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Diga não ao pargo congelado

Flor de Sal

Margarida Rebelo Pinto

Hill Street Studios

Nos dias que correm, desparecer do mapa e esperar que o tempo resolva as coisas é mesmo só falta de educação e ausência de caráter. Além disso trata-se de um duplo erro, porque além de ficarem mal na fotografia, só permanece no congelador quem quer. O pargo não tem pernas para sair de lá sozinho, mas uma mulher tem

Existem duas salas virtuais na cabeça dos homens, uma é a Sala de Pânico e a outra é a Sala do Gelo. Quando um homem se entusiasma com uma mulher que é exatamente aquilo que ele sempre idealizou, é bastante comum assustar-se. Não é por acaso que o povo diz quando a esmola é grande, o pobre desconfia. Mark Twain expressa a mesma ideia de uma forma mais literária, ele diz que existem duas grandes desgraças na vida, uma é querer desesperadamente uma coisa, a outra é alcançá-la. Quando um homem sente que lhe saiu a lotaria em forma de mulher, o primeiro pensamento que o assalta é; e agora? Será que vou ter unhas para isto? E, enquanto as unhas crescem, ele vai para a Sala de Pânico, um lugar secreto, escuro e sem janelas, com ruídos de animais da selva, na tentativa de adiar o desafio e de se preparar para o futuro. Se for corajoso, sai até três dias depois, se for medroso, precisa de uma média de três semanas. E se for parvo, pode dar-se o caso de nunca mais sair.

Em outras ocasiões já escrevi sobre a Sala de Pânico, mas ainda não aprofundei o conceito da Sala do Gelo. A sala do gelo é como uma arca congeladora para onde os homens gostam de imaginar que armazenam uma relação, qual um pargo congelado. Isso mesmo, pargo, ou qualquer outro alimento passível de ser congelado sem perder sabor nem nutrientes.

Quando era miúda passei algumas temporadas na quinta de uns amigos dos meus pais que eram agricultores. Na parte de trás da casa principal, perto dos galinheiros, existia um frigorifico gigante onde armazenavam a fruta, sobretudo peras e maçãs, deliciosas por sinal. A proprietária tinha um casaco de peles dentro da arca que vestia sempre que precisava de lá entrar, fosse para guardar a fruta ou a ir buscar. Aquela imagem nunca mais me saiu da cabeça.

Com a desagregação das relações amorosas que se tem vindo a espalhar pela sociedade como uma doença de pele, os homens habituaram-se cada vez mais a pegar e largar, alimentados pela ilusão de uma oferta, até há poucos anos muito mais escassa. Vou dissecar: há dez anos era impensável conseguir a companhia de uma mulher através de uma aplicação. Os catálogos de mulheres para sexo fácil eram constituídos por sites da especialidade, revistas eróticas e calendários de marcas de pneus. Ainda que o sexo fortuito tenha sempre sido uma prática comum, não estava institucionalizado como tal. Além disso era condenado pela sociedade. Os pais obrigavam as filhas a casar quando perdiam a virgindade e os rapazes não tinham outro remédio. Alguns fugiam ao destino, mas essa pressão existia.

Hoje em dia, tudo mudou. O sexo passou a ser, muitas vezes, o primeiro prato que se serve, quando as pessoas mal se conhecem e ainda estão longe de ter uma relação. Nada contra, se ambas as partes assim o desejam, se ambos são adultos e sabem ao que vão. A questão de fundo é as mulheres quase nunca querem só sexo pelo sexo. Não vale a pena negar e evidência de que as mulheres sonham, desejam e procuram quase sempre uma relação. É claro que algumas podem querer apenas satisfazer o desejo carnal temporariamente, mas não são a maioria. E, sem uma obrigação de compromisso, os homens aproveitam a tendência vigente e entram no modo logo se vê. O modo logo se vê na cabeça deles pode ser o deixar andar, ou o pôr de lado, reservar, termo culinário usado para temperar e pôr de lado. E é assim que as mulheres vão parar à arca, qual pargo congelado. Os homens, cujo cérebro funciona por gavetas e seções, arrumam-nas, como se as embrulhassem em película aderente, até ao dia em que lhes apetece pargo no forno.

Rapaziada, seria simpático da vossa parte parar para pensar um bocadinho neste particular, antes de avançar para o ringue, tentar perceber o que a outra parte quer e o que está disposta a aceitar. Acredito que este comportamento tenha raízes ancestrais, já que durante milénios os homens se ausentavam para caçar e lutar, enquanto a mulher vivia confinada ao burgo, cumprindo o seu papel de cuidadora e recolectora. Talvez no vosso subconsciente pensem que as coisas são mesmo assim, um tipo vai e volta e a Penélope está sempre ali. E talvez seja mesmo assim, porque também existe na génese feminina a vocação para a espera. Mas há maneiras e maneiras de fazer as coisas. Ausentar-se sem dar notícias durante semanas era inevitável na Idade Média, quando o mundo das comunicações se limitava a mensageiros, sinas de fumo, pombos-correio e falcões. Nos dias que correm, desparecer do mapa e esperar que o tempo resolva as coisas é mesmo só falta de educação e ausência de caráter. Além disso trata-se de um duplo erro, porque além de ficarem mal na fotografia, só permanece no congelador quem quer. O pargo não tem pernas para sair de lá sozinho, mas uma mulher tem.

Por último, convém não esquecer que quem vai ao mar, perde o lugar. Uma determinada mulher, que para um homem pode ser só mais uma, é quase sempre o sonho de outro homem, que nem sequer precisa de fazer um estágio na Sala de Pânico para agarrar.

Quem não nasceu para pargo, nunca em pargo se irá tornar. Seria mais correto declinar definitivamente o interesse, em vez de fazer uma gestão do espaço na arca, congelando descongelando e voltando a congelar. Nem as mulheres são carne para canhão, nem a comida descongelada deve voltar à arca.

A população feminina agradece que metam na cabeça, duma vez por todas, que ir para a Sala de Pânico é aceitável – nós às vezes também não sabemos bem o que queremos – mas a Sala do Gelo não é para pessoas, nem para relações. É para caixas de gelados, para os brócolos e para o pargo.

Não sejam parvos.

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Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto é uma das mais famosas escritoras nacionais, com 26 livros publicados, 16 dos quais romances, e com mais de um milhão de exemplares vendidos numa carreira de 30 anos. Margarida decidiu que ia ser cronista quando tinha apenas 10 anos e leu As Farpas e os textos de Manuel Portugal no Tempo. Publicou a sua primeira crónica no primeiro número d’ O Independente, como cronista-mistério: chamava-se Miss X 22, a sua idade à época. Gosta de comida japonesa, de ir ao ginásio cinco vezes por semana e é viciada em sms. Escreve na visão.pt sobre sexo, amor e bom senso, com uma pitada de flor de sal. Porque a vida sem sal não tem graça nenhuma…