geralmente é feita com uma lâmina de corte, com ou sem anestesia. Os registos de mortes oriundas desta prática continuam a ser muito elevados, claro.

Na UE, os registos mostram que 500 mil mulheres são vítimas ou estão em risco desta prática. E nós por cá não somos excepção, temos cerca de 8 mil mulheres nestas condições. Oito mil é também o número diário de meninas que correm este risco, o que significa, leiam bem, pelo menos 300 mil raparigas por ano. Mesmo que me obrigue a retirar os óculos ocidentais quando mudo de país, foi impossível não pensar na definição da Organização Mundial de Saúde: “É uma violação de direitos humanos de meninas e mulheres, é uma violência extrema de discriminação e violência com base no sexo”.

Por isso, lhe pergunto se conhece as consequências desta prática, da infertilidade, da impossibilidade de ter prazer sexual para o resto da sua vida e até do risco de vida que corre. Se não tem medo. E foi neste momento que ela me respondeu “Bodi fine. This is my culture…this is Africa...stay quiet because this will pass” (Corpo está bom, esta é a minha cultura… isto é África. Manter calma, porque isto vai passar). Simultaneamente explicava-me que este ritual cumprirá os mitos em que esta prática assenta, como o aumento da fertilidade ou a fidelidade da mulher.

Preocupada com o facto de ainda hoje presenciar-mos realidades destas, Maray também me alertou para a urgência de cumprirmos a nossa responsabilidade perante as futuras gerações: ensiná-los a identificar situações que os podem pôr em risco, a tomar decisões pessoal e socialmente mais responsáveis, dar-lhes ferramentas para que consigam pedir ajuda e regular as suas emoções em prol de mais bem-estar. E isto, para mim, centra-se na educação emocional.

Relembrei com esta conversa que as emoções são mutáveis (o mesmo não posso dizer de uma MGF, que deixará marcas e consequências a vários níveis para o resto da vida de uma mulher. Acredito que esta conversa foi o motor de arranque para os artigos que vou publicar ao longo dos próximos meses.

Verifiquei que em ambos os lugares. Portugal e Serra Leoa, os adultos assumem erradamente que as crianças são menos capazes de entender a complexidade do mundo, mesmo que elas tenham que se adaptar, reagir e desenvolver ideias com a mesma rapidez que o seu cérebro se desenvolve e tudo isto com base na sua experiência emocional diária.

Também vi, que tanto os pais de Maray, como os pais portugueses, raramente dedicam tempo a introduzir a educação emocional nas suas dinâmicas familiares. O que a maioria dos cuidadores desconhecem é que introduzir as emoções na educação das crianças traz outra dimensão à parentalidade. O cuidador deixa de ser “alguém inatingível” e passa a Ser Humano, alguém que comete erros e os reconhece (pedindo desculpa por exemplo, em vez de disfarçar ou ignorar), alguém que valoriza o Ser e não o Fazer (os resultados) que ajuda os seus filhos a serem seres racionais e emocionais, com opinião, com capacidade de dizer “eu não posso aceitar isto”, “eu devo lutar por aquilo”, “eu escolho isto e não aquilo”

Pois bem, e como não nascemos ensinados, nem vimos com manual de instruções, aqui ficam algumas dicas que podem ajudar a introduzir as emoções na educação lá de casa:

1. “Dar um nome”: A maior frustração das crianças é sentirem que o adulto não os entende, “devem sempre fazer tudo, sem que a sua opinião seja tida em conta” por esta razão, é benéfico transmitir a sensação à criança de que entendemos as suas frustrações, as suas reacções, as suas sensações. E uma das formas de o fazer, sem grande margem de erro, é verbalizar o que se está a passar, repetir simplesmente o que a criança está a fazer, acrescentando uma razão lógica para o que deve fazer. Por exemplo, birra porque não quer pôr o casaco: “eu sei que não gostas de pôr o casaco, mas está frio e podes ficar doente”, "Imagino que seja frustrante quando não queres fazer uma coisa que te pedem, mas é importante porque....”. Outro exemplo: a birra porque não quer jantar “sei que não gostas que te obriguem a comer isto, mas tens que comer para crescer...”

2. Reconhecer o que se está a passar, em vez de ignorar. Frequentemente em consultório tenho pacientes em fases mais frágeis das suas vidas, preocupados com o facto de os seus filhos os verem a chorar, tendendo a esconder o que se passa. As crianças são muito sensiveis e é importante reforçar esta expressão, por isso, neste casos, é aconselhável que o adulto explique o que se passa “que está triste, frustrado...” em vez de ignorar.